Entrevistas

‘Não existe interesse do mercado no som que fazemos’

Vocalista e guitarrista da banda independente Enema Noise, Rafael Lamim conta como é difícil se manter sem recursos

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Com um álbum recém-lançado, Rafael Lamim, vocalista e guitarrista da banda brasiliense de noise rock e post-hardcore Enema Noise, acaba de voltar de turnê pelo Nordeste e conta sobre as experiências de se produzir música no cenário independente e das dificuldades enfrentadas. Por não conseguirem se manter somente com a música, os membros têm trabalhos secundários e continuam a produzir música por paixão. Na turnê feita pelo Nordeste que durou 22 dias, a banda viajou de carro, onde apenas um dos integrantes sabia dirigir. A banda que já está ativa há 8 anos, conta com três álbuns e diversas histórias e experiências como uma banda independente. A seguir, a entrevista exclusiva ao portal de jornalismo do IESB.

Portal de Jornalismo IESB: Como surgiu a banda?

Rafael Lamim: A banda surgiu em 2009, queríamos fazer algo diferente do que presenciávamos nos shows da cidade. Já mudamos de formação várias vezes mas atualmente toco com o Daniel Freire (bateria) e Murilo Barros (guitarra), que entraram na banda em 2012.

Como vocês se organizam pra ensaiar e para gravar as músicas e álbuns?

O custo de gravação em um estúdio profissional é muito alto, logo escolhemos trabalhar em casa. As gravações são feitas no meu quarto, usando meu computador. Só a bateria que registramos em estúdio.

Como é feita a organização da banda, quem organiza os shows e viagens?

Sou eu quem faço essa parte de comunicação e planejo os shows. Trabalhando nisso eu descobri que essas coisas só funcionam se você realmente for atrás. Tu tem que ligar, estabelecer contatos, ir atrás mesmo. Conversar com outras bandas, descobrir bons lugares para se tocar. Essas informações são o que nos norteiam nessa organização. Toda essa cena é feita de pessoas que também estão trabalhando em prol de interesses em comum, por exemplo, quando você liga pra um dono de uma casa de shows em outro estado, você está falando com alguém que precisa e espera por esse tipo de ligação. A convergência desse esforço mútuo que vem articulando de fato esse crescimento.

Como é o contato com outras bandas do cenário musical independente em Brasília? E em outros estados, vocês tem contato com outras bandas?

Em Brasília temos bastante amigos, mas é muito difícil de arranjar shows por aqui. Sempre que possível tocamos fora de Brasília, então estou o tempo todo conversando com bandas e pessoas de outros estados.

Quais as maiores dificuldades enfrentadas por vocês no cenário musical? Enfrentam muitas dificuldades pelo fato de serem uma banda independente?

O maior problema é o dinheiro, e não é apenas o fato de que ganhamos pouco por apresentação, mas sim que toda a estrutura independente exige custos, aluguéis de espaço, equipamentos, serviços. Organizamos nossos próprios shows, mas as vezes é preciso, por exemplo, alugar um amplificador, pagar uma taxa de uso de espaço, pagar seguranças. Resolvemos esses problemas na solidariedade entre bandas, pegando emprestado, dividindo valores, nos hospedando em casas de amigos em viagens.

Vocês vivem de música ou há também um trabalho paralelo?

Não mesmo, no geral nós temos gastos com as coisas, nós bancamos nossas viagens, alugamos os equipamentos necessários pros shows, esses gastos tornam muito difícil uma remuneração pros artistas. Por exemplo, no último festival PicniK que tocamos, em junho de 2016, nós recebemos 700 reais de cachê, e esse dinheiro guardamos para usarmos no combustível da nossa próxima turnê, para pagar as nossas camisas da banda e os ensaios. Nós usamos o dinheiro ganho para cobrir os custos da banda, nunca chegamos a dividir dinheiro entre nós para uso pessoal mesmo.

Existem pretensões de entrar para grandes gravadoras, de buscar um contrato para haver uma melhor visibilidade?

Não existe interesse do grande mercado da música, o “mainstream” (oposto ao independente) neste tipo de som que fazemos. Tentamos trabalhar nossa visibilidade de outras formas, em um contato “antiprofissional” que nos aproxime das pessoas.

Quais as expectativas da banda para a cena independente?

Que todos consigamos trabalhar melhor numa rede autogestionada, que seja segura e confortável para receber todas as pessoas, livre de preconceito, moralismo e da censura.

E em relação ao novo álbum, Eventos Inevitáveis, como foi a gravação e produção do disco?

Foi após a saída do baixista João Morais (que gravou o EP de 2016). Assumimos a formação atual, em trio, e gravamos as músicas rapidamente, para terminarmos antes da turnê que fizemos no nordeste em 2017. É nosso primeiro disco “grande” com dez músicas. Antes dele temos o “manual pouco prático do desapego” (2014) com sete músicas, e o EP “enema noise” de 2016, com cinco músicas. A capa do eventos inevitáveis foi feita por um amigo nosso do Rio de Janeiro, o Leonardo Oliveira. E as baterias foram gravadas no estúdio Afra, de um antigo baterista da banda (Marcelo Melo).

Vocês fizeram uma turnê pelo Nordeste recentemente, como vocês se organizaram para essa turnê?

Com um ano de antecedência já comecei a planejar, contatando as bandas que conhecíamos. Conseguimos sete shows, que fizemos em 22 dias de viagens com nosso próprio carro. Primeiro fomos de Brasília para Fortaleza, daí passamos por Natal, Recife, João Pessoa, Campina Grande, Aracaju e Salvador. Da Bahia voltamos para Brasília, totalizando 5 mil km. Todos os shows foram com pessoas produtoras independentes e nos retornaram o dinheiro suficiente para gasolina da viagem. E como falei antes, nos hospedamos na casa de amigos que organizaram os shows. Foi bem complicado porque só o Daniel (baterista) dirigia.

Como foi a recepção do público as novas músicas e como é pra vocês tocarem para novos públicos assim?

É sempre legal conhecer novas pessoas. Os nossos shows são curtos, geralmente duram meia-hora, então essas viagens representam mais sobre o tempo que passamos interagindo e conversando, conhecendo os lugares do que propriamente tocando com a banda.

Existe planejamento para álbuns novos, ou turnês futuras?

Sobraram algumas músicas desse disco atual, que lançaremos no começo do ano que vem. Da mesma forma que fizemos a turnê no nordeste, já planejo uma para o sudeste e sul em julho de 2018.

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