Cultura

Ser uma DJ em um cenário repleto de homens é um desafio

Muitas mulheres têm se destacado como DJs, mas elas ainda enfrentam barreiras no cenário predominantemente masculino

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DJ mulher

Cinco das 100 melhores DJs do mundo são brasileiras. Mas nenhuma delas está na lista mista dos 100 melhores DJs. Os dados são da revista DjaneMAG, especializada em música eletrônica. A realidade de Brasília não é diferente. Muitas mulheres têm surgido na profissão, mas a luta por reconhecimento ainda é grande.

Há nove anos no mercado como DJ, Mari Perrelli, 28 anos, é também produtora no 5uinto Bar. Ela organiza quem irá discotecar, monta e desmonta estruturas e ainda é DJ. Mari viaja para tocar em festas e festivais em todo o Brasil e relata que é um espaço predominantemente masculino, mas que recentemente tem crescido o número de festas com pistas dedicadas para mulheres. “Para mim, tanto faz tocar misturado ou em um espaço só de meninas. O que importa é o tocar”, afirma.

Mari Perrelli acredita que há um aumento em Brasília de DJs mulheres, mas quando iniciou a carreira haviam poucas. “Da minha geração eu era a única, tinha umas meninas mais velhas e umas meninas que discotecavam rock”, lembra. A DJ acredita ter sido privilegiada porque foi muito incentivada e aprendeu a tocar com as pessoas do bar em que ela toca até hoje, mas nem por isso foi uma trajetória fácil. “Foi custoso até conseguir ganhar reconhecimento e começar a tocar fora de Brasília”, completa.

DJ La Ursa anima festas com música brasileira e latina

DJ La Ursa anima festas com música brasileira e latina

Nas pistas desde 2015, Mariana Leal, 32 anos, é conhecida como DJ La Ursa. Ela quer levar a profissão adiante, mas atualmente tem na música o segundo emprego. A DJ toca músicas brasileiras e latinas. Ela anima carnavais e festas como La Pauta, Canteiro Central, Casa Compi e outras organizadas em casas de amigos. A DJ acredita que há uma diferença entre homens e mulheres DJs porque as mulheres têm uma sensibilidade diferenciada. Mas não acredita que o perfil do público seja alterado em função de ser um homem ou uma mulher DJ. E diz que o cachê não costuma mudar pelo gênero de quem está tocando, mas por ser iniciante ou experiente na profissão.

La Ursa explica que muitas vezes as pessoas acreditam que ser DJ é fácil, que basta levar as músicas que estão no computador e tocar, mas que a realidade não é essa. “A pessoa tem que se preparar muito para as festas. Tem todo um estudo para escolher as músicas e todo um cuidado”, comenta.

A arquiteta e DJ Débora Paranhos, 31 anos, toca no projeto Nimic desde 2007 com a DJ Patrícia Branco. Ela conta que o cenário é muito dominado por homens desde o processo de quem organiza, quem contrata e quem faz a produção. Com isso a inserção no mercado é difícil. “Para ser considerada uma boa profissional, é preciso ser dez vezes melhor que os homens às vezes”, avalia. E destacou que por outro lado, muitos amigos homens a incentivaram.

Como dica para as mulheres DJs, ela disse que é preciso se diferenciar, porque hoje todo mundo toca e a grande diferença se torna a produção. “Quem produz está um degrau acima nesse processo”, acrescenta. Débora cria músicas a partir de referências do que está ouvindo, mas diz que a inspiração vem de repente. Ela gosta de criar sons melódicos, com instrumentos do erudito como o violino, pois passam sentimentos. E destaca que não é fácil trazer esses elementos para o eletrônico.

Assim como La Ursa, Débora não acredita que tenha uma mudança no perfil do público quando homens ou mulheres tocam, mas acredita que festas com mulheres tocando ficam muito mais bonitas. “As mulheres ficam muito mais felizes vendo uma representante delas no palco. Isso dá uma energia na pista”, justifica.

DJs Patrícia e Débora conduzem o projeto Nimic

DJs Patrícia e Débora conduzem o projeto Nimic

Dupla de Débora no projeto Nimic, a jornalista e DJ Patrícia Branco, 29 anos, acredita que as festas com pistas exclusivas para DJs mulheres são um incentivo e ao mesmo tempo uma forma de preconceito, pois tratam as mulheres de uma forma diferenciada. Acrescenta que mesmo o mercado de Brasília tendo as recepcionado bem, o preconceito está sempre presente. “São bonitas, tocam bem, tem presença de palco, mas são mulheres. Eles incentivam, mas nem tanto”, completa.

Patrícia Branco relata que ao ser contratada já teve produtor que pediu para ela caprichar na roupa e no decote, mas que nunca teve diferenciação em cachê por ser mulher. “Eles esperam que a gente seja sempre sexy simbol”, diz Débora Paranhos. A DJ ainda relatou que às vezes toca com cara de séria por estar concentrada e pedem para que ela sorria, algo que não ocorre com homens. “Se um homem está com cara de sério, é porque ele está fazendo o trabalho dele”, afirma.

Já a DJ Mari Perrelli ressalta que nunca passou por qualquer situação pontual de preconceito, mas que pelo clima das pessoas e das conversas é possível perceber. Mari conta também que no projeto em que atua com um amigo, as pessoas direcionam as perguntas sobre a criação das músicas e sobre questões de estrutura e técnica para ele, como se ela não soubesse, sendo que boa parte das vezes foi ela quem fez tudo. “Mulher nesse meio é muito subestimada, é preciso ser muito boa para olharem e dizerem que é boa, se fosse um homem já teriam contratado”, conclui.

Produtor de festas Pablo Amorim diz incentivar mulheres DJs

Produtor de festas Pablo Amorim diz incentivar mulheres DJs

O produtor Pablo Amorim, de 43 anos, organiza diversas festas em Brasília, especialmente no Bar Raízes e no Centro Cultural Canteiro Central. Ele diz que busca chamar DJs mulheres para tocar nas festas. “Começou a ter mais mulheres discotecando e elas mostram cada vez mais que são muito boas”, relata. Apesar disso, ele afirma  que quando as mulheres tocam, mesmo elas já tendo nome reconhecido pelo público e muitos homens curtirem a festa, no momento que elas assumem as pick-ups os homens ficam mais nas periferias da festa. “Eu e meus amigos curtimos muito, mas é possível ver que tem uma massa maior de mulheres apreciando do que de homens”, encerra.

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