Entrevistas

“Optar pela amputação só me trouxe vantagem”

Atleta paralímpica Thaís carvalho contou que só depois de perder parte da perna ela conseguiu se tornar atleta e lembra das cirurgias que enfrentou ao longo da vida

A servidora no Hospital de Base Thaís Carvalho sofreu um acidente, aos 3 anos de idade,  enquanto dançava. Por causa de uma doença chamada pseudoartrose congênita, a fratura sofrida na perna nunca calcificou, o que levou a brasiliense a sofrer com a doença até os 22 anos. Após uma série de cirurgias e idas e vindas ao hospital, em 2014 Thais decidiu amputar a perna. A rotina de procedimentos havia se tornado insuportável. Hoje, com 25 anos, Thaís pratica tiro com arco e agradece o fato de ser amputada, ao dizer que se não fosse o diagnóstico e a tomada da decisão da amputação, junto aos médicos, não teria se dedicado tanto ao esporte, a ponto de competir em uma paralimpíada, e que se soubesse que a faria tão bem, teria tomado a decisão antes.

 Foi muito difícil a tomada da decisão de amputar a perna?

Essa decisão foi até bem tranquila porque eu sofri dos 3 aos 22 com várias cirurgias. Quando eu estava andando de novo, precisava fazer outra cirurgia, ficar meses sem andar, reaprender a andar, usar muleta, andador… foi quando comecei a pensar na amputação como uma solução. Eu estava bem tranquila quando decidi. Acho que a minha família reagiu de forma mais assustada do que eu. No meu caso, seu eu soubesse o quão bem me faria, teria feito antes.

Quais foram as maiores dificuldades enfrentadas após a amputação?

Na realidade, só foi vantagem. Meu tempo de adaptação pós cirurgias era muito maior. Depois da amputação, com quatro meses eu já estava competindo, que era uma coisa que eu não podia fazer depois das cirurgias. A única problemática foi porque a amputação não teve uma cicatrização muito boa porque minha pele já era muito frágil devido às outras cirurgias. Eu não me adaptei muito bem às próteses. [Elas] me feriam muito, então foi a única dificuldade.

Como o tiro com arco entrou na sua vida?

Eu sempre fui muito ativa e adorava praticar esportes, então entrei para o Centro de Treinamento de Educação Física Especial (Cetef). Eu preferia os esportes com raquete e comecei a jogar badminton, que é semelhante ao tênis, mas é com uma espécie de peteca. Como na época eu ainda não era amputada, o atrito no chão me machucava bastante. Então eu percebi que na quadra ao lado algumas pessoas atiravam com arco. Foi quando, aos 19 anos, decidi perguntar se eu poderia praticar. Comecei no esporte, gostei e após idas e vindas devido alguns problemas, resolvi ficar de vez e tem sido muito bom.

Thaís em um treinamento de tiro com arco

Thaís em um treinamento de tiro com arco

Quais são as maiores dificuldades como atleta?

Conciliar tempo é uma das maiores dificuldades. Alguns amigos vivem só do esporte, mas eu preciso trabalhar. Eu trabalho, estudo, treino, e separar tempo para essas coisas faz você tirar tempo de outras coisas que gostaria de fazer. Às vezes preciso reduzir tempo com minha família, meus amigos. Costumo dizer que o tiro é o meu segundo trabalho. Tem gente que acha que as viagens para competições são férias, mas não temos descanso, é intenso, tem cronograma, acordar cedo, cuidar da saúde… precisamos ter uma preparação.

Como foi participar pela primeira vez da paralimpíada?

Foi uma sensação muito diferente. É algo com uma proporção enorme, que move um país inteiro. Quando você não conhece, espera ver algo meio “esporte café com leite”, mas quando você chega lá, percebe que é algo com alto rendimento, com competições acirradas também. O evento é incrível e o fato de ter sido no Brasil nos deu outra sensação. A cada tiro a torcida ia à loucura, era uma sensação que eu não tinha experimentado ainda.

Na sua opinião, é mais difícil conseguir patrocínio para atletas paralímpicos do que para outros atletas?

Eu acredito que sim. Não se trata só da questão do atleta paralímpico ou olímpico, mas o tipo de esporte que você pratica. O pessoal da natação, do atletismo, por exemplo, tem mais possibilidade de conquistar medalhas, pois são diversas competições devido ao fato de existir mais modalidades. Por outro lado, o atleta da minha modalidade passa toda a competição em busca de apenas uma medalha, no máximo duas. Dessa forma, a tendência é que os empresários invistam mais em atletas que possam ganhar mais medalhas.

Você tem apoio da sua família e amigos?

Tenho muito. Minha mãe e minha irmã me apoiam demais nessa parte. Meus amigos me ajudam muito e meu namorado é o principal motivador. Me ajuda em tudo, vai para treinos comigo. Quando não temos tempo para namorar, eu digo “vamos namorar no campo”. Eu acho isso fundamental. É importante de mais contar com eles, ter esse apoio faz toda a diferença. Cada conquista eu sinto que não é só minha, é também da minha família, dos meus amigos e do meu namorado, porque está todo mundo junto nessa luta.

Como é viajar para fora do país para competir? E você vai sempre acompanhada?

É uma experiência muito boa. Essas competições internacionais são custeadas pelo Comitê Paralímpico Brasileiro, então eles pagam nossa viagem, hospedagem, tudo. Não vamos sozinhos, é sempre uma delegação mesmo. Uma comissão técnica. Mas eu não levo ninguém da minha família ou amigos. Além dos atletas que irão competir, a comissão escolhe cerca de cinco pessoas para nos ajudar a carregar as malas, os equipamentos, resolver os problemas, além dos técnicos e uma equipe de saúde, geralmente uma fisioterapeuta e uma psicóloga.

Thaís e o parceiro de esporte, Francisco, no mundia de tiro com arco na Argentina (Foto: Henrique Junqueira)

Thaís e o parceiro de esporte, Francisco, no mundia de tiro com arco na Argentina (Foto: Henrique Junqueira)

Dos títulos que você conquistou, qual se orgulha mais em ter?

É bem difícil porque eu gosto de todos, mas o que conseguimos no mundial que acabamos de voltar, nesta semana, é bem importante. Conquistamos medalha de prata, por equipe mista, eu e o Francisco Barbosa. O Brasil nunca tinha subido ao pódio num mundial de tiro com arco, então foi uma das maiores conquistas. No Parapan-Amenricano de Toronto, em 2015, também fui vice-campeã e foi uma emoção muito diferente. Na Paralimpíado do Rio, apesar de não ter conseguido medalha, também me marcou muito porque eu fiz o melhor que eu pude e fiquei muito feliz com meu desempenho.

 

 

Qual é a sua meta como atleta?

Eu quero ser campeã paralímpica, um dia. Mas, mais do que ser campeã, a ideia de continuar me sentindo bem, gostando do que faço, essa sensação é maravilhosa. Eu já tive épocas em que não estava me sentindo tão feliz como já tinha me sentindo antes. Graças a Deus passou. Então a medalha é só um bônus. Minha meta é um dia ser campeã paralímpica sim, mas ser campeã atirando extremamente feliz.

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