Política

Moda é usada como ativismo político

Tipo de tecido, forma de produção e até escolha das roupas são apontadas como posicionamento frente à sociedade consumista

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Jaqueta usada como crítica ao governo Trump, no desfile da marca Public School no NYFW 2017 (Foto: Getty images)

Jaqueta usada como crítica ao governo Trump, no desfile da marca Public School no NYFW 2017 (Foto: Getty images)

 

Uma das principais formas de afirmação identitária é a aparência. Pelo jeito que se veste, é possível comunicar e se manifestar para a sociedade. Há quem ache que se vestir não passa de um ato comum ao dia a dia. Mas para outros usar uma peça de roupa, é muito mais. Falar de moda é falar de ativismo político. “Eu acredito que quando a gente escolhe uma roupa em uma loja, existe política por trás disso. Quando se compra algo, você está financiado o mercado de produção”, afirma Bárbara Poener, de 22 anos, colunista do Projeto Roupa Livre.

No momento em que se compra uma blusa, além dos fatores culturais envolvidos na compra, existe por trás disso um ato político. O tecido da blusa foi feito por alguém, o modelo foi pensado por alguém, assim como a confecção. No final de tudo, quando finalmente se veste a blusa, sem perceber, todas as pessoas que desenvolveram a peça e os processos pelos quais o produto passou estão sendo representados e assim se vestir se torna uma ação política. “Se eu compro por exemplo, de uma fast fashion que eu sei que vem do trabalho escravo, eu acabo financiando o trabalho escravo”, conclui Barbara.

Mas afinal, o que é ativismo? O ativismo se caracteriza por uma ação persistente em prol de uma causa considerada importante por uma pessoa ou um grupo. É mais do que apenas defender, é praticar a causa e lutar por ela. A coordenadora do Curso de Design de Moda do Iesb, Clarisse Garcia, explica a relação da moda com o ativismo político. “A moda, antes de mais nada, é uma forma de expressão e, junto com aquilo que a gente veste, se traz uma crença, colocando valor naquilo que a gente acredita. Isso com certeza é por natureza de um discurso político”.

A moda como ativismo político é silenciosa, lenta e gradual, explica a coordenadora. “Quando você vê um menino usando saia prateada no festival de música, isso causa um estranhamento e as pessoas não entendem de início, mas mesmo assim, isso passa a ser uma ferramenta para que aos poucos as pessoas se acostumem, entendam e vejam como algo natural”. Clarice observa que a moda faz pouco barulho na quebra de preconceitos mas ressalta que ela está presente. “Ela existe nas questões afros, nas de gênero, nas questões gays e LGBTS e nas questões femininas”.

O movimento Roupa Livre, tem como objetivo fazer as pessoas questionarem as relações delas com a roupa e promover a reflexão de que não se precisa de roupas novas, mas de um novo olhar sobre elas. “A gente costuma dizer que a moda é reflexo, mas, na verdade, ela é uma engrenagem de todo esse sistema que a gente vive, porque ela tem fortes poderes de influenciar e mudar as coisas, podendo assim ser um ato político. Se vestir diz muito sobre a gente como indivíduo e como sociedade”, afirma Barbara, colunista do movimento.

Um exemplo de marca ativista é a Drew. Incialmente, foi pensada no terceiro semestre da faculdade de Design de Moda e apresentada como projeto de conclusão de curso. O estilista Savio Drew, de 22 anos, usa como matéria prima tecidos que seriam descartados pela indústria têxtil e que, na teoria, não serviriam mais. Para Drew, esses pedaços de pano viram peças exclusivas.

Sávio Drew, designer da marca de roupas Drew.

Sávio Drew, designer da marca de roupas Drew.

O objetivo principal da marca é mostrar que a moda está muito além do vestuário e que é possível fazer roupas de maneira humana e consciente. “A marca tem foco nas causas sociais e ambientais por serem criadas a partir de tecidos descartados que estejam atrelados à cultura nacional e em especial a cultura nordestina”. Nos editoriais da marca, Drew busca sempre colocar negros, gays e lésbicas para conseguir assim dar representação e visibilidade para certas minorias.

Ele ainda ressalta como vestir as pessoas de forma consciente faz com que se sintam seguras para se posicionarem e levarem a mensagem que acreditam para a sociedade. “A moda une as pessoas e isso causa impactos. As semanas de moda estão cada vez mais politizadas e levantando a bandeira de que precisamos falar de políticas, quebrar os muros, nos unir mais e não nos calar. A Calvin Klein, em seu desfile, apresentou uma coleção que falava de política, uma crítica ao governo Trump. Levando em conta que a Calvin Klein é uma marca global, isso causa impactos nas políticas públicas e nas pessoas”.

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