Economia

Trabalho informal ganha força e tira pessoas do desemprego em Brasília

Contra a falta de oportunidades formais, alguns veem na comida uma forma de ganhar dinheiro e dizem viver melhor do que quando tinham carteira assinada

Tags:
desemprego no DF trabalho informal

Edilaine Rodrigues é de Anápolis, Goiás. Ela trabalhava em uma cozinha industrial, mas seu marido não encontrava emprego na cidade há dois anos e, por isso, os dois decidiram mudar para Brasília e começar a vender marmitas. Segundo ela, começaram vendendo 5 e hoje fornecem, em média, 90 marmitas por dia em pontos espalhados pela cidade, o que gera lucro de aproximadamente R$ 6.000,00 ao mês. Para Edilaine, “a melhor coisa é saber que fazendo o que eu gosto e vendo as pessoas satisfeitas, ainda consigo pagar todas as minhas contas no final do mês”.

Edilaine e seu marido no principal ponto onde vendem suas marmitas

Edilaine e seu marido no principal ponto onde vendem suas marmitas

Brasília, onde Edilaine mora, por ser uma cidade setorizada, facilita encontrar carros vendendo marmitas, carrinhos de lanches e até mesmo vendedores de doces, como brigadeiro e bolo de pote, em lugares como a Esplanada dos Ministérios. Alguns ambulantes, inclusive, têm acesso aos prédios e passam de sala em sala oferecendo seus produtos, em órgãos públicos  e edifícios comerciais.

Com apenas duas opções no cardápio, a procura pelo hambúrguer artesanal de João é cada dia maior

Com apenas duas opções no cardápio, a procura pelo hambúrguer artesanal de João é cada dia maior

O dono do “Burger Artesanal”, João Victor Canizares, perdeu o emprego terceirizado no Ministério da Cultura e teve que mudar de moradia sete vezes em um ano, por problemas com o aluguel. Ganhou da sua mãe um celular quebrado e trocou num carrinho de lanches. “Comecei com doações de utensílios de cozinha e hoje seis famílias vivem do meu negócio”, diz João, que vende cerca de 100 sanduíches por dia, está fixo em uma moradia e se diz satisfeito financeiramente. O seu carrinho tem ponto fixo na cidade.

Em dezembro de 2016 a atividade dos foodtrucks foi regulamentada no Distrito Federal pela lei  5.627. A legislação regulamenta a venda de alimentos nas ruas, mas nenhum dos dois entrevistados se enquadra nesta categoria. Esta lei prevê, por exemplo, que os alimentos sejam pré-preparados em outro local, que possa ser fiscalizado pela Vigilância Sanitária. Uma outra exigência é que os proprietários não usem espaço público para ajudar na montagem do foodtruck, nem para ampliar o espaço de atendimento aos clientes. Entretanto, os entrevistados fazem parte da parcela da população que encontrou na informalidade um sustento para seus lares.

De acordo com a coordenadora do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese),  Adalgiza Lara Amaral, entre 2015 e 2016, houve alta nos empregos com carteira assinada de 4,1% na capital federal, enquanto de 2016 para 2017, essa estatística foi contrária, mostrando que 6,4% da população do DF havia perdido emprego. Ao analisar os trabalhadores autônomos, a pesquisa mostra que em 2016, 4,7% da população era autônoma. Atualmente, este número triplicou, e atinge 15,9%.

Para quem tem que garantir o sustento da família, é preciso encontrar meios de ganhar dinheiro

Para quem tem que garantir o sustento da família, é preciso encontrar meios de ganhar dinheiro

O aumento pode dar a impressão de que mais gente passou a ter renda, no entanto, melhor seria o aumento do emprego formal, que indica um crescimento real, no qual setores tradicionais da economia poderiam investir. Para o doutor em economia César Zanetti, devido aos encargos cobrados pelo governo para se manter um empregado na CLT, é mais vantajoso para o empregador contratar pagando um pouco mais, sem assinar a carteira.  Ou seja, pessoas que possuem formação acabam entrando também na estatística do trabalho informal.

Zanetti acredita que o cenário para o ano eleitoral de 2018 é ainda de instabilidade econômica, sem grande crescimento do emprego formal . “Sem saber quem será o próximo presidente e com esse quadro político instável ninguém vai investir”, avalia.

Consumidor aprova

Para os clientes que consomem os alimentos vendidos na rua, a economia vale a pena. Segundo Rhaissa Alves, de 26 anos, “a marmita me salva”. Ela estuda à noite, mora sozinha, trabalha 8 horas diárias e não encontra tempo para cozinhar. De acordo com a estudante, se ela comesse em restaurantes todos os dias, não teria dinheiro para pagar o resto das contas. “E a gente precisa comer, né?”, completa.

No restaurante self-service do prédio onde ela trabalha, o quilo da refeição custa R$ 38,90, contra R$ 10,00 pagos na marmita, que ainda é acompanhada de suco ou refrigerante e um doce, à escolha do cliente. Para Rhaissa, a economia é de aproximadamente R$ 200 ao mês. Fazendo as contas, ela se assusta: “É uma economia de 13,5% do meu salário. Vale a pena financeiramente e a comida é muito gostosa”.


 

 

Deixe uma resposta

Entrevistas
Entrevista Inovar é saber como os outros se comportam
Cidadania
Foto: Ingrid Pires Projeto leva esporte e música a adolescentes em Sobradinho
Cidades
Placas que sinalizam as saídas do parque, quando existem, estão degradadas. Parque da Cidade precisa de sinalização

Mais lidas