Entrevistas

“Minha carreira aconteceu muito mais fora do Brasil do que aqui “

Pioneiro da gaita em Brasília, Engels Espíritos conta sobre carreira musical, parcerias com grandes músicos e embates com a Lei do Silêncio e a Ordem dos Músicos do Brasil

Erivan Junio

 

 

O cantor e gaitista brasiliense Engels Espíritos já acumula mais de 20 anos de carreira com diversas apresentações no exterior e parcerias com renomados músicos do Blues e do Jazz. Em meio à uma coleção de gaitas e outras parafernálias musicais, Engels Espíritos nos recebe para  contar sobre a carreira musical, influências e o engajamento político em defesa dos direitos dos músicos brasileiros e a batalha contra a Lei do Silêncio em Brasília.

Como surgiu o seu interesse pela música?

Quando eu tinha 7 anos de idade eu fui levado, junto com uma turma dos meninos da minha sala na escola, para uma biblioteca para ler o primeiro livro. A gente tinha acabado de ser alfabetizado. A professora falou: “Olha, naquela prateleira ali tem livros infantis, vai lá e escolhe um”. Eu tive a sorte de puxar um livro que tinha um macaquinho que tocava gaita na floresta. Essa história parece meio ridícula assim mas é verdade. Aí eu fiquei encantando com as figuras, o macaquinho tocando gaita, dando pirueta, aquelas notas musicais, e ele alegrava os animais da floresta. Enfim, aí eu tive a sorte também de ter uma família que tinha um excelente gosto pra música, da mais fina música brasileira ao jazz, ao rock.

O que você curtia escutar nesses primeiros anos?

Eu escutava de tudo. Elis Regina, Gilberto Gil, Zizi Possi, Caetano Veloso. Também da música nordestina o Luiz Gonzaga, Sivuca, Dominguinhos, Hermeto Pascoal. Grandes instrumentistas também.

E da cena internacional?

Do internacional eu escutava discos de blues e de jazz dos meus tios como BB King, que era o clássico dos clássicos né. Tinha coisas também das cantoras de jazz como Alberta Hunter, como Billie Holiday, Ella Fitzgerald. Tinha Miles Davis, um trompetista maravilhoso, e por aí vai, uma série de músicos e bandas. Também tinha coisas do rock tradicional como Pink Floyd, Black Sabbath, Peter Frampton, Jimi Hendrix.

E a gaita, quando foi que você começou a tocar?

Eu me interessei pela gaita aos 15 anos de idade, fui comprar uma gaita em Brasília em meados da década de 80 e descobri que não existia gaita pra vender na cidade. E nesse contexto não havia internet, não havia livros didáticos sobre a gaita, não tinha nenhum material, então era um instrumento totalmente marginalizado. Então eu acabei trazendo uma gaita de São Paulo, pedindo pelo catálogo de uma loja, chegou duas semanas depois pelo Correio. Eu comecei a tirar tudo de ouvido, eu tinha um ouvido já relativamente desenvolvido e comecei um processo de estudo autodidata ouvindo discos.

O que você ouvia de músicos gaitistas?

Não existam LPs de gaitistas chegando até nós. O que tinha eram pequenos solos de gaita nas bandas de rock, como por exemplo o Mick Jagger dos Rolling Stones tocando um pouco de gaita. Nos Beatles, o John Lennon tocava gaita. O Neil Young usando gaita no folk. Aí só a partir da década de 90 com o advindo dos CDs é que a gente começou a ter acesso aos materiais de gaitistas, eu passei a admirar os gaitistas da cena mundial depois que eu tive acesso ao material.

Dessa fase em que você estava começando a se envolver no cenário musical até sua ida para o exterior, como foi?

Eu montei a primeira banda de gaitas no Distrito Federal fazendo um show completo com gaitas harmônicas. Uma banda me acompanhando e eu tocando gaita. Um repertório todo com clássicos da gaita e começando as minhas primeiras composições. Então eu fui pioneiro tanto em apresentar os shows com gaita em Brasília como também a montar o primeiro curso de gaita na cidade. Aí fui convidado para fazer shows em outros estados. Comecei a tocar em alguns festivais de blues e jazz no Brasil até que em 1996 tive um convite para ir ao exterior pela primeira vez. A primeira vez que eu saí do país foi para ir ao Canadá à convite de um grande gaitista, Carlos del Junco. Ele me convidou para aperfeiçoar o jazz com ele.

E como foi essa experiência por lá?

Foi uma experiência extraordinária. Foi a primeira vez que saí do país e fui pra um lugar de primeiro mundo. Tive um curto contato de estudo com o Carlos del Junco porque eu estava já bastante avançado na técnica do instrumento e ele me introduziu às jam sessions do país, os locais onde aconteciam shows e que recebiam músicos para improvisar. Eu comecei a entrar nos shows de improvisação dessas bandas e aí fui chamando bastante atenção. Fui convidado pra tocar com algumas bandas de Toronto e  tive a sorte de chamar a atenção de um grande guitarrista, o Jeff Healey. Eu tive a sorte de manter essas jam sessions com um guitarrista canadense e ele (Jeff Hayley) estava lá, a namorada dele me convidou pra conversar com ele e tal. Ele disse que tinha um trio de jazz em Toronto e me convidou pra tocar com ele, aí eu fiz uma participação num show dele. Depois eu fui pros Estados Unidos.

Qual foi a impressão que você teve sobre a forma com que a música é vista por lá em comparação ao que ocorre aqui no Brasil?

Eu poderia não só citar o Canadá, os Estados Unidos também e alguns países europeus. Nos Estados Unidos eu estive cinco vezes:  Chicago, Flórida, Los Angeles, Califórnia. A diferença é que o público aprecia mais a música instrumental e a música estudada construída com proposta artística. E além disso, o mercado de música tem muito mais abertura e condições para dar projeção  para o artista que faz esse tipo de música. É um mercado muito mais interessante nesse aspecto, não existe um monopólio de estilos musicais em que ou você faz nos moldes impostos ou você está fora.

E isso pode afastar o músico do seu público aqui no Brasil e o levar para o exterior onde há mais chances de emplacar um sucesso, não?

Exatamente, tanto que a minha carreira aconteceu muito mais fora do Brasil do que aqui. Eu tenho a vergonha de dizer que eu conheço mais cidades viajando com shows no Canadá e Estados Unidos do que no meu próprio país. Eu toquei mais no exterior do que aqui no Brasil, entendeu?

O cinto de gaitas que sempre acompanha Engels Espíritos nas apresentações.

O cinto de gaitas que sempre acompanha Engels Espíritos nas apresentações

Você abriu um show do BB King aqui em Brasília. Como foi a experiência?

Foi uma experiência extraordinária. Como eu falei antes, eu quando era criança ouvia BB King nos LPs e de repente o cara tá do meu lado. A gente teve a oportunidade de conversar rapidamente. Foi em 2005, ainda não tinha celulares com câmera e eu esqueci de levar uma câmera, aí bateram uma foto minha com ele e nunca me entregaram essa fotografia. Aí a gente abriu o show junto com outros músicos de Brasília. Fizemos uma grande banda, foi uma noite incrível.

Além da sua carreira musical, você também é politicamente engajado em outras questões como a Lei do Silêncio em Brasília e a Ordem dos Músicos do Brasil. Como é esse outro lado da sua carreira?

Em 2009, em função de toda a opressão e falta de representatividade social e política para os músicos e artistas de outros segmentos , eu criei o movimento chamado MVM. Significa Movimento Pela Valorização dos Músicos. Juntei um grupo de pessoas e fomos agregando esses músicos para fazer reuniões e trazer informações de como funcionam as leis que regem a profissão do músico e do artista. Então consequentemente nesse período já havia sido aprovada, nos porões da Câmara Legislativa, a Lei do Silêncio. Junto com outros coletivos entramos em contato com o deputado Ricado Vale para fazer a reformulação da Lei do Silêncio que criou a PL445. Essa PL é uma peça interessante que consegue equalizar essa situação, dando uma condição de sossego para os moradores e condições para que a música exista nas comerciais de Brasília em toda a sua extensão, aumentando para 75 decibéis à noite e pedindo para que os fiscais do Ibram e da Agefis façam a aferição da casa do reclamante.

Você se sente otimista tanto com a Lei do Silêncio quanto a questão da Ordem dos Músicos do Brasil?

Eu sempre sou uma pessoa otimista, de fé, atitude e sou guerreiro. Então acho que tudo é possível, é claro que as condições não são favoráveis resguardando as devidas proporções de cada caso citado. Mas eu vejo que a pressão que nós estamos fazendo, especificamente sobre a Lei do Silêncio, está muito grande. E com relação a OMB nós estamos trabalhando de forma ostensiva com o MVM tentando atrair os músicos para essa luta e que assim o músico tenha finalmente uma lei que o prestigie.

 

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta

Entrevistas
IMG_1885 copia Meio nerd ainda é masculinizado
Turismo e Lazer
_MG_1493 Inserção de alunos com autismo ainda apresenta desafios para escolas
Entrevistas
Marcos Roberto, segurando seu primeiro Livro "Semideus: O Retorno Divino" Mitologia e filmes inspiram livros e peças de artista de Brasília

Mais lidas