Educação

Aulas antes das 8h dividem opiniões

No DF, apenas duas instituições de ensino iniciam as atividades a partir das 8h; especialista alerta sobre a importância da disciplina para dormir

Tags:
#distritofederal #educação

Às 7h, as sirenes já soam no Centro Educacional Leonardo da Vinci; 7h10 no Maristão; 7h20 no Colégio Moraes Rego. Às 7h30 é a vez dos alunos do Colégio Projeção entrarem em sala, assim como estudantes do turno matutino de toda a rede pública do Distrito Federal. No entanto, a regra divide opiniões. O presidente do presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe-DF), Álvaro Domingues, reconhece que, segundo diversos estudos, pode haver um desperdício da primeira hora de aula entre os alunos que começam a despertar e ter uma atividade mais produtiva depois das 8h. Por outro lado, é preciso considerar também o número de horas de sono que o estudante tem. “O que se observa na atualidade é que o fato de começar as aulas mais tarde não garante que os alunos tenham tido a quantidade de horas de sono minimamente exigida para sua saúde”, ressalta.

Segundo a Academia Americana de Pediatria (AAP), os adolescentes deveriam entrar em sala de aula somente depois de 8h30 – horário comum em países como Estados Unidos e Inglaterra. De acordo com o Sinepe-DF, somente duas instituições de ensino em Brasília iniciam as aulas após as 8h: a Escola Americana de Brasília e a Escola das Nações – ambas com funcionamento conforme o calendário americano.

Diferenças

No Distrito Federal, segundo a Secretaria de Educação  (SEEDF), existem cerca de 460 mil estudantes, sendo que 82 mil estão no Ensino Médio. Sara Viana, 16, aluna do 2° ano no Colégio Projeção, em Taguatinga, é uma dessas. Mesmo morando ao lado do colégio, ela sempre chega para a aula em cima do horário. Ela conta que acorda bastante sonolenta e nota que com os colegas não é diferente. “Eu tento ao máximo ficar disposta logo no primeiro horário, coisa que nem sempre acontece”. A mãe dela, Valdilene Viana, confirma. “Ela é uma boa aluna, mas nunca acorda disposta. Ainda que eu incentive o contrário, ela tende a dormir mais tarde”, revela.

Relatos científicos dão conta de que uma maior sonolência nos adolescentes deriva também de mudanças hormonais inerentes a essa etapa da vida. Durante essa fase, ocorre o atraso do sono – um processo fisiológico que retarda a sensação de sonolência e também o impulso de despertar. Além disso, segundo a Academia Americana de Medicina do Sono (AASM), os adolescentes entre 13 e 18 anos devem ter, regularmente, entre oito e dez horas de sono por noite.

Para manter uma média de nove horas de sono, o adolescente que precise acordar às 6h teria que ir dormir em um horário pouco provável: às 21h. Também aluno do 2° ano do Ensino Médio, Thiago Cotrim costuma dormir às 23h, o que lhe dá uma média de sete horas diárias de sono. “Eu fico sonolento boa parte da manhã, então adoraria entrar mais tarde na escola. A vontade e meu pique seriam outros”, opina Thiago, estudante do Leonardo da Vinci.

Disciplina

Especialista em Medicina do Sono, o neurologista e professor do Departamento de Neurologia da Universidade de Brasília (UnB) Raimundo Nonato Rodrigues destaca a disciplina para dormir como um contraponto. “Uma possível mudança no horário do início das aulas contemplaria algumas pessoas que, embora sejam disciplinadas, geneticamente precisam dormir mais”, diz.

Rodrigues observa que, quando a pessoa acorda sonolenta, ela não está dormindo o suficiente ou o sono, apesar de ter um número de horas razoável, não tem qualidade satisfatória. Ele também aponta uma série de cuidados para estimular o sono reparador, como evitar o uso de aparelhos eletrônicos na cama e bebidas cafeinadas antes de dormir, mas critica a tentativa de “transferir a responsabilidade da disciplina e educação dos filhos para as instituições escolares”.

O subsecretário de Planejamento e Avaliação da SEEDF, Fábio Pereira de Sousa, concorda. Para ele, a resposta está no controle do horário de dormir feito pela família, e não na mudança de horário das escolas. “Muitas vezes o aluno que chega morto de sono em sala de aula conta ao professor que ficou on-line com amigos durante a madrugada. Crianças e adolescentes, frequentemente, estão indo dormir depois da meia-noite, 1h”, adverte.

De acordo com o subsecretário, não existe, atualmente, qualquer iniciativa para atrasar o horário de início das aulas nos colégios da rede pública do DF – mesmo com a implantação do turno integral. “A jornada ampliada não implica em mudança no horário de entrada dos estudantes do turno matutino”, avisa Sousa.

Das 673 escolas geridas pelo Governo do Distrito Federal (GDF), 332 já adotaram a jornada ampliada. Nesses casos, os alunos do matutino passam a sair às 15h30, mas continuam entrando em sala às 7h30. Já os alunos do turno vespertino passam a entrar às 10h e saem às 18h30.

Segundo Sousa, entretanto, a avaliação de indicadores contradiz a expectativa de melhoria do desempenho com o início das aulas mais tarde apontada pela Academia Americana de Pediatria. “Todos os indicadores que possuímos apontam para melhores resultados dos alunos do turno matutino”, ressalta.

A explicação, segundo ele, é simples. “O aluno que estuda de manhã, ao acordar, vai logo para a escola – e, a partir daí, todo o dia dele é pautado pelas atividades escolares. Já o aluno que estuda no turno vespertino e acorda mais tarde, permite-se uma série de distrações antes de entrar no colégio, como ver TV, jogar, etc., e chega na escola às 13h30 já agitado”, observa. Mas ele frisa que a regra, é claro, tem exceções. “Se o estudante e a família se comprometem com disciplina e com a aprendizagem, tanto o aluno do turno da manhã como o da tarde podem ter um bom desempenho escolar”, garante.

    Deixe uma resposta

    Comportamento
    Símbolos satanistas são normalmente usados pelas bandas Fãs e músicos do Black metal reclamam de tabu
    Ciência e Tecnologia
    O estudante que tem utilizado a realidade virtual para melhorar seus trabalhos e se destacar na arquitetura Realidade virtual ganha espaço na arquitetura
    Cultura
    Fotografia de Roger Ballen Exposição apresenta as fotografias grotescas e bizarras de Roger Ballen

    Mais lidas