Cultura

Arte naïf ganha espaço no mundo dos pincéis

Entre artistas e apreciadores, estilo tem atraído adeptos e disseminado a arte popular

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Um tipo de arte simples, instintiva, carregada de cores e de originalidade. Assim é definida a arte naïf, que, em termos gerais, apesar de significativamente vasta, ainda é um pouco conhecida pelo grande público. Comumente associada a artesanato ou a arte popular, o movimento naïf costuma reproduzir o cotidiano, ilustrar problemas sociais ou trazer referências religiosas. Ele é marcado, principalmente, pela simplicidade e fácil entendimento, representando situações que o espectador conhece e se identifica.

É exatamente a compreensibilidade das pinturas que costuma encantar os apreciadores do estilo. “Quando conheci o naïf, não sabia que significava ingênuo, e foi justamente isso que eu gostei ao ver uma pintura naïf. Essa coisa genuína, essa simplicidade e alegria ao retratar uma história. Talvez por serem bem coloridos, os quadros naïfs me passam leveza mesmo quando os temas abordados neles são sérios, pesados”, destaca a servidora pública Tariana Zimmerer Ribeiro Dantas.

Obra São João é uma das preferidas da servidora pública Tariana Zimmerer Ribeiro Dantas

Obra São João é uma das preferidas da servidora pública Tariana Zimmerer Ribeiro Dantas

Tariana possui dois quadros naïfs e é apaixonada pelas duas obras. “Difícil dizer qual deles gosto mais. Um dos quadros retrata uma noite de São João numa cidade do interior, com direito a lua cheia, pescaria, fogueira, quadrilha e um rapaz cortejando uma menina pela janela. É apaixonante”, conta.

Normalmente, os artistas desse movimento não têm qualquer formação profissional em artes, pintura ou desenho; são autodidatas. Aqui no Distrito Federal, um exemplo é a artista Anoushe Duarte, que é servidora pública e jornalista por formação. Ela começou a pintar aos 32 anos, incentivada pela mãe, que é uma artista clássica, e pelo amigo Rocha Maia, renomado artista naïf. Suas maiores referências são as festas populares e a cultura de lugares em que já esteve. “Gosto muito de pintar a minha cidade, Brasília. Já fiz quadros inspirados em Havana (Cuba), Cartagena (Colômbia), Santiago (Chile) e muitos locais do Brasil”, destaca.

A artista já participou de algumas exposições, e em 2016, representou Brasília na 13ª edição da Bienal Naïfs do Brasil. Anoushe levou seu quadro “Velho Chico”, obra que retrata o percurso do Rio São Francisco, desde sua nascente até sua foz. Com ele, a artista buscou mostrar o cotidiano dos ribeirinhos dessa região. “Eu gosto sempre de retratar um São Francisco ideal. No imaginário, que fica retratado nos meus quadros, o rio tem sempre água azul em abundância, muito verde ao seu redor, muito colorido e uma rica fauna”, pontua.

Obra Velho Chico retrata o rio São Francisco da nascente à foz

Obra Velho Chico retrata o rio São Francisco da nascente à foz

Obra Velho Chico retrata o rio São Francisco da nascente à foz

Obra Velho Chico retrata o rio São Francisco da nascente à foz

A artista tem uma verdadeira paixão pelo movimento. “Para mim, ser naïf é poder contar histórias. É poder criar realidades mais puras, naturais, espontâneas, resgatar um pouco da alegria e da ingenuidade infantil que está aprisionada em cada um de nós É ter liberdade para poder pintar, criar, sem ter muita preocupação com perspectiva, composição, profundidade. Então é uma forma espontânea de você colocar na tela suas ideias, contar histórias, o que você pensa sobre algo”, ressalta.

A beleza da arte naïf

A beleza da arte naïf

Um pouco mais sobre o estilo 

O termo “naïf” vem do francês e significa ingênuo, inocente, inexperiente. Ele está relacionado ao traço simples que os artistas do movimento têm, e também faz referência àqueles que não tem uma formação acadêmica. Porém, há controvérsias diante desse termo. O professor Nélson Inocêncio, que leciona a disciplina Arte e Cultura Popular no Departamento de Artes Visuais na Universidade de Brasília (UnB), afirma que existem problemas com a expressão “naïf”, pois não se pode partir do pressuposto de que um artista que não passou pela academia de artes, não terá um trabalho maduro e com qualidade artística e estética. “Na minha opinião, o conceito naïf é preconceituoso. Não acho certo afirmar que todo mundo que não passa pela academia tem um trabalho simplificado. Até porque nós vemos muitas coisas boas no naïf”, reforça.

Para Nélson Inocêncio, a melhor definição para essa arte ingênua seria a de arte popular. “Eu prefiro falar em artistas populares ou artistas autodidatas. Até porque vamos encontrar trabalhos que possuem qualidade e outros que não são tão bons tanto na arte popular, como nas demais manifestações. A gente passa por um processo de formação acadêmica, mas isso não quer dizer que quem não passa possui um trabalho menos qualificado, depende muito da produção e do que se apresenta como obra de arte”, opina.

Anoushe Duarte afirma que a arte naïf, como um todo, já sofreu bastante preconceito por parte da academia, principalmente porque os artistas desse estilo não possuem conhecimentos técnicos da arte clássica, mas ela vê algumas mudanças acontecerem. “Eu acho que essa realidade já está mudando. A arte naïf já está mais bem aceita dentro desse ambiente. Você vê muitas exposições exclusivamente naïfs acontecendo, muita gente participando, comprando, tanto no Brasil, quanto no exterior. Então eu acho que a arte naïf está ganhando seu espaço, está se expandindo”, comemora.

Segundo Nélson Inocêncio, o avanço da arte naïf vem das reivindicações e das demandas dos movimentos sociais que estão conseguindo colocar o movimento em pauta. “A gente não tem uma cultura democrática no Brasil que contemple todas as manifestações culturais de maneira altamente visível. O que nós estamos vendo agora nesse movimento em direção às artes populares, para mim, é fruto de reivindicações históricas das organizações de artistas populares”, declara o professor.

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