Ciência e Tecnologia

Empresa brasiliense desenvolve aparelho inovador de detecção prévia de hipoglicemia

Concebido a partir de trabalho de conclusão da UnB, o Easyglic teve seu nascimento no CDT da universidade

No mercado nacional existem vários aparelhos que fazem a detecção da glicemia, os chamados glicosímetros. Porém, eles não têm “inteligência” para alertar sobre parâmetros de risco e o monitoramento precisa ser feito pelo próprio indivíduo. A Easythings Serviços em Tecnologia, empresa que surgiu na Multincubadora do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Universidade de Brasília (CDT/UnB), identificou essa lacuna do mercado como oportunidade. Um dos sócios da empresa recebeu a reportagem do Portal de Jornalismo do IESB e conta como foi o processo para transformar uma boa ideia em realidade.

Modelando um conceito

O administrador Egmar Rocha trabalhou no CDT/UnB por dez anos, sendo responsável por captação de recursos para a universidade até 2013. Após esse período, passou a dar consultoria para empresas incubadas no centro, até que assumiu o comando de uma delas, que havia desistido da permanência na incubadora após um ano de tentativas frustradas de estruturação do negócio. Agora faltava o ponta pé para retomada.

Em uma consultoria no Ministério da Saúde, Rocha teve o primeiro contato com a ideia que daria o impulso necessário à nova empresa, agora com o nome de EasyThink. Foi em uma reunião na qual conheceu a professora Suélia Rosa, da Faculdade de Engenharia Eletrônica da UnB/Faculdade do Gama. Suélia apresentou várias pesquisas que estava desenvolvendo, dentre elas um estudo focado em biomedicina, e que foi tema do trabalho de conclusão de sua orientanda, a aluna Flávia Monteiro Miranda. Tratava-se de um monitor que detectava com antecedência a iminência de hipoglicemia. Rocha explica que o cruzamento de estudos indicou correlação de aumento da umidade corporal e queda de temperatura como indicadores de queda da glicemia. A função do aparelho é justamente identificar esses dois parâmetros que surgem na maioria dos portadores de Diabetes Mellitus ou praticantes de esportes, e que antecedem a hipoglicemia.

Telas do aplicativo: tecnologia permite controle de parâmetros e alerta de contatos de emergência, informando , via SMS, local e horário em que o usuário se encontra

Telas do aplicativo: tecnologia permite controle de parâmetros e alerta de contatos de emergência, informando , via SMS, local e horário em que o usuário se encontra

O empreendedor esclarece que os sensores analisam os parâmetros de umidade e temperatura na pele e, na iminência de um colapso hipoglicêmico, a pulseira emite alerta luminoso e vibracional. O aviso tem antecipação de cerca de três minutos, o que pode evitar situações de risco, como desmaios ao volante.

O dispositivo conta ainda com o suporte de um aplicativo mobile, que funciona como um armazenador dos resultados da coleta, e também como segurança extra: se o alerta não for desativado em 45 segundos pelo usuário, uma mensagem SMS é enviada para até três contatos de emergência.

A empresa iniciou a pré-venda do EasyGlic em fevereiro deste ano para entrega em 120 dias. Nessa última fase haverá a finalização de melhorias, como a utilização de carregador magnético, o que vai baratear os custos – o modelo visto nas fotos da reportagem ainda possui um carregador com base maior, o que implica em mais moldes de peças injetadas.

Além de todos os desafios, a burocracia

Egmar Rocha, diretor executivo da EasyThings: aprendizados essenciais nos programas de aceleração

Egmar Rocha, diretor executivo da EasyThings: aprendizados essenciais nos programas de aceleração

A proposta do dispositivo inicialmente foi patenteada pela UnB, mas precisou passar por toda a fase de desenvolvimento de projeto e testes para ser considerado comercialmente viável. O período de negociação foi longo: “Desde o pagamento de royalties à universidade, regularização de toda documentação e direito de exploração do produto, foi o total de um ano que nos exigiu muita resiliência”, conta Rocha.

Com protótipos preliminares em mãos, a empresa conseguiu ser aprovada em uma aplicação feita no Programa de Promoção da Economia Criativa, resultado de uma parceria firmada em 2015 entre a Anprotec, a Samsung e o Centro Coreano de Economia Criativa e Inovação (CCEI). “É um programa de aceleração que aporta recurso a fundo perdido, ou seja, não é preciso dar uma parte da empresa ou reembolsar o valor recebido”, explica Rocha.

Além do aporte de R$ 220 mil, o administrador enfatiza que as mentorias e capacitações do programa foram o divisor de águas porque obrigaram a repensar todo processo, inclusive o “design thinking”. Esse conceito abrange a evolução do design para além da estética de produtos ou serviços, valorizando a promoção do bem-estar na vida das pessoas. Foram nove meses de aprendizado que resultaram em um protótipo muito menor, mais funcional para o usuário, além do desenvolvimento de aplicativo para smartphones que acompanha o equipamento.

Ainda nesse período de desenvolvimento, a empresa foi aprovada em outro processo seletivo, dessa vez em uma aceleradora de startups, a Cotidiano, sediada em Brasília. Nessa nova fase houve a venda de equity (o investimento é feito em troca de participação acionária) e a sociedade permanece até hoje. “Com a Samsung aprendemos muito sobre o produto, e com a Cotidiano foi o momento de aprender sobre mercado, incluindo a importância do marketing de conteúdo e marketing digital”, conta Rocha.

A EasyThink já tem mais dois produtos em fase de estudos de viabilidade e planejamento, que contarão com o capital intelectual adquirido no desenvolvimento do EasyGlic.

Novas perspectivas nas parcerias entre inventores e universidades

A reportagem do Portal de Jornalismo do IESB foi até o CDT e conversou com Levi dos Santos, que atua no centro como pesquisador de mestrado em propriedade intelectual, inovação e transferência de tecnologia. Ele explica que o CDT trabalha em duas frentes: as Incubadoras de Base Tecnológicas (categoria onde a EasyThings se enquadra) e as Incubadoras de Tecnologia Social, tema de sua tese.

Levi dos Santos: a nova legislação dará impulso à inovação tecnológica

Levi dos Santos: a nova legislação dará impulso à inovação tecnológica

O programa é dividido em duas modalidades: a pré-incubação tem a duração de seis meses e é voltada para o indivíduo que tem uma ideia insipiente a ser estruturada. Já a incubação propriamente dita, com vigência padrão de três anos, atende empresas com um modelo de negócio mais consolidado.

Quando questionado sobre a morosidade nos trâmites de licenciamento de patentes e inserção das empresas nas incubadoras, Santos esclarece que a legislação está passando por uma mudança significativa, com o intuito de diminuir a burocracia nos institutos de pesquisa das universidades. Trata-se do Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação (Lei nº 13.243/2016), que em fevereiro deste ano foi regulamentado pelo Decreto nº 9.283.

O pesquisador disse que as legislações anteriores criavam entraves na relação entre universidade, empresa e mercado, e o Marco traz permissivas para dinamizar os ajustes de parcerias entre as partes. A universidade terá que remodelar suas políticas internas, o que a UnB e outras instituições estão fazendo.

Ele conta também que a UnB, a exemplo de outras universidades, criou um decanato de pesquisa e inovação em 2017, responsável pela área de empreendedorismo, inovação e patentes – até então gerido pelo CDT. A promessa é que as mudanças trarão mais incentivo e novo impulso na intermediação entre as pesquisas promissoras do meio acadêmico e aqueles que aliam a inventividade com a vontade de empreender.

Para mais informações sobre o EasyGlic, acesse:

EasyGlic

Para saber mais sobre a atuação do CDT e os programas de promoção e aceleração descritos na matéria, acesse:

Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Universidade de Brasília – CDT/UnB

Creative Startups – Programa de Promoção da Economia Criativa

Cotidiano – Aceleradora de Startups – Gestora de Fundo – Inovação

 

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