Entrevistas

“Todo mundo fala que o jovem é o futuro, mas ninguém acredita nele”

O empreendedor social Max Maciel luta para dar voz ao jovem da periferia e tirá-lo da situação de invisibilidade

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O empreendedor social Max Maciel, 34 anos, se dedica há 18 anos às causas sociais. Ele é pedagogo por formação, especialista em políticas públicas com foco em gênero e raça pela Universidade de Brasília (UnB). Max se empenha na mudança da cidade onde nasceu, Ceilândia, e acredita que a juventude tem o potencial da transformação do meio em que vive. Ele coordena a Rede Urbana de Ações Socioculturais (Ruas) e o projeto Jovem de Expressão.  Nesta entrevista, ele fala sobre sua jornada na militância e qual a importância do engajamento.

O Jovem de Expressão tem o papel de empoderar?

Os próprios jovens já são empoderados. Nós somos pessoas que fazem esses empoderamentos ganharem visibilidade, destaque e superações sobretudo. A juventude tem muito o que dizer. O problema é que a gente fica falando demais e escuta eles de menos. O que nós estamos fazendo é ouvir. Ouvir eles e dar espaço para as potencialidades que eles desenvolvem.

Como a militância começou na sua vida?

A minha militância do movimento social, sobretudo com a juventude, ela começa minha própria vivência no território. Eu estou falando de uma Ceilândia da década de 90, onde nós tínhamos que omitir no currículo que morávamos na cidade. A baixa estima aqui era muito presente, porque as pessoas não valorizavam o território, não investiam no território. E a gente resolveu, desde 98, se organizar para buscar saídas: através da cultura, da arte e da conversa.

Você acha que o engajamento deve partir de onde?

Eu penso que o engajamento deve ser de todos para todos. Agora, num debate identitário só os comuns conseguem se engajar na luta pelo seu, com mais propriedade por suas questões. Não quer dizer que sozinho ele vai conseguir resultado. Ele vai precisar de estar junto, em bloco para poder conquistar suas demandas. Esse engajamento surge primeiro da vontade de viver, que é foda. Eu estou falando de uma periferia. Ser jovem em periferia é uma realidade vulnerável. Você não tem direito a cidade. Você não tem direito ao transporte público. Na sua expressão artística, a sua vestimenta é o padrão suspeito de abordagem. Ele é a principal perspectiva de ser preso. Então, engajar é viver. Fazer parte do engajamento é a necessidade que a gente tem de existir. Ninguém vai vir aqui falar por eles.

O que torna essa luta gratificante?

Acho que a felicidade interna bruta também é importante. Você viver bem não é só ter muito dinheiro não. Você viver bem é você ter direitos. Ter direito à saúde, ter direito à segurança pública, ter direito à uma boa educação, ter direito de ser mulher, sem sofrer com o machismo, ter direito de expressar sua fé livremente, sua orientação sexual. Esse empenho vem para denunciar as opressões do dia a dia.

Qual o impacto dos movimentos sociais na sua vida pessoal?

Estou há 18 anos nessa parada e posso dizer para você que na minha geração não tinha outra coisa melhor a se fazer, senão isso. Não estou dizendo que quem não fez, escolheu errado. Eu estou dizendo que o impacto pessoal não é simplesmente “ olha eu ajudei alguém, olha eu fiz minha parte de caridade”. A satisfação pessoal, saber que eu consegui romper tudo aquilo que as pessoas disseram que eu não ia consegui fazer. Eu não estou falando de ser empreendedor de um negócio. Eu estou falando de ser empreendedor social. De criar tecnologias, projetos e produtos que valorizasse e cuidasse do outro, valorizasse e cuidasse do território, valorizasse e cuidasse do discurso.

Qual o impacto do Jovem de Expressão na comunidade?

Max Maciel na sede do Jovem de Expressão

Max Maciel na sede do Jovem de Expressão

Se eu convidasse você para cá em 2006, possivelmente se você descesse em uma parada e dissesse que queria ir na Praça do Cidadão iam te dizer “ Você é louca, quer fazer o que lá? ”. Aqui era um conflito armado terrível. Esse prédio aqui era o Na Hora, nem o Estado quis ficar aqui. Nós não viemos para cá para pacificar nada. Nós viemos para pactuar o território. Para dizer que o território é de todo mundo. Inclusive daquele que se quiser vir fazer uma alguma coisa ruim vai descobrir que não tem como. Então, hoje o espaço é uma referência. De segunda à sexta são mais de 150 jovens por dia nesse espaço. Imagina se isso fosse em todas as praças, todas as cidades. Cada jovem aqui custa em média R$200 por mês, o estado gasta mais de R$1.200 com um internado.  Ou seja, eu consigo, com o mesmo valor atender mais de dez.

Qual o diferencial do trabalho de vocês?

Nós temos computadores e biblioteca disponíveis para a população, sem controle. Nós não estamos aqui para regular. O crime não pergunta se o jovem está triste, se ele brigou com a namorada, se ele tirou nota boa. O crime simplesmente agrega. Nós não. Nós condicionamos tudo. Condicionamos se ele tem nota boa, se ele está na escola. Olha, se ele está na escola, já está contemplado. Nós temos que pegar quem não está e fazer estar. Se eu for fazer um projeto só para quem tem nota boa na escola, então é um projeto dos contemplados, dos favorecidos. O cara é favorecido porque já se superou. O outro está excluído porque não consegue entender a fala daquele professor.

Como se sente hoje, depois de tantos anos de luta?

A sensação é de dever cumprido. É ver esse espaço funcionar sem eu precisar estar aqui. Eu estou aqui porque gosto. Esse espaço funciona sozinho. Eles têm a chave, eles tocam, eles arrumam o que tem que arrumar, buscam parceiras. Estamos fazendo essa troca. Não sou mais eu que gesto, do ponto de vista local. Eu gesto do ponto de vista geral. O dia a dia aqui é coordenado por duas manas que já foram alunas nossas. Nós estamos saindo para dar lugar para essa galera. Troca de poder é importante. Eu vou estar feliz em qualquer lugar que eu vá, ciente do que foi a construção nossa aqui.

Serviço

Jovem de Expressão
Endereço: EQNM 18/20, Bloco C, Praça do Cidadão, Ceilândia Norte, Brasília – DF, 72210-553
Telefone:(61)3372-0957

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