Entrevistas

O poder da música no desenvolvimento de uma criança

Idealizado pelo professor Ricardo Dourado Freire, projeto de musicalização da UnB oferece curso para recém-nascidos a partir do sexto mês de vida

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#bebês #musicalização

A música pode nos transportar para lugares que nem imaginamos. Ricardo Dourado Freire é professor do Departamento de Música e diretor do Instituto de Artes da Universidade de Brasília (UnB). Ele é o fundador do programa que acolhe bebês a partir do sexto mês de vida. Para o desenvolvimento do aprendizado, é utilizado o Método Suzuki. Essa forma de ensino é feita através do envolvimento dos pais com a inserção da música na rotina do bebê. Atualmente o professor atende um total de 900 alunos. Neste ano o projeto completa 15 anos e acabou de receber o Prêmio Profissionais da Música 2017. Confira os principais trechos do bate-papo de Ricardo com o Portal de Jornalismo do IESB.

Como surgiu a ideia de criar um programa de musicalização infantil?

Tudo começou a partir de uma experiência pessoal. No meu doutorado nos Estados Unidos, em 1997, tive a oportunidade de estar em uma escola que oferecia a educação infantil. Lá, o meu objetivo era fazer musicais, recitais, concertos, mas a partir do nascimento dos meus dois filhos a música começou a ter outra dimensão na minha vida. Comecei a trabalhar a musicalização com crianças na minha casa, com os meus filhos. Como eu fiz licenciatura na UnB e também um curso de formação de professores surgiu a oportunidade, em um ano e meio, de dar aula de musicalização para crianças nos Estados Unidos. Eu voltei para o Brasil em 2000 e em 2002 começamos o curso de musicalização na UnB.

Por que o projeto é oferecido para crianças a partir dos seis meses? Qual o limite de idade?

É muito saudável desenvolver o trabalho de musicalização antes mesmo do nascimento do bebê. Como as mães ficam preocupadas, pelo fato das vacinas e cuidados que se deve ter com um recém-nascido, foi estipulada uma idade mínima de seis meses. Para participar essa criança deve ser cadastrada no e-mail listadeespera.mpc.unb@gmail.com. Ela será cadastrada em uma lista de espera aguardando surgir uma vaga. A idade limite para participar do programa é de nove anos.

Com seis meses a criança ainda é muito pequena para entender o que está acontecendo. Quais em resultados em iniciar tão cedo essa musicalização?

A criança manifesta um raciocínio a partir dos seis anos. Mas para ela manifestar esse raciocínio, como aprender a ler e escrever, houve toda uma vivência anterior. Essa é a perspectiva da musicalização, o que eu chamo de educação informal. Não é uma educação baseada em provas ou em saber o que a criança aprendeu, mas uma educação voltada em plantar sementes para germinar no futuro. Essas experiências vão refletir e ajudar no aprendizado, seja na música ou em qualquer outra atividade.

Como funciona o curso?

O curso tem três partes. Uma parte de musicalização até os quatro anos e meio, depois um período em que eles escolhem o instrumento, chamado de pré-instrumental, que vai de quatro anos e meio até os seis anos, e nessa idade a criança escolhe um dos nossos instrumentos, que são violino, viola, violoncelo, flauta doce, flauta transversal, clarineta, violão e piano, que se estende até os nove anos de idade.

Como é a participação dos pais nas aulas?

Os pais são essenciais no desenvolvimento deste trabalho, porque são eles que estimulam a criança. Quando um professor canta uma música na aula, é um incentivo para que depois todos os pais cantem junto a música ensinada. Existem situações em que os pais aprendem a música com o professor e cantam para a criança quando estão nas suas casas.

 Como funciona e o que é o Método Suzuki para a educação musical no seu programa?

O Programa de Musicalização recebeu o Prêmio Profissionais da Música 2017

O Programa de Musicalização recebeu o Prêmio Profissionais da Música 2017

É um método específico de iniciação para o instrumento. Ele foi criado para trabalhar com violinos, mas nós utilizamos tanto no violino como também na viola, violoncelos e flauta doce. Então, quando existe a iniciação instrumental, momento em que a criança está iniciando, utilizamos o Método Suzuki. É importante destacar que essa forma de trabalhar valoriza muito a participação da família. O triângulo criança, professor e família é essencial no ensino do instrumento.

O que o projeto busca despertar nas crianças?

A música, para mim, é muito importante enquanto experiência humana onde todas as pessoas podem vivenciar. A relação com a arte é cultivada, então a inicialização musical na infância dá para a criança uma série de experiências. Essa relação com a música pode ser desenvolvida desde cedo. Às vezes, você está vendo um pôr do sol que parece uma obra de arte, mas ele só se torna uma obra de arte a partir do momento em que você para o que está fazendo e permite que a imagem diga alguma coisa para você. É uma sensibilidade que não acontece de um dia para a noite. Esse é o nosso objetivo, aprender a admirar as experiências.

Recentemente o programa de musicalização recebeu um prêmio. Como foi essa premiação?

Nós recebemos o Prêmio Profissionais da Música 2017. É um prêmio educativo que foi um reconhecimento nacional do nosso trabalho, fruto de um esforço coletivo e não de apenas uma criança, onde todos se destacaram. A nossa ideia de educação quer fazer um maior número de pessoas crescerem e se sentirem bem. Uma educação que promove o que cada um pensa.

 Muitas crianças já passaram pelo programa, como eles estão hoje em relação à música?

Nós temos muitos alunos que seguiram vários caminhos. Alguns fazem música, outros entraram para a universidade, mas muitos também estão seguindo seus caminhos em outras profissões. Diante disso, o importante é ter a música como um apoio para o desenvolvimento emocional. Eu sempre pergunto aos meus alunos o que a música representa para eles, e eles me falam que ela os ajuda a se sentir bem, independente daquilo que vão fazer no futuro.

 

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