Cidadania

É mais arriscado ser gay na periferia

Homossexuais relatam a diferença de tratamento nas ruas do Plano Piloto e das regiões administrativas, onde as ameaças são mais constantes

Ser homossexual no Brasil é um desafio. As dificuldades começam em casa, com a família. Em seguida, o preconceito ronda as escolas, o mercado de trabalho e as ruas. No país em que mais se mata homossexuais no mundo, segundo pesquisa realizada pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), o medo é constante para quem faz parte da comunidade LGBT. Mesmo na capital do país, a discriminação está presente todos os dias. No entanto, aqueles que moram na periferia do Distrito Federal acabam sentindo o peso da violência duas vezes. O simples de fato de ser gay é a grande preocupação de muitos ao colocar o pé para fora de casa.

O vendedor Edson Freitas afirma que se sente inseguro na região onde vive, em Samambaia

O vendedor Edson Freitas afirma que se sente inseguro na região onde vive, em Samambaia

O vendedor Edson Freitas, 25 anos, mora em Samambaia e sente o peso de se vestir e sair de casa. As peças de roupa dele são variadas. Macacão, chapéus, gravatas borboletas, sapatos e diversos assessórios compõem o armário do vendedor. No entanto, para sair nas ruas da quadra onde mora, ele diz que é preciso respirar fundo. “Muita gente mexe comigo. Me chamam de veado, gay, bicha e por aí vai. Não me importo, não devo nada a ninguém e pago minhas contas”, comenta. Edson cursa o sexto período de enfermagem na Asa Sul. De acordo com ele, no centro de Brasília as ofensas e xingamentos são incomuns. “Raramente falam alguma coisa comigo quando estou a caminho da faculdade. Essa diferença é gritante, chega a ser um absurdo”, lamenta.

Para Edson, que assumiu a homossexualidade aos 14 anos, o preconceito se deve ao fato dele ser gay. “Nas ruas você não vê alguém mexendo com homens por serem héteros. Mexem com as mulheres, mas não por causa da orientação sexual”, desabafa. O vendedor afirma que isso faz com que ele esteja aberto também à violência usual, como assaltos e agressões. “Enxergam na gente uma fragilidade. Acham que somos menos homens e por isso devem nos agredir ou roubar. Tem dias que são assustadores”, relata.

Edson reclama que por ser gay, as provocações nas ruas são frequentes

Edson diz que, por ser gay, as provocações nas ruas são frequentes

A situação de Edson não é única. O atendente Felipe Pereira, 22 anos, afirma passar pela mesmo situação. Ele mora em Ceilândia e frequenta festas no Plano Piloto. “Gosto de me reinventar nas roupas. Adoro aquelas bem chamativas, que vão chocar todo mundo na balada”, conta. O atendente tem cabelo longo, costura as próprias roupas e adora maquiagem. Felipe conta que os xingamentos nas ruas são frequentes, mas que não se deixa abalar. “Não vou deixar de viver minha vida em função dos outros. Vou sempre andar como me sinto bem”, garante.

Na área central de Brasília, Felipe relata que pode vestir o que quiser. “Vou em muitas festas no Conic e na Asa Sul. Lá, ninguém diz nada e até me elogiam”, brinca. Em algumas ocasiões, o atendente conta que já deixou de se arrumar em casa por medo. “Estava indo para uma festa de Halloween. Ia de índio, mas a roupa era muito chamativa e decidi só colocá-la na porta da boate”, lembra.

Violência 

Pesquisa realizada pelo GGB aponta que o Brasil é o país que mais mata homossexuais. De acordo com o relatório, 343 pessoas da comunidade LGBT foram mortas em 2016. O ano passado foi o mais violento para esse público desde 1970. No ranking dos estados mais perigosos estão São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro. Do total de mortos, 173 eram gays, 144 travestis e transexuais, 10 lésbicas, 4 bissexuais e 12 heterossexuais que tinham parentes ou conhecidos LGBTs.

Os homossexuais brasilienses que passarem por alguma situação que caracterize crime em função da orientação sexual podem procurar a Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual ou contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência (Decrin), que atende pelo telefone (61) 3207 4242. No entanto, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social (SSP-DF), por não existir uma lei específica que tipifique o crime de homofobia, os casos podem ser relacionados a outras naturezas criminais, dependendo de cada situação.

No primeiro trimestre de 2017, foram registrados 27 casos de injúria preconceituosa sobre sexo e gênero no DF. No mesmo período do ano passado, foram 16 ocorrências. As denúncias podem ser realizadas em qualquer delegacia ou na própria Decrin, localizada no complexo da Polícia Civil, ao lado do Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek. A Delegacia Eletrônica também pode ser acessada pelo portal da corporação. O endereço da página é: delegaciaeletronica.pcdf.df.gov.br.

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