Comportamento

Vídeos exploram a dor em busca de audiência

Tiros de paintball e grampos são artifícios usados nos vídeos; especialista alerta para satisfação com a tragédia alheia.

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Vídeos que priorizam a dor do outro como forma de fisgar a audiência são cada vez mais comuns em plataformas digitais. Em geral, o principal público é formado por homens jovens, de 18 a 24 anos. O lema do La Fênix, canal do youtube que tem como conteúdo um humor “alternativo”, com desafios, pegadinhas e recordes, é “A dor é passageira, mas os vídeos são eternos” . Hoje, com mais de 3 milhões de inscritos, o principal é a superação dos limites extremos do corpo.

Para o psicólogo Sérgio Oliveira, o interesse do ser humano pela tragédia alheia não é um assunto fechado, pois o comportamento social é muito complexo. “ Para essa questão não existe uma resposta única, existem diversas possibilidades que perpassam o comportamento individual e coletivo que servem para responder o por que as pessoas se interessam. Pode ser por curiosidade ou porque o sucesso alheio não nos interessa, mas a desgraça alheia sim”, declara.

O grupo possui uma rotina de gravação intensa. A ideia do canal surgiu em função de uma série de televisão exibida pela MTV norte-americana nos anos 2000,  Jackass,  em que nove amigos quiseram se desafiam em frente às câmeras. A série foi alvo de vários debates, o que resultou no cancelamento em 2002.

O canal brasileiro resolveu fazer algo parecido e, desde então, são 13 anos produzindo esse conteúdo. La fênix já teve várias formações. Hoje, são quatro amigos no comando: Mr.Lucky, 24 anos, que já espalhou 250 grampos pela barriga, braço e costas; Rogeri-O, 31,  que fez sua primeira aparição fazendo uma tatuagem com um ferro de passar roupa; Cacho, 30,  detentor do recorde mundial de tiros de paintball pelo corpo, com 205 disparos, e Rody Di, 33, nocauteado por um lutador profissional do UFC.

O grupo se utiliza da curiosidade no sofrimento do outro para fazer sucesso “Por alguma razão que eu não sei explicar, o ser humano gosta de ver a desgraça do outro. Não é a toa que o vídeo cassetadas do Faustão está no ar há 26 anos dando audiência”, comenta Rody Dio. Ter satisfação com a dor dos outros é um fenômeno considerado comum, conhecido pela expressão alemã schadenfreude. Schaden significa dano, e freude, alegria. Juntas, passam uma ideia semelhante a um ditado popular muito usado pelos brasileiros: pimenta nos olhos dos outros é refresco.

Na visão do psicólogo, o sentimento é de alívio ao ver essas cenas. Ele conta que por mais estranho que pareça, o ser humano tende a achar bom que a tragédia tenha acontecido com um desconhecido “Saber que uma tragédia aconteceu com outra pessoa e não comigo ou com uma pessoa próxima a mim, traz a sensação de alívio e escape ou a sensação de que minha vida está melhor do que a dos outros que sofreram”, explica.

Os jovens brasilienses realizam desafios entre amigos.

Os jovens brasilienses realizam desafios entre amigos.

 Os brasilienses Caio Gliosci e Marcell Werneck , ambos de 21 anos, também possuem um canal no Youtube, no chamado humor alternativo, o Power Guido Crew, com 20 mil inscritos. Caio comenta que a maioria dos desafios feitos acaba por nem ir ao ar. “A gente se arrisca e acaba nem pensando nisso, quando cai a ficha, percebemos o risco que corremos”. Porém, Caio acha que a audiência não é só pela dor.  “Acho que nosso conteúdo vai além disso, acredito que somos criativos a autênticos e  que nossa personalidade conta para a identificação do público”, relata.

Um caso que foi além do humor é o do brasiliense Diogo Azevedo, de 25 anos, que durante as gravações de um desafio, levou um chute nos testículos e acabou por sofrer uma lesão. De acordo com a intensidade de uma pancada nessa área, o impacto pode prejudicar o sistema de produção de espermatozoides, causando um trauma. “O meu caso foi bem infortuno, não foi só um chute que me causou isso, foi uma série de descuidos. Se você me perguntar se eu me arrependo, digo que não. Fiz por diversão e sabia dos riscos que corria”, revela.

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