Entrevistas

‘Eu podia ser morta ou presa, mas o Brasil me acolheu’

Refugiada no Brasil há 37 anos, a iraniana Manijeh Kiana trabalha como médica voluntária e agradece ao país que a abrigou

Bianca Andrade 4 - Entrevista - Copia

Aos 77 anos, Manijeh Kiana trabalha como médica homeopata voluntária na Diretoria de Saúde Ocupacional, do GDF (DSOC). Ela e a família chegaram ao Brasil em 1980, refugiados da perseguição religiosa que acontecia no Irã.  Trinta e sete anos depois, ao recordar tudo o que passaram ao chegar no país, Manijeh acredita que é um milagre. “Nunca pensei que ia passar por todas essas dificuldades e que ia conseguir superá-las. Às vezes, eu penso que nós temos forças latentes e não sabemos. E quando chega uma circunstância em que a única solução é ser forte, você se surpreende”. A seguir, a entrevista da médica ao Portal de Jornalismo do IESB.

- Portal Jornalismo do IESB: Quando você veio ao Brasil?

- Manijeh Kiana: Eu, meu marido e meus filhos saímos do Irã em 1979. No início, foi aquela correria, pois nós tínhamos medo de que fechassem a fronteira. Primeiro fomos para a Argentina, mas não consegui validar os documentos para exercer minha profissão. Em 1980, uns primos meus moravam aqui e disseram para virmos, pois aqui talvez teríamos chance. E consegui validar todos os meus documentos. Eu tinha 39 anos.

- Por que saiu do Irã?

- Começou uma revolução no Irã. O governo islâmico assumiu o poder e então começaram uma perseguição às minorias religiosas. A minha religião, Bahá’u'lláh (em português a “Glória de Deus”) * tem princípios universais contrários ao que eles tinham. Aqueles que não saíram estão presos ou mortos. No hospital que eu trabalhava, eles matavam os médicos que não aceitavam negar a sua fé. Os jovens que terminaram o segundo grau, não podiam nem ir para a faculdade porque na hora que escrevem a religião que acreditam, eles são banidos.

- Você já era formada em medicina quando veio para o Brasil?

- Sim! Me formei na faculdade em Istambul, na Turquia, onde vivi com toda minha família. Fiz um ano de residência na Alemanha e voltei ao Irã. Lá fiz residência em pediatria.

Manijeh Kiana antes de vir ao Brasil

Manijeh Kiana antes de vir para o Brasil

- Como foi o processo para validar os documentos de médico no Brasil?

- Eu tive que estudar muito. Primeiro eu precisava aprender português. Depois de três anos estudando, em 1983 fiz minhas provas e consegui o meu CRM. Quando eu recebi a carta com meu nome registrado no CRM do Brasil, foi o dia mais feliz da minha vida! Depois surgiu oportunidade de fazer um concurso público para a Fundação Hospitalar e eu passei. Quando me mandaram um telegrama avisando, eu pensei: “Cheguei aqui sem idioma, sem nenhum conhecimento e depois de três anos eu passei em um concurso que mesmo alguns brasileiros não passaram.” Foi um milagre.

- Você desanimou alguma vez?

- Quando eu cheguei aqui, conheci um médico que também era iraniano e pedi para ele me orientar a respeito das provas. Ele falou: “A única orientação que eu posso te dar é desista, porque você não vai conseguir.” Eu desanimei, pensei em voltar para casa, estudar mais. E aí lembrei de uma história de um rei que queria escolher um ministro. Colocou uma porta grande e disse que quem abrisse a porta seria o escolhido. Muitos nem se mexeram achando que a porta era pesada demais. Um homem pequeno e magro, tirou o paletó, foi correndo, empurrou e a porta abriu. O rei tinha deixado a porta encostada. Ele só queria saber quem tinha coragem. E aí no mesmo instante, lembrei que minha mãe estava rezando por mim e eu falei: “Eu vou tentar.”

- Como a homeopatia entrou na sua vida?

- A homeopatia foi algo que me apaixonei. Trabalhei como pediatra durante 10 anos no Irã e 15 no Brasil. Os pacientes sempre perguntavam: “Será que podemos misturar remédios homeopatas com os alopáticos?”. Por curiosidade eu fui estudar. O curso tinha sido criado há dois anos na UnB e aí me apaixonei. Eu percebi que a homeopatia é um tratamento integral do ser humano. É bem mais profundo. Tem que ter conhecimento da parte emocional, do íntimo. E então eu gostei, senti que tinha afinidade com a minha alma. E então trabalhei durante 13 anos com homeopatia para adultos até que me aposentei.

- Como ficou a sua vida depois da aposentadoria?

- Eu me aposentei em 2010. Só que os sete anos que estou aposentada eu nunca deixei de trabalhar. Eu trabalho voluntariamente porque eu sinto que tenho uma grande dívida com esse país. Eu podia ser morta, eu podia ser presa e o Brasil me acolheu. Consegui trabalhar e me aposentar como qualquer médico brasileiro. Então, eu sinto que tenho dever de ajudar o Brasil na cura. Enquanto eu estiver em pé e conseguir andar, vou trabalhar voluntariamente pelo Brasil. Considero o Brasil, como meu segundo país. Me sinto grata.

- Como você acha que estaria sua vida, se nada disso tivesse acontecido?

- Minha vida estaria completamente diferente. Mas eu não ia ter vivido essa aventura. Nunca pensei que ia passar por todas essas dificuldades e que ia conseguir superá-las. Às vezes, eu penso que nós temos forças latentes e não sabemos. E quando chega uma circunstância em que a única solução é ser forte, você se surpreende.

- O que mais te marcou na sua trajetória como médica?

- O que mais me marcou foi quando comecei homeopatia. Eu tinha muita amizade com meus pacientes. O ultimo dia que atendi, primeiro de maio de 2010, um paciente meu, um jovem universitário, faltou aquele dia da faculdade e me trouxe um buquê enorme de flores brancas e ficou de fora do consultório. Ele dizia: “Eu quero fechar o seu trabalho com esse buquê de flores. Eu quero ser o seu último paciente”. Isso me tocou até a alma.

* A religião nasceu na Pérsia, conhecida hoje como Irã. Acredita-se que Bahá’u'lláh, o mensageiro de Deus para a era da maturidade humana, trouxe ensinamentos espirituais necessários para a unificação dos povos. “Eu acho que ele deixou um presente para nós. Ele explica que existe uma só humanidade, um só deus e a religião é uma só: A religião de Deus”, explica Manijeh.

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