Entrevistas

“A Lava Jato é uma menina muito travessa e surpreendente”

Em entrevista ao Portal de Jornalismo Iesb, o jornalista Vladimir Netto detalha o seu livro “Lava Jato – O juiz Sérgio Moro e os Bastidores da Operação que Abalou o Brasil”

Vladimir Netto é um jornalista brasileiro, pai de duas filhas e filho da  jornalista Miriam Leitão. Já trabalhou nas redações do Jornal do Brasil, revista Veja, IG e jornal O Globo. Atualmente trabalha como repórter especial na TV Globo Brasília e também é vice-presidente da Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Considerado um dos principais jornalistas na cobertura da Operação Lava Jato, Vladimir aproveitou todo o seu conhecimento sobre a investigação e escreveu um  livro sobre o tema, o livro “Lava Jato – O juiz Sérgio Moro e os Bastidores da Operação que Abalou o Brasil”, publicado pela editora Sextante. O livro deve virar série da Netflix, dirigida por José Padilha.

Por que escrever um livro sobre a Operação Lava Jato?

Por que é uma história que valia a pena escrever. A Lava Jato tem uma história diferente de todas as outras que eu já tinha cobrido. Eu tenho mais de 20 anos de jornalismo, mais de 10 anos dedicados ao jornalismo investigativo e já cobri muitos escândalos, várias operações da Polícia Federal e essa desde o começo se mostrava diferente. Por exemplo, um ex-diretor da Petrobras preso era uma coisa que ninguém esperava, depois vieram as delações premiadas, que também eram uma coisa que ninguém esperava e depois os envolvidos começaram a falar, a revelar as coisas como se fosse uma caixa de Pandora que nunca tinha sido aberta. Então isso me atraiu porque nas outras operações eu sempre via uma frustração nos investigadores e nos jornalistas, porque a gente via que era uma história que poderia deslanchar, mas não deslanchava e a Lava Jato foi pra frente por uma série de fatores.

Como foi o seu processo de apuração?

O processo de apuração demorou 15 meses. Eu começava lendo tudo que tinha sobre a fase (da Operação Lava Jato), todos os documentos do processo. Então, eu traçava uma primeira linha. Depois eu começava uma nova fase de apuração, que era a fase das entrevistas, porque assim, você tem os fatos enfileirados em uma ordem cronológica, mas isso não daria um livro legal. O que eu achei que melhorou e tornou o livro interessante foi justamente a história que as pessoas viveram. Então eu fui atrás dessas pessoas, através da emoção que elas tinham, das coisas que só elas tinham visto, os detalhes que elas tinham percebido. Essas pessoas são especialistas no que elas fazem, tinham noção de qual o detalhe era mais importante. Então eu deixei as entrevistas me guiarem. O que a pessoa falava, eu supunha que era aquilo que ela tinha guardado de mais importante, era o que tinha tocado nela. Deixei que as lembranças das pessoas que viveram e que vivem a Lava jato até hoje me guiassem.

Qual foi a sua maior dificuldade?

Foram duas. A primeira foi falar com todo mundo, porque era muita gente. A segunda foi filtrar a informação, porque tinha muita informação e eu não queria dar nenhuma opinião, pois a própria construção da narrativa pode passar uma opinião. Então eu fiquei muito focado nisso, de poder contar tudo, sem poder contar todos os detalhes porque não cabiam no livro. Eu tinha que contar os detalhes mais interessantes, garantindo uma imparcialidade e um equilíbrio para que as coisas pudessem ser lidas por todo mundo.

O livro sobre os primeiros dois anos da Operação Lava Jato foi lançado em 2016 e é uma das principais obras sobre a investigação.

O livro sobre os primeiros dois anos da Operação Lava Jato foi lançado em 2016 e é uma das principais obras sobre a investigação.

Qual foi a sua maior surpresa?

Sobre a Lava Jato o que mais me surpreendeu foi a força do acaso. Claro que a determinação das pessoas, o preparo das pessoas e a oportunidade aproveitada foram fundamentais para a Operação, mas teve um ‘que’ de sorte que me surpreendeu muito, um ‘que’ de improvável, de inesperado, de surpreendente e de mágica. Eu até falei com uma jornalista colombiana assim: ‘Não duvide porque a Lava Jato é uma menina muito travessa e surpreendente. Às vezes você acha que já decifrou o que vai acontecer, daqui a pouco  ela (a Operação) vem e muda tudo de novo.

Como você decidiu o que iria e o que não iria entrar no livro?

Foi um feeling meu. Peguei o que as pessoas achavam mais interessante, só que elas me davam 10 histórias e eu usava duas ou três. O Cunha (Deputado cassado Eduardo Cunha, do PMDB) me contou quatro histórias e eu não usei nenhuma, porque nenhuma se confirmou e eu tinha que checar pra ver se realmente era verdade. Então foi mais feeling mesmo, do que eu achei que poderia prender o leitor. Essa história é muito importante para o Brasil, então era importante que o leitor fosse até o final, que não achasse um livro chato.

Você acha que houve parcialidade?

Eu tentei ser o mais imparcial possível, mas as pessoas às vezes falam ‘Ah, você fez isso, puxou o saco de fulano e ciclano’. Mas eu acho que essas pessoas não leram direito o livro. No livro eu coloco crítica aos advogados, eu falo que o Sergio Moro (Juiz responsável pela Lava Jato) errou isso e aquilo. Então o que foi fato, eu coloquei. Por exemplo, o Moro soltou uma fita e foi questionado, coloquei. O Ministro Teori Zavaski soltou uma decisão criticando, eu também coloquei. Eu acho que esses comentários cessaram completamente, pois acho que a sociedade estava irritada, dividida, acho que com o avançar da Lava Jato, ficou claro pra todo mundo que ela não é uma perseguição à um partido, ela é uma investigação super apartidária. É uma investigação de um esquema de corrupção e, sinto muito, todos os partidos se lambuzaram, o sistema político se contaminou. Então a história é isso, é essa tragédia. Acho que com o tempo os comentários sumiram e as pessoas entenderam que eu tentei apenas fazer um registro histórico. Essa história tem que ser entregue de forma inteira e o país vai decidir, analisar e os historiadores se debruçarão sobre essa história. Eu quero só dar uma pequena contribuição jornalísticas. O jornalista escreve o rascunho da história e depois os historiadores vão lá e escrevem a versão final. Eu quero só deixar esse rascunho.

Você viu na Operação e no livro uma oportunidade de se projetar?

Não. Porque eu acho que tinha o meu espaço. Apesar de ser filho da minha mãe (a jornalista Mírian Leitão), que é uma pessoa muito famosa e tem uma presença muito marcante nessa área do jornalismo, eu já tinha meu lugar reservado, já tinha batalhado por ele. Eu não imaginava que o livro iria ser esse sucesso todo, foi um golaço. Mas eu nenhum momento eu vi isso como um plano para me projetar mais, porque eu já tinha o meu espaço garantido na imprensa, que é o que você busca quando está começando. O que eu imaginava era que viriam outros livros que outras pessoas iriam escrever, só não pensava que ele iria virar uma referência e fiquei muito feliz mesmo. Foi uma benção que Deus me deu. Acho que mudou o patamar, eu sou mais reconhecido agora, mas esse não era o plano. E ter a oportunidade de escrever esse livro não me faz melhor que ninguém.

O livro vai virar uma série no Netflix. Quando isso deve acontecer?

Os direitos do meu livro foram vendidos para o diretor José Padilha e ele está dirigindo uma série no Netflix sobre a Operação. Não é uma série documental, ela é baseado na Lava Jato, inspirada nela. Ela já está sendo filmada e conta com atores como Selton Melo, por exemplo.

Você pretende lançar mais livros?

Sim. Eu já estou começando a escrever o livro dois, que deve se chamar Lava Jato 2, onde eu vou seguir a história de onde eu parei, que foi maio de 2016. Vou tentar seguir uma certa cronologia. No primeiro, eu segui em ordem cronológica. No segundo, pretendo tentar me libertar um pouco dessa cronologia e também estou com uns projetos pra tentar deixar o livro mais legal que o primeiro.

No livro, você demonstra uma certa admiração pelo juiz Sergio Moro, por que?

Eu acho que ele é um servidor que está fazendo um “treco” direito. Ele erra também. Todos nós erramos, somos seres humanos. Mas eu acho que ele é uma cara que tá fazendo uma “parada” positiva, porque eu acho que a Lava Jato é uma coisa positiva.  Ela tem erros, acertos, exageros e um monte de coisas. Mas acho que ele é servidor público bem intencionado, competente e que faz um bom  trabalho. Isso foi o que eu escrevi no livro.

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