Esporte

Tiro esportivo cresce no Brasil

Olimpíadas e Estatuto do Desarmamento despertaram o interesse pelo tiro esportivo no país

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O tiro esportivo é a modalidade que deu ao Brasil as primeiras medalhas em uma Olimpíadas: na Antuérpia em 1920. No Rio, em 2016, o tiro abriu o quadro de medalhas brasileiro. Apesar de não concorrer em popularidade com o futebol, vôlei ou basquete, o tiro tem seu espaço e proporciona fascínio aos seus praticantes e certa dose de desconfiança em quem não está ambientado com o esporte.

As categorias mais praticadas no Brasil são com bala e ar comprimido. As modalidades olímpicas são disputadas com pistola ou carabina, de ar comprimido ou de fogo. As provas variam entre 10, 25 ou 50 metros, deitado, três posições ou tiro ao prato. Além das modalidades olímpicas, têm diversas especiais, tais como silhueta metálica, tiro de defesa, fuzil esportivo, duelo, carabina mira aberta.

Além das Olimpíadas, o presidente da Federação Brasiliense de Tiro Esportivo (FBTE), Kerginaldo Dantas, cita que o Estatuto do Desarmamento contribuiu pelo maior interesse. As restrições para a aquisição e porte de armas de fogo para defesa pessoal despertaram o interesse pelo esporte: “O Regulamento para a Fiscalização de Produtos Controlados dá o direito de comprar uma arma, de calibre permitido e restrito, para participar de eventos de tiro esportivo”.

Requisitos para porte e aquisição de arma são rigorosos

 

No entanto, mesmo para a prática do esporte, atender a todos os requisitos não é simples. Kerginaldo relaciona os documentos necessários: “certidões da Justiça Federal, da Eleitoral, da Militar, do Distrito Federal, atestado de aptidão psicológica e o nada consta da Polícia Civil. E não tem a garantia de que o pedido vai ser autorizado”. Ainda é obrigatória a participação em curso de formação para o aprendizado do manuseio e para a participação em competições.

Com relação à arma, é preciso a obtenção do certificado de registro e de uma guia para transportar o equipamento de casa até o local da prática. O presidente da Federação reclama do excesso de exigências: “Quem quer comprar uma arma de competição é muito difícil. A arma é de pequeno poder ofensivo e não tem outra utilidade senão para o esporte”.

Gosto vem da infância

O analista de integração de dados, Eduardo Jacob, 49, deu seus primeiros tiros ainda adolescente. Há três anos investiu na compra de boas armas, filiou-se à FBTE e focou na modalidade de ar comprimido: “A precisão desse equipamento é uma coisa que me fascina”. Com relação à sensação de atirar, Eduardo sente que o tiro esportivo mexe com o espírito e ajuda na concentração do dia a dia. Como outro esporte qualquer, tem que praticar e se dedicar para conseguir os resultados.

Eduardo, André e César realizam sonho de infância

Eduardo, André e César realizam sonho de infância

Praticante há nove meses, o advogado André Patrus Ayres Pimenta, 42, afirma que desde criança tinha o desejo de atirar: “Estou adorando, é muito gostoso. Você vem no final de semana para cá, passa algumas horas, esquece da vida, é uma terapia. Sai de cabeça leve”.

Há também a questão familiar, principalmente para os atiradores casados. Passar parte do final de semana num estande pode causar atritos em casa, mas existem formas para contornar. O empregado da Caixa César Asvolinsque, 42, não tem esse problema. Ele e a esposa praticam e competem: “A gente mata os outros de inveja. Geralmente, são os homens que vêm. Um ou outro traz a esposa e eu e Carla ficamos no processo de convencimento”, explica César.

O sonho de muitos esportistas é chegar a uma Olimpíadas e Renato Portela, 54, natural de Luziânia, Goiás, conseguiu esse feito: foi o representante brasileiro na categoria de tiro ao prato. Desde menino, Renato gostava de caçar e, com a proibição, migrou para o tiro esportivo: “Comecei no tiro ao prato por simular uma caça”.

Renato Portela disputou a Rio 2016 (Foto: Renato Portela)

Renato Portela disputou a Rio 2016 (Foto: Renato Portela)

Renato já foi dez vezes campeão brasileiro, conquistou a Copa Continental no Chile, Copa das Américas por equipe em Porto Rico. Em 2006, ganhou o Prêmio Brasil Olímpico como melhor atleta do tiro esportivo nacional entre todas as modalidades. Mesmo com tantos troféus conquistados, a experiência de disputar os Jogos Olímpicos foi, para Renato, incomparável: “É um evento bem mais grandioso. Encontrei lá as pessoas que encontro sempre nos campeonatos mundiais e fiquei tranquilo até demais. A torcida participando achei maravilhoso”.

Na categoria em que disputou eram trinta e dois atletas e Renato terminou a competição na vigésima segunda posição. Um bom resultado para quem não é profissional, ainda mais considerando que ficou à frente de dois medalhistas olímpicos: “Não somos profissionalizados. Lá fora o pessoal só faz isso. O que eles ganham lá eu gasto aqui”.

Custo

Com relação às armas e munições, o investimento é proporcional à ambição do competidor. Cesar Asvolinsque tem duas armas de fogo: “uma é das mais baratas, calibre 22, e custa em torno de R$ 1.500. A outra, calibre 38, uma winchester daqueles filmes de faroeste, custa cerca de quatro mil reais”. Mas esses valores são baixos se comparados com outros tipos de arma: “Tem gente aqui que participa com armas tchecas de R$ 12 mil”.

Os preços são proporcionais à ambição do atirador

Os preços são proporcionais à ambição do atirador

As armas de ar comprimido são mais complexas, portanto, tendem a ter valores mais altos. “Minhas armas não são das mais caras, estão em torno dos R$ 7 mil. Tem mais simples entre cinco e seis mil reais. Há armas bem baratas, sem nenhuma customização, mas cada novo componente – gatilho, mola, borrachas, luneta, cilindros de recarga – é acrescentado no custo”, explica Eduardo Jacob.

A munição para as armas de pressão é mais barata. Segundo Jacob, uma lata com 250 unidades está em torno de R$ 40. Para armas de fogo, depende do calibre e do processo de fabricação. “Para calibre 22, gasto em torno de R$ 500 o milheiro. A munição da winchester, calibre 38, pago sessenta reais a caixa com cinquenta unidades”, calcula César.

Confusão

“Você não parece ser violento!”. Essa é uma frase que o praticante do tiro ouve. O interesse pela arma muitas vezes é confundido com gosto pela violência. Para evitar problemas, os praticantes transportam as armas de forma discreta.

Segundo Renato Portela, no tiro não tem acidente: “no futebol, por qualquer coisinha um dá na cara do outro. No nosso esporte, o competidor só pode municiar a arma na posição de tiro, só anda com a arma aberta e descarregada”. Renato diz que o plebiscito sobre o desarmamento ajudou a esclarecer.

André Patrus reclama que há um preconceito contra quem pratica: “Quando tomam conhecimento da arma, parece que você está com uma doença contagiosa. Transporto no porta-malas de meu carro, descarregada, sem nenhuma intenção de usá-las para me defender”. Cesar se diverte com a reação de algumas pessoas: “Às vezes, escuto algo do tipo ‘você não parece uma pessoa violenta’. Respondo: ‘realmente, você tem a ideia correta sobre mim’”.

Para maiores informações, acesse http://www.fbte.org.br e http://www.cbte.org.br/

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