Comportamento

Preta + Graduada = Solteira

Ser negra e ter ascensão social pode significar solidão

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ascensão social mulher negra racismo solidão

Para as mulheres negras, além de agregar conhecimento, estudar pode significar não ter um companheiro. Estudos mostram que ascender socialmente gera problemas para elas em algumas áreas. No caso dos relacionamentos amorosos, o matrimônio vira uma possibilidade cada vez mais distante.

Maria Nilza da Silva, pós-doutorado em ciências sociais pela Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales, França, é autora da tese “A Mulher Negra: O Preço de uma Trajetória de Sucesso”. Em sua pesquisa para elaboração da dissertação, realizada em 1999, ela observou que 72% das mulheres negras de São Paulo com mais de 12 anos de escolaridade não tinham namorados, maridos ou companheiros. Ainda que não seja uma pesquisa recente, o fato ainda é uma realidade. Conforme o último censo do IBGE, 52,52% das negras não têm um companheiro, independente de classe social.

Mas nem as próprias mulheres conseguem perceber isto facilmente. “Já pensei muito rapidamente nesse sentido, mas achava ‘não… estou me fazendo de vítima, são outras coisas’”, diz Ádria Ferreira, 37 anos. Formada em ciência da computação e com duas pós-graduações, ela acredita que os homens esperam algo exótico e estereotipado quando trata-se de uma mulher negra, e não algo normal. “Ainda não casa bem o fato de você ter uma carreira, ser bem-sucedida, e ser mulata ou negra”, afirma. Ela não gosta de pensar que isto é racismo, mas sim um medo do que é diferente e de ser diferente no grupo social.

Para Ádria Ferreira, a mulher negra ainda é vista de forma estereotipada

Para Ádria Ferreira, a mulher negra ainda é vista de forma estereotipada

O conhecimento leva à constatação de que não ser vista como opção é um fato. “Muitas entram na faculdade e constatam que o problema não é com elas. Quando ingressam em grupos e começam a pesquisar a fundo é que começam a perceber que não é um problema individual, é um problema estrutural. A mulher negra no mercado matrimonial é a maior vítima”, afirma Maria Nilza. Para ela, a falta de percepção ocorre porque a população negra não tem acesso a informações sobre a própria história. Por isso, ela defende a necessidade de luta pelo cumprimento da lei 10639/03, que prevê a inclusão da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana no currículo escolar.

Sentindo na pele

É perceptível pela mulher o desconforto causado pela sua cor. Débora Longuinho, 45 anos, é geógrafa e bacharel em direito e já experimentou isto. “Eu nunca casei, mas no meu último relacionamento eu percebi que parece que era vergonhoso estar do meu lado. Mal começamos e logo terminamos porque eu sentia isso da parte dele”, relata. Ela acredita que estas atitudes sejam um ranço do passado, do tempo da escravidão, onde o negro era um objeto. Além da herança histórica, para Ádria a nossa cultura reforça estes conceitos. “Este desenho sexual colou e a gente foi alimentando com o carnaval, por exemplo”. Apesar desta constatação, Débora percebe que com o homem negro é diferente e diz que as mulheres o veem como “o troféu, o negão, o tablete de chocolate”.

No condomínio onde mora, Débora observa a estranheza de vizinhos ao perceber que ela é moradora

No condomínio onde mora, Débora observa a estranheza de vizinhos ao perceber que ela é moradora

Vale ressaltar que as questões não se restringem à vida amorosa. O IBGE, através do Sistema Nacional de Informações de Gênero (SNIG), indica que, conforme o censo de 2010, o percentual de mulheres negras com ensino superior é de 11,2% contra 26% das brancas. A diferença ainda é muito grande, o que ressalta o estranhamento com a presença delas em certos locais. Débora conta que percebe os olhares de estranheza dos vizinhos no condomínio onde mora, em Águas Claras (DF). O que se espera normalmente é que o negro ocupe cargos mais baixos. “Outra vez foi numa festa de aniversário do filho de uma amiga, e peguei o menino no colo. Chegou uma moça, negra, que era babá de alguém, e perguntou pra mim há quanto tempo eu cuidava daquela criança. Até o próprio negro julga a gente o empregado. A gente é preterido o tempo inteiro”.

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