Educação

Opção de ensino fora da escola cresce entre famílias brasileiras

Crianças que sofrem bullyng ou têm problemas para se relacionar dentro de instituições de ensino conseguem ajuda dos pais para viverem o período escolar de novas formas

Tags:
desescolarização; ensino domiciliar; estudo em casa; liberdade

Para o mais conhecido educador brasileiro, Paulo Freire (1921-1997), a instituição escolar é um lugar onde os professores carregam a responsabilidade de depositar conhecimento em um aluno, que tem o dever de se colocar passivo e dócil para receber o aprendizado. A isso ele dá o nome de “educação bancária”. No hoje clássico Pedadogia do Oprimido, lançado em 1974, Freire argumenta: “Sua tônica fundamentalmente reside em matar nos educandos a curiosidade, o espírito investigador, a criatividade”. Para ele, a escola deveria exercer o papel contrário: Inquietá-los. Justamente em busca da educação libertadora defendida por Paulo Freire, famílias têm decidido tirar os filhos da escola e investir no ensino em casa.

Guto Thomaz, hoje com 24 anos, conversou com sua mãe aos 13 a respeito de sair do ambiente escolar. Sua mãe, Ana Thomaz, ex-dançarina e professora de teatro, a partir do pedido do filho, desenvolveu o método da desescolarização em casa e hoje tem um sítio em Piracaia (SP), onde algumas famílias vivem, todas alinhadas ao ensino domiciliar por meio de um conceito já conhecido:  a liberdade.

Foto: Karime Xavier

Ana Thomaz exercendo a desescolarização, em Piracaia/SP

Para Ana, aprender e ensinar quer dizer “potencializar potencialidades”.  Guto ganhou duas irmãs, que foram alfabetizadas em casa e Ana garante: “Eu também estou aprendendo o tempo todo. Essa é a ideia. Não é hierárquico, aprendemos juntos e a partir disso, estarei criando seres humanos que irão se relacionar socialmente através de suas próprias necessidades e curiosidades”. Para ela, um dos aprendizados dos filhos é inclusive saber que ela não sabe tudo. Isso cria maior auto-confiança para que as crianças possam ser mais criativas e menos competitivas.

“Num ambiente escolar ou mesmo em casa, usa-se muito a pedagogia da recompensa e da ameaça, que é absolutamente castrador”, diz.  Ana defende o incentivo, mas adianta que também há responsabilidades para as crianças tanto em questões pedagógicos como pessoais. A disciplina, garante, está presente. Segundo a professora, a formação é de um cidadão, não de uma pessoa criada para passar em uma prova que irá definir sua ocupação profissional para o resto de sua vida.

Outro método, um pouco mais conhecido, é o homeschooling ou educação escolar em casa. Nesta modalidade, os pais também são os tutores educacionais de seus filhos, mas a grade curricular permanece igual a uma sala de aula. Em Brasília, um grupo de famílias faz encontros periódicos para conversarem a respeito do andamento do ensino doméstico às crianças. Esses encontros também servem para que os pais troquem experiências e sabedoria. O pai de uma criança que seja melhor em determinada matéria, pode dar aulas não só ao seu filho, mas a todos os estudantes que estiverem com dificuldade naquele conteúdo.

Tanto na desescolarização de Ana Thomaz, quanto no homeschooling, que hoje já tem adeptos no mundo todo, especialmente em países como Estados Unidos, Rússia, Cingapura, França e Reino Unido, o bullyng e a não adaptação das crianças à escola estão entre os motivos para as famílias optarem pela saída da instituição.

Alexandre Moreira é autor do livro: "O direito à educação domiciliar", 2017.
Alexandre Moreira é autor do livro O direito à Educação Domiciliar, de 2017

O Procurador do Banco Central Alexandre Magno entrou em contato com o homeschooling pela primeira vez quando ainda não tinha filhos e escreveu um artigo de nove páginas a partir de uma história de uma família que estava sendo processada pelo Estado, no interior de Minas Gerais, em 2008, por ter tirado as crianças da escola. No fim de 2010, descobriu existir no local a Associação Nacional de Educação Domiciliar, da qual hoje é diretor jurídico.

A Associação tinha uma estimativa de que em dez anos, 800 famílias aderissem ao ensino domiciliar. Atualmente, são aproximadamente 40 milhões de alunos na educação básica regular. Em 8 anos, para surpresa de Alexandre, esse número foi aumentando anualmente de 50 a 100% e atualmente, calcula-se 7.500 famílias adeptas a este tipo de ensino. Para ele, a longo prazo é possível considerar que aproximadamente 400 mil crianças sejam educadas em casa, ou 1% do total de estudantes. “É relativamente pouco, mas em proporções absolutas isso é muito importante”, argumenta Magno.

Indagados a respeito da classe econômica que tem possibilidade de aderir a esse tipo de ensino, Ana Thomaz diz que o aprendizado está na relação e, portanto, o dinheiro não faz diferença, enquanto Alexandre Magno afirma que a média salarial de famílias participantes do homeschooling é de R$ 3 a 4 mil. Segundo ele, pais aprendem na internet, em áreas públicas ou uns com os outros o que não sabem, para que possam passar aos filhos o conhecimento.

Prós e contras                                                                    

Pode existir, a partir do crescimento dessas novas modalidades de ensino, um novo mercado para tutores. Os profissionais podem se especializar em educação domiciliar, por exemplo. Há também a chance de o aumento do interesse atrair investidores, o que pode aumentar a qualidade do ensino no âmbito familiar. Seria algo como o que tem acontecido com a educação a distância, hoje bastante difundido.

Na linha contrária da educação em casa está a Lei 9394/96, que estabelece as bases da educação nacional. No artigo quarto, o texto prevê que o Estado deve prover a educação necessária à população. Sendo assim, se tirados das escolas, os alunos passam a não mais ser uma responsabilidade do Estado e sim de seus tutores ou parentes. Essa questão esbarra no âmbito político e social, pois significa eximir o Estado da responsabilidade garantida constitucionalmente a contribuintes de impostos mensais.

Constitucionalmente, crianças devem frequentar uma Instituição de ensino regular, dos 7 aos 14 anos, o que é referendado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Entretanto, Alexandre Magno, como diretor jurídico da Associação de Educação Familiar, defende uma interpretação especial de uma das normas da ECA. No artigo sexto, cabe a seguinte interpretação: Qualquer norma desta lei citada, deixa de ser obrigatória se for demonstrado que, no caso concreto, sua aplicação não reflete o melhor interesse do menor.

Para que haja acompanhamento do andamento pedagógico da criança/adolescente, atualmente a única opção para aqueles que estiverem exercendo o ensino domiciliar são as provas de supletivo, que garantem os certificados de ensino fundamental e médio.

Em março de 2018, representantes de entidades ligadas ao ensino se reuniram para debater o ensino domiciliar e o presidente do Conselho Nacional de Educaçã0 (CNE), Eduardo Deschamps, alegou que um possibilidade é adicionar um parágrafo à Lei de Diretrizes e Bases para permitir o ensino em casa. No entanto, disse que a mudança não deve acontecer em curto prazo, já que, segundo o Conselho do CNE, o projeto apresenta diversas fragilidades.

Famílias

Luciana e Renato Chagas têm três filhas. A primeira, hoje com 5 anos, frequentou um ano a escola, mas não conseguiu se adaptar. Antes de fazer uma segunda tentativa, resolveram que iriam começar o homeschooling. Luciana diz que é necessário fazer muita pesquisa para dar uma boa educação às filhas, mas defende o modelo. 

Família Dias, que optou pela educação domiciliar a 3 anos

Família Dias, que optou pela educação domiciliar a 3 anos

Já na família de Caroline e Julio César Dias, o homeschooling começou um pouco mais tarde. Isac, o filho mais velho, tem 11 anos e teve problemas sérios de depressão desde os 6 anos de idade. Ele sofria bullyng no colégio e apresentava problemas digestivos e febre. Os pais trocara a escola três vezes, mas nada adiantou. A solução foi o ensino em casa.

Julio César admite que a decisão não é fácil. já que é necessária uma grande dedicação para que os estudos sejam de qualidade. “Confesso que ela (Caroline) se dedica muito mais que eu, já que trabalho fora. Acabo participando da educação de forma lúdica ou com reforços de matemática, já que sou engenheiro”.

Isac se mostra adaptado ao ensino domiciliar e diz que sonha em ser  jogador de futebol, como muitos garotos. “Se não der certo, quero ser inventor”, conclui.

Para saber mais sobre ensino em casa, vale acessar os conteúdo abaixo.

Links do YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=mxOuMWgI_dUhttps://www.youtube.com/watch?v=YoJd4rCMHVc

https://www.youtube.com/watch?v=B7506orJZ2k

Livros:

HARPER, Babette et al. CUIDADO, ESCOLA!, sob apresentação de Paulo Freire – Ed. Brasiliense – 21a edição – 1986

MOREIRA, Alexandre Magno Fernandes. O DIREITO À EDUCAÇÃO DOMICILIAR, Ed. Monergismo – 2017

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