Entrevistas

Dona Ceiça dá exemplo de superação e de dedicação aos estudos

A história da mulher que ficou cega depois de adulta e, após superar as adversidades, hoje ajuda outras pessoas em situação semelhante

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Maria da Conceição Nunes Batista, 64 anos, ou simplesmente Ceiça, como é carinhosamente chamada por aqueles que lhe conhecem. Ela nasceu em Belo Jardim, cidade do agreste pernambucano, e com apenas dois anos de idade mudou-se com a família para o Recife, onde mora até hoje. Casou-se duas vezes, sendo que do primeiro casamento teve dois filhos, Pablo Nunes Amorim e Isabela Nunes Amorim, e do segundo casamento teve o terceiro, Victor Nunes Gonçalves.

Aos 26 anos Ceiça descobriu que era portadora de Retinose Pigmentar, uma doença hereditária, sem cura, que causa a degeneração da retina, com perda gradativa da visão. Ela conta que ainda fez acompanhamento por 10 anos na Fundação Hilton Rocha, referência mundial em oftalmologia, localizada em Belo Horizonte (MG). Na perspectiva de entender o que era e como se comportava a retinose, o objetivo era impedir o avanço da doença, mas essa experiência não deu certo, e quando tinha 38 anos, Ceiça entrou no processo de perda da visão, que foi se acentuando até não enxergar mais.

Em 1995, com 41 anos, ela foi aprovada no concurso para professora da Fundação Educacional do Recife, onde permanece atualmente como técnica pedagógica na Escola Maria da Paz Brandão Alves, lugar em que assiste à chegada, estada e sucesso das crianças com deficiência na rede municipal. Ceiça conta que logo depois de assumir o cargo de professora, ela começou o curso de psicologia, mesmo sem ter os livros transcritos para o braile ou gravados, dificultando ainda mais o andamento de seus estudos. Entretanto, essa barreira não foi capaz de impedir a conclusão de sua segunda faculdade. Pelo contrário, ela foi a aluna homenageada de sua turma.

No ano de 2007, dona Ceiça fez o concurso para assistente social, e passou. Hoje, além da atuação como professora, ela também trabalha como psicóloga na Assistência Social da capital pernambucana, acompanhando grupos de pessoas idosas nas comunidades.

O que lhe motivou a trabalhar com pessoas com deficiência?

Na verdade, eu não tinha vontade de trabalhar com deficientes, fui trabalhar a partir do momento que me vi na situação. Eu perdi a visão e passei um ano dentro de casa, meio escondida. Foi muito impactante. Mas depois alguns amigos meus começaram a cobrar uma postura diferente da que eu estava adotando diante desse processo. A partir daí eu retomei minhas atividades. Um dia eu saí sozinha, e fui para a Associação Pernambucana de Cegos (Apec). Ao chegar lá fiquei profundamente triste, porque quando eu cheguei, fui avisando na associação: Gente eu estou perdendo a visão! E as pessoas diziam: “Que maravilha!” Na hora eu fiquei horrorizada: Nossa! Como é que eles estão gostando de eu ter ficado cega? Mas depois eu entendi. É porque a maioria das pessoas que tem uma deficiência com a idade já avançada, ficam dentro de casa. Elas não correm atrás, a família não ajuda, então, geralmente, elas ficam dentro de casa adoecendo, e não voltam a atuar na sociedade.

A professora Ceiça segurando o símbolo da Pedagogia, a coruja

A professora Ceiça segurando o símbolo da Pedagogia, a coruja

Como é o seu trabalho?

Bem, primeiro, por meio da Apec, eu conheci todo o pessoal que militava na defesa dos direitos das pessoas cegas, aí fui tomando gosto por esse trabalho. Eu comecei participando das principais lutas do Recife, pela gratuidade nos transportes, pelo ingresso no concurso público, e pela garantia da vaga na escola. E a partir dessas lutas eu fiz concurso para a prefeitura como professora, e depois outro concurso para psicóloga. Passei um tempo ministrando aulas de braile na associação, mas o que eu gosto mesmo é de educação de adultos. Contudo, na escola onde eu trabalho, tinha uma turma que ninguém queria trabalhar com ela, porque era uma turma muito difícil. Daí diretora da escola, que já me conhecia, e que sabia que eu sou uma pessoa que gosta de política, leio muito, e estou sempre buscando aprimorar meus conhecimentos nessa área. Então, ela me deu esse desafio: “Se você não for professora deles, eles vão ficar sem escola”. Aí eu fui trabalhar com essas crianças; no início eu fiquei muito embolada, achei meio complicado. Mas depois, em dois meses, eu ‘butei’ a meninada no eixo, enquadrei essas crianças, e em três meses todos estavam lendo. A coordenadora da escola ficou espantada com isso: “Nossa, professores que não tinham nenhuma deficiência não conseguiram ensinar esses meninos a ler, e agora eles já estão lendo assim?”. Eu consegui um jeito de ensinar essas crianças, que eu não sei explicar, foi uma forma meio mágica. Eu sou Paulo Freireana, meu mestre é Paulo Freire.

Você disse que mora sozinha, como foi dar continuidade às atividades em sua casa?

Tudo a gente tem que reaprender. Uma certa vez eu estava num ambiente e uma menina cega estava passando batom. Aí eu perguntei para ela: Como você faz para passar batom? No que ela disse: “Ah, passo batom nos lábios”. E eu disse: Ah, está bom. Desde então eu comecei a tentar fazer, e hoje eu consigo fazer. As atividades de casa do mesmo jeito, eu perguntava para as outras pessoas cegas: Como você lava roupa? Como você lava prato? Aí eu ia tentando, ia descobrindo. Minha irmã Nena certa vez chegou na minha casa, e eu havia feito faxina, e ela indagou: “Como sua casa está limpinha! Quem fez faxina dessa vez?”, eu disse: Fui eu. Aí ela retrucou: “Então mude de profissão! Você está fazendo faxina melhor que sua faxineira”. Se os pratos estão em um lugar, e na hora que eu abro a porta do armário eles não estão ali, então eu corro o risco de derrubar tudo o que não é prato. Se eu vou pegar uma coisa baixinha, e tem uma coisa alta, aí eu geralmente me acidento, pois já me acidentei várias vezes assim, me acidentei feio, porque as pessoas, por mais que você peça, elas não compreendem que para quem é cego, se tudo não estiver no mesmo lugar, você fica sem saber o que fazer.

Qual o canto da sua casa que você mais gosta de ficar?

É no meu quarto, porque eu gosto de ouvir música, e eu uso muito a música como terapia para relaxar, para descansar, para pensar no que eu vou fazer no outro dia e para refletir sobre o que fiz naquele dia. Eu amo música.

Ceiça, você sai todos os dias de manhã para trabalhar na prefeitura, nesse percurso, quais são as principais dificuldades que você encontra?

No centro do Recife, pela manhã logo cedo, é meio complicado andar porque tem muita gente dormindo na rua. Certa vez eu tropecei numa pessoa, e essa pessoa, com razão, ficou muito irritada. Daí eu comecei a pedir ajuda para as outras pessoas. Um outro problema que encontro no meu caminho para ir para o trabalho são os buracos nas calçadas e bocas de lobo sem tampas. Além disso, as pessoas chutam a bengala, a bengala cai, e eu tenho que ficar procurando a bengala no chão. Também tem o perigo de bater em orelhão, que sempre foi um dos segmentos dos cegos para que os orelhões fossem retirados, mas a gente não conseguiu. Inclusive, eu tenho aqui uma lembrança na testa de um orelhão que me cortou e ficou a cicatriz. Outro dia eu bati numa barraca que vendia espetinhos, olha, foi espetinho para todo lado, carvão para outro, e eu fiquei agoniada. A gente corre o sério risco de cair em buracos de esgoto, cair dentro de um rio, porque tem buracos na ponte. Aí vem a dificuldade de atravessar as avenidas, porque a maioria não tem sinal sonoro, e a gente tem que arriscar.

Vovó Ceiça com Inácio no colo, seu neto caçula de apenas um mês de vida

Vovó Ceiça com Inácio no colo, seu neto caçula de apenas um mês de vida

Todas essas dificuldades poderiam ser amenizadas com a a utilização de um cão guia?

Isto é verdade. As pessoas que se utilizam do cão guia dizem que se sentem muito mais confortáveis, porque elas se sentem de certa forma protegidas, porque quando um cão guia para, é um sinal de que ali há algum impedimento, e aí chama sempre a atenção de quem está por perto. É diferente da bengala, que você vai andando e as pessoas tropeçam em você, sua bengala cai e essas pessoas dizem sempre assim: “Ai, desculpa, eu nem percebi”. Com o cão não, o cão está ali, com aquela postura de senhor do caminho. Muita gente também se admira: “Ah, que lindinho!”, então é diferente, é uma condição diferente. Eu já teria sido poupada de muitas quedas, até mesmo das doenças que hoje eu tenho nos joelhos, de tantas quedas que eu já levei nessa caminhada, se tivesse um cão para me guiar. Mas depois de 16 anos inscrita no Projeto Integra, que faz o treinamento de cães guia no Recife, finalmente eu consegui. E hoje eu estou muito feliz, porque estou sendo treinada para receber Argos, o guardião de cem olhos da mitologia grega. Ele será os meus olhos daqui para frente. Creio que até agosto Argos já estará morando comigo, ele vai me livrar não só das quedas, mas também vai ser minha fiel companhia.

Qual é o seu maior orgulho?

O meu maior orgulho são os meus filhos, que são pessoas muito sérias, muito honestas, que ganham a vida com o suor dos seus rostos. São pessoas dignas, têm uma visão de mundo muito boa. Eles pensam que se eles estão felizes, e as pessoas à sua volta também o estão, então as coisas estão bem, mas se eles estão felizes e as pessoas à sua volta não o estão, então isso não é bom, nem para eles nem para ninguém. Além de serem filhos maravilhosos, ainda me deram seis netos, que são verdadeiros presentes de Deus para minha vida.

Como você se vê?

Sou mulher, índia, professora, nordestina, que tem consciência política do que é, e do que quer no mundo. Eu me nomeio com0 uma mulher socialista, que defende o projeto de sociedade socialista. Sou contra a exploração das pessoas, sou contra ditaduras, sou contra a violência policial, sou contra tudo que faça alguém sofrer. Passei minha vida perdendo alguma coisa para ganhar outra. Minha grande bandeira é a paz, o amor, o cuidar do outro, o respeito pelo outro, seja ele quem for, e esteja ele em que condição ele estiver.

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