Comportamento

Homem pode chorar, sim!

Expressar as emoções ainda é tabu no universo masculino, mas a educação familiar pode mudar esta visão

Tags:
#comportamento #homemchora #nataliagomide

Quantos de nós não ouvimos, quando éramos crianças, a famosa frase: homem não chora, menino! Essa visão machista marcou a geração de muitas pessoas. No entanto, mesmo em uma sociedade cada vez mais disposta a discutir feminismo e direitos iguais de mulheres e homens, esse paradigma persiste.

Natália Pessoa Barros Gomide é especialista em psicoterapia infantojuvenil

Natália Pessoa Barros Gomide é especialista em psicoterapia infanto-juvenil

As discussões sobre os sentimentos masculinos, por exemplo, ainda são um forte tabu. A educação que é dada aos meninos ainda se respalda em estereótipos machistas que reprimem expressões básicas como o choro. Os pais e as mães possuem um papel fundamental em quebrar essa barreira, pois o choro costuma ser mais reprimido nos meninos do que nas meninas, em atitudes corriqueiras como um machucado ou um desafeto. “Uma criação em ambiente machista se torna mais difícil a abertura crítica para noção de gênero na vida adulta, pois faz parte da construção de valores e caráter da criança”, pontua a psicóloga Natália Pessoa Barros Gomide.

Natália afirma, ainda, que consegue ver algumas mudanças no atendimento infanto-juvenil. Para ela, as crianças estão perdendo esse referencial de homem durão e de sentimentos inabaláveis, porém, ainda há muito a ser trabalhado. “O macho alfa e a fêmea frágil continuam tendo um lugar padrão na sociedade, ainda que tenham lutas de ideais para essa desmistificação. E aí entramos no debate da figura do machismo na educação. Se é saudável? Não, nenhum padrão preestabelecido é saudável, pois em termos gerais, poda e limita, homens e mulheres”, acrescenta a psicóloga.

Expressar os sentimentos é necessário. Chorar é uma forma de o organismo liberar a tensão, provocando a liberação de neurotransmissores e hormônios que provocam relaxamento e bem-estar. O publicitário Edmilson Ramos Filho, de 34 anos, conta que teve uma infância um pouco diferente da maioria dos meninos. “Na minha infância eu fui uma criança muito chorona. Talvez naquela época eu via como uma fraqueza, até por esse choro com facilidade ser motivo de ‘brincadeira’ entre meus familiares e amigos. Mas depois do amadurecimento analiso que não era uma fraqueza, mas, sim, uma forma de demonstrar uma insatisfação ou medo; algo mais próximo de uma defesa”, afirma.

Ronaldo Alves de Araújo disse que chora toda vez que se sente agoniado ou triste

Ronaldo Alves de Araújo disse que chora toda vez que se sente agoniado ou triste

O supervisor técnico em segurança eletrônica Ronaldo Alves de Araújo, 35 anos, tem dois filhos e diz que não liga para as críticas das pessoas com relação ao choro. “Toda vez que me sinto angustiado ou triste, eu choro. E choro, não é porque sou fraco, mas porque sou emotivo”, conta. Segundo Ronaldo, em diversas situações o homem precisa ser durão para não demonstrar desespero para família. “Somos o pilar de uma casa e não podemos deixar que a família preocupada”, acredita. A administradora de empresas, Layane Cristina Alves, 31 anos, acredita que chorar não é uma fraqueza, mas, sim, uma simples demonstração de emoções como alegria, tristeza ou nervosismo – sentimentos básicos expressados por qualquer ser humano.

Demonstrar os sentimentos tem deixado de ser algo apenas relacionado ao universo feminino, mas o caminho para desconsiderar o choro como uma fraqueza ainda é longo e necessário para o crescimento das gerações futuras.  “Muito da formação da criança se constitui pela observação. Então, mais que ensinar sobre colocações sociais de gênero, é crucial proporcionar vivências nas quais o pai tem um papel ativo nas tarefas domésticas, se emociona ao assistir a um filme e uma mãe de pulso firme e formadora de opiniões, sobretudo, num ambiente de respeito às singularidades”, assegura a psicóloga Natália.

Novas gerações

Giulia Matos Silveira, de 15 anos, também pensa como Amanda e reprova o comportamento machista de pais que educam os filhos dizendo que não devem chorar. “Não é o caminho certo a se seguir, pois chorar é natural e inevitável, e ao tentar convencer seu filho do contrário, ele irá considerar o choro como algo negativo e se tornará difícil lidar com suas próprias emoções”, observa. Para João Victor Andrade, de 18 anos, as mulheres são mais expressivas que os homens, mas existe um preconceito em relação ao choro deles. “Eu, como pai, educaria a ser o mais sincero com ele mesmo. Se for pra chorar, chore; se for pra sorrir, sorria em dobro! Esse assunto de que ‘homem não chora’ fica só na música do cantor Pablo. Homem chora, sim, e deve ser, principalmente, sincero consigo mesmo”, destaca.

    Deixe uma resposta

    Turismo e Lazer
    Diga de onde vens e direi se te respeito
    Comportamento
    Medo de assédio leva mulheres a freqüentar boates gays
    Saúde
    3 O sistema de saúde tem cor

    Mais lidas