Cidadania

Um ônibus com destino certo

Projeto “Banho do Bem” leva à Rodoviária do Plano Piloto mais do que uma ducha quente e roupas limpas. A proposta é despertar a vontade de recomeçar

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Desde dezembro, um ônibus chama atenção nas tardes de domingo da principal rodoviária da cidade. Adaptado com cabines de banho aquecido, mesa para corte de cabelo, além de doação de roupas e alimentos, o projeto Banho do Bem tem atraído não só moradores de rua, mas também muitos voluntários. A reportagem do portal de notícias IESB conversou com a idealizadora e conferiu a repercussão da divulgação do projeto nas redes sociais.

Gratidão

Adriana Calil Amorim, criadora do projeto Banho do Bem, chama a atenção pela voz firme e olhar objetivo. A empresária do ramo hoteleiro já se adianta ao dizer que não busca autopromoção ao conceder entrevistas: seu foco é dar visibilidade ao projeto. Há tempos Adriana pensava em realizar algo que atendesse a um chamado interno: retribuir de alguma forma tantas alegrias que a vida lhe proporciona e aproveitar sua experiência como empreendedora, acostumada a vencer desafios, para ajudar diretamente aqueles que não tiveram a mesma oportunidade: “Eu não queria só ajudar, eu queria viver um projeto”.

Ela conta que soube pela televisão de um projeto em Belo Horizonte (Banho de Amor) que disponibiliza duas cabines de banho itinerantes para pessoas em situação de rua. Foi aí que deu o clique, mas ela queria fazer um pouco diferente: ter uma estrutura maior, para poder proporcionar corte de cabelo, barba, doação de roupas e alimentação. Adriana conta que não tem interesse em parceria governamental e que também não tem vínculo religioso específico, mas acredita em uma “conspiração de energias do bem”. Segunda ela, ao decidir o formato que teria o projeto, as coisas começaram a fluir de maneira impressionante.

Adriana Calil, idealizadora do projeto: a grande repercussão nas redes sociais também chamou atenção da imprensa

Adriana Calil Amorim, idealizadora do projeto: a grande repercussão nas redes sociais chamou atenção da imprensa

Há cerca de oito meses, quando o projeto ainda estava em fase embrionária, Adriana foi convidada a dar entrevista a um jornal de circulação gratuita e a uma rádio de Brasília. Foi quando uma empresa especializada em adaptação de unidades móveis a procurou e se predispôs a fornecer a mão de obra para montagem do ônibus. Com recursos próprios e ajuda de outras parcerias, Adriana conseguiu concluir parte elétrica, hidráulica e tubulação de gás.

Para ter uma estrutura segura e eficiente, foram necessários três meses, período em que os voluntários surgiram e se predispuseram a ajudar assim que o ônibus estivesse pronto. “O ideal seria termos um ponto de energia elétrica na Rodoviária, mas por enquanto trabalhamos com nosso próprio gerador”, explica. Produtos de higiene são patrocinados pelos fornecedores dos mesmos kits de banheiro dos quartos de hotéis. As toalhas são aquelas que não servem mais para uso dos hóspedes, mas que ainda estão boas, e são higienizadas na lavanderia do seu hotel.

Adriana conta que no começo foi preciso chamar pessoas em condição de rua pela Rodoviária do Plano Piloto, pois eles viam o ônibus e ficavam desconfiados, sem entender como poderiam tomar banho ali. Hoje já se organizam para formar a fila por volta das 16 horas, quando o veículo adaptado estaciona próximo ao embarque e desembarque da área norte, na plataforma inferior. O atendimento dentro do ônibus (banho, corte de cabelo, barba e doação de roupas) contempla de 35 a 40 pessoas por final de semana. Já a alimentação é fornecida até acabar, mesmo para aqueles que ficaram fora da lista do atendimento.

“O projeto Banho do Bem é só um ponto de partida para vários projetos que podem ser agregados”, explica Adriana. Ela diz que a colaboração de clínicas de reabilitação para dependentes químicos é necessária, por exemplo. Doações de roupas também são uma necessidade constante, sobretudo calças e peças íntimas masculinas, além de alimentação. A empresária conta que muitos se aproximam somente para comer e pedir roupas, mas ela faz questão que passem pelo processo do banho, do corte de cabelo e barba. “Isso faz a diferença, a energia muda. Tenho esperança que, a cada final de semana passando por esse processo, alguns deles se sintam estimulados a uma mudança”, diz.

As mãos que fazem acontecer

A jornalista Maria Paula de Andrade, uma das voluntárias, fez um vídeo de divulgação do projeto para postar em suas redes sociais. A ideia era arrecadar donativos e buscar ajuda de colaboradores, mas não imaginava a repercussão que teria. Suas contas no Facebook e no Whatsapp não param mais. Muito feliz com o resultado inesperado, Maria Paula tem consciência de que nem sempre a euforia inicial se mantém e a rotatividade de ajuda é alta – por isso continua sendo bem-vinda a visibilidade do trabalho.

Em sentido horário, alguns dos voluntários do dia: Márcia Luz, Sônia Igreja, Alessandra Cardoso, Pedro Ferreira (ao lado de Miriam Valesca), Thadanory Abe e Fábio Martins

Em sentido horário, alguns dos voluntários do dia: Márcia Luz, Sônia Igreja, Alessandra Cardoso, Pedro Ferreira (ao lado de Miriam Valesca), Thadanory Abe e Fábio Martins

A quantidade de pessoas que procuraram o projeto durante a apuração dessa matéria surpreende. Moisés Pereira, motorista de uma empresa de ônibus, quer ser voluntário para ajudar a deslocar o veículo, que durante a semana fica estacionado em um posto de gasolina em Taguatinga: “Esse é meu futuro, ajudar pessoas”. Márcia Luz, servidora pública, estava participando pela segunda vez: “A questão da dignidade me motivou. Eles tomam banho, trocam de roupa, ficam com uma aparência melhor. Se quiserem procurar um emprego no dia seguinte, as pessoas [que podem auxiliar] ficam com menos receio”.

Sônia Igreja faz parte de um grupo religioso que já praticava voluntariado em outras situações. Ela se comprometeu a levar 100 porções de sopa todos os finais de semana. Alessandra Cardoso tem apenas 18 anos e há duas semanas faz parte do projeto: “Sempre gostei muito de ajudar as pessoas e, quando soube do projeto, já quis participar”. O cabeleireiro Fábio Martins estava na primeira semana como voluntário: “Tinha vontade de retribuir com minha mão de obra o que ganho com minha profissão. Quando vi a reportagem do projeto eu vim, de coração aberto”.

Adilson de Souza, feliz com o tratamento que recebeu dos voluntários

Adilson de Souza, feliz com o tratamento que recebeu dos voluntários

Maria Lúcia Ribeiro exerce o voluntariado há décadas e está acostumada a participar de campanhas na Rodoviária. Ela soube do projeto pelo Whatsapp e se prontificou a participar na mesma hora. O cabeleireiro Thadanory Abe tem se dedicado exclusivamente em ajudar ao próximo. Ele conta que já viajou a vários estados, e até mesmo a outros países, atuando com capacitação e iniciando projetos. A vocação para fazer o bem realmente parece fazer parte de sua rotina: assim que chegou no ônibus, discretamente procurou a organização com seu kit embaixo do braço. Como não havia mais espaço dentro do veículo, um dos voluntários puxou uma extensão elétrica para ele do lado de fora e conseguiu um banco. Rapidamente Thanadory passou a integrar o grupo de três profissionais que realizaram os cortes no dia.

Pedro Henrique Ferreira é um voluntário assíduo que faz de tudo: dirige o ônibus, instala o gerador e tem habilidade para lidar com os atendimentos mais complicados. Há pessoas que chegam muito alteradas e seus nove anos de experiência em projetos assistenciais facilitam nessas situações. Muito religioso, concorda que as mãos que levam a ajuda tem a mesma força, independentemente de crenças, idade e origem.

Adilson de Souza era um dos moradores de rua mais animados e receptivos, inclusive com os profissionais da imprensa que estavam cobrindo o projeto: “É a terceira vez que eu venho, esse projeto é uma mãe, muito bom. Dão todo o carinho e todo amor com o pessoal em situação de rua. Estou cortando o cabelo, vou fazer a barba, depois pegar roupa, tomar banho e fazer o lanche. É esse o procedimento”.

A idealizadora Adriana Calil explica que, se uma pessoa só puder ajudar em um domingo no mês, está ótimo, contanto que haja responsabilidade com a escala em que se predispôs a fazer parte. Por isso ela faz questão de conversar com todos os voluntários para identificar as reais motivações e se pode de fato contar com eles: “Para ser voluntário é preciso ter comprometimento, e para isso é preciso ter maturidade”.

 Como ajudar

As doações devem ser entregues no dia que o ônibus está na rodoviária: todos os domingos das 16h às 19h, na parte inferior da plataforma, lado norte.

Para doações em dinheiro:

Adriana Calil Amorim
Banco Itaú
Agência 4454
Conta corrente: 71965-1
CPF: 352.281.131-34

Walter de Pádua Soares Júnior
Banco CEF 104
Agência 674
C/c 378852.4
CPF 444.045.811-49

Também é possível entrar em contato pelos celulares dos organizadores da ação:

61.99556-5433 – Adriana
61.99981-7773 – Walter

O Banho do Bem tem ainda uma página no Facebook para mais informações.

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