Cultura

Os judeus que vivem em Brasília

Pouco conhecida na capital, a comunidade judaica segue fiel às suas raízes milenares

Longe de se resumir a uma “maquete administrativa”, Brasilia abarca uma cultura que não se resume aos seus quase 60 anos. Em uma região central do país, a capital federal absorveu rapidamente a história de milhares de imigrantes, brasileiros e estrangeiros, que trouxeram suas raízes na bagagem, na comida, nos hábitos. O jeito de ser de Brasília é como seu sotaque: difícil definir porque é uma terra, por natureza, sedenta de assinaturas, de personalidades que a desenhe. Há diferenças culturais convivendo lado a lado, sem estranhamento. O novo e o antigo são bem-vindos nesse “quadradinho” do Planalto Central.

Ao conhecer um pouco da vida de judeus que moram na cidade, percebe-se que morar em um lugar tão peculiar e distante das maiores comunidades judaicas não impede a celebração das suas origens. Para adentrar nesse universo, é preciso entender seu tamanho. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), compilados no Censo de 2010, havia 107.329 judeus no Brasil. Desses, as maiores comunidades estão em São Paulo e Rio de Janeiro, sendo que Brasília aparece em décimo lugar, com pouco mais de mil habitantes.

Diferentes formas de viver os costumes

Entender como vive um judeu não é tão simples, pois seus costumes variam a depender das origens dos antepassados. Dentre os mais conhecidos há os Ashkenazi (judeus do Leste Europeu, Rússia, e outros países mais ao norte) e os Sefaradi (judeus do Marrocos, Norte da África, Oriente Médio e outros países mais “quentes” da Europa). Cada um deles tem suas peculiaridades em decorrência das adaptações culturais de cada região.

Celebrações do Pessach  da família Gamarski e na Associação Cultural Israelita de Brasília

Celebrações do Pessach da família Gamarski e na Associação Cultural Israelita de Brasília

Além dessa distinção, há também os diferentes entendimentos quanto às normas das escrituras milenares. Em linhas gerais, partindo do mais rígido ao mais flexível, existem os ultra-ortodoxos, seguidos pelos ortodoxos, conservadores e reformistas (estes com propostas de modernização que outras correntes consideram polêmicas). Um bom exemplo para identificar essas diferenças é a forma como vivenciam o Shabat, nome dado ao dia de descanso semanal no judaísmo, simbolizando o sétimo dia em Gênesis, após os seis dias de criação de Deus. A partir do pôr-do-sol da sexta-feira até o pôr-do-sol do sábado o judeu tem seu momento de repouso e cada um o vivencia de uma maneira, inclusive dentro própria família.

A alimentação também exige critérios quando a tradição judaica é mais rígida. Kashrut é o termo que se refere às leis alimentares do judaísmo. A comida, de acordo com a lei judaica, é chamada de kosher, que significa literalmente “permitido” ou “apropriado”. Há inúmeros critérios na escolha e manuseio de alimentos, além de rituais de preparo que definem se a alimentação é kosher. Esses critérios são rigorosamente avaliados, desde abatedouros até produtos industrializados, havendo certificações que garantem o respeito às normas em todas as fases de produção. Como é de se deduzir, as tradições judaicas mais rígidas são kosher, uma tradição que passa a ser mais complicada de seguir em comunidades menores, onde não há produção local desses alimentos certificados.

Uma tradição, várias leituras, o mesmo respeito

Receptivaa, Rachel Ungierowicz, 70 anos, abre as portas de seu apartamento na Asa Norte e recebe a reportagem em um sábado à tarde. A servidora pública aposentada nasceu em Recife e é originária de família judia Ashkenazi. O pai era polonês não religioso, e a mãe, russa, filha de rabinos. Carismática, a senhora de olhos marcantes conta que sua família veio para o Brasil fugindo da Segunda Guerra Mundial. Ela é considerada judia pura, pois ambos os pais são judeus. Segundo a tradição judaica, o vínculo que define se a pessoa é judia está no ventre da mãe. Quando o judeu casa-se com uma mulher não judia (o que é chamado de assimilação), o vínculo consanguíneo dos filhos do casal se perde.

Rachel se considera conservadora porque seus pais vieram de diferentes origens, o que resultou em uma educação menos rígida quanto aos costumes ortodoxos. Ana Gabriela Ungierowicz, 28 anos, é filha de Rachel e noiva de Nelson Jacob Dressler, 27 anos, ambos estão morando com a matriarca. Dressler veio de São Paulo, de uma comunidade judaica ortodoxa, e Ana Gabriela explicou que está em um processo de transição entre o conservador e ortodoxo. O casal segue o Shabat de forma mais criteriosa que Rachel, que assiste TV nesse período, por exemplo. Os jovens optam por não manusear aparelhos que tenham corrente elétrica, carregar peso, pegar ônibus ou dirigir, cozinhar ou esquentar a comida.

Na foto de capa da matéria, o casal comemora o fim do Shabat, quando então se permitiram ser fotografados. O dia que a reportagem visitou a família também comemorava-se o Pessach. Conhecida como “Festa da Libertação”, o Pessach é erroneamente chamado de “Páscoa judaica”, pois coincide com a época da comemoração cristã. Os judeus celebram por uma semana a libertação dos hebreus da escravidão no Egito e o período também exige uma alimentação diferenciada e alguns rituais.

Rachel Ungierowicz mostra alguns dos alimentos consumidos no Pessach, considerado a "páscoa judaica".  O Matzá substitui o pão durante o feriado da Páscoa judaica, uma vez que comer chametz - pão e produtos fermentados - não é permitido. Uma pasta feita de beterrada e erva forte é uma das opções que Rachel utiliza para acompanhar, mas há tradições mais rígidas que sequer consomem algo úmido com o Matzá. À mesa estão também vinho e suco de uva com selo de certificação Kosher, além de uma compota com passas

Rachel Ungierowicz mostra alguns dos alimentos consumidos no Pessach, considerado a “páscoa judaica”. O Matzá substitui o pão durante o feriado da “Páscoa judaica”, uma vez que comer chametz – pão e produtos fermentados – não é permitido. Uma pasta feita de beterrada e erva forte é uma das opções que Rachel utiliza para acompanhar, mas há tradições mais rígidas que sequer consomem algo úmido com o Matzá. À mesa estão também vinho e suco de uva com selo de certificação Kosher, além de uma compota com passas

Questionados sobre como lidam com essas diferenças ao seguir as tradições, sorriram e disseram que “tudo bem”, há um respeito entre as pessoas que independe dessas questões. Dressler inclusive percebe que tem havido um movimento cruzado entre as tradições judaicas. Entre seus amigos judeus ele diz que há os ortodoxos que passaram a se considerar reformistas ou até ateus, ao passo que outros têm se aproximado da ultra-ortodoxia. “aqui em Brasília existem pouquíssimas famílias ortodoxas, em sua maioria somos conservadores, um meio termo”, disse Rachel.

Quanto à alimentação Rachel explicou que em Brasília não há um estabelecimento que produza alimentos kosher, e que costumam trazer de São Paulo ou Belém do Pará, onde as comunidades judaicas são maiores e há um público consumidor que justifica a produção com critérios tão específicos. Independentemente de ser kosher ou não, há regras que se respeitam, como distanciar entre três e seis horas a ingestão da carne e do leite, além do consumo apenas de peixes com escama. Rachel diverte-se ao dizer que era bem menos rigorosa em relação aos alimentos, até que Dressler veio morar com a família e, por ser um ortodoxo – ainda que moderno, ele salienta – procura seguir algumas regras mais específicas.

A família diz que os lugares de referência judaica na cidade são a Associação Cultural Israelita de Brasília (ACIB), na Asa Norte, de tendência reformista, e a sinagoga Beit Chabad, no Lago Norte, dirigida por um rabino ortodoxo. Eles frequentam um ou outro lugar, a depender das ocasiões.

Outra Rachel

Rachel Abitbol Raschkovsky, 57 anos, é chef de cozinha e também dá aulas de culinária judaica. Ela nasceu em Belém do Pará, viveu no Rio de Janeiro e mora há dez anos em Brasília. De família judia Sefaradi, seus avós também encontraram no Brasil o refúgio do holocausto. A família do seu pai veio da Bielorrússia e a da sua mãe veio de Tânger, no Marrocos. Rachel é casada e seus dois filhos também seguiram a tradição judaica – sua filha se casou com outro judeu e mora em Israel, e seu filho, de 18 anos, ficou com ela na cidade.

Rachel Abitbol Raschkovsky ao lado de uma mesa para celebrar Mimona. Realizada logo após o último dia de Pessach,  Mimona representa a Travessia do judeus pelo Mar Vermelho e  há séculos é comemorada em quase todas as comunidades Sefaraditas

Rachel Abitbol Raschkovsky ao lado de uma mesa para celebrar Mimona. Realizada logo após o último dia de Pessach, Mimona representa a travessia dos judeus pelo Mar Vermelho e há séculos é comemorada em quase todas as comunidades Sefaraditas

Seus filhos sempre frequentaram escola judaica em Brasília, mas a instituição fechou e desde então passaram a estudar em escola laica. Ela explica que em Brasília a sinagoga Beit Chabad é de fato mais ortodoxa, ao passo que considera a ACIB “muito reformista”. Como é conservadora e não há um meio termo na cidade, Rachel frequenta um pouco de cada lugar. Ela disse que a história na sua família é muito parecida com a de Rachel Ungierowicz. “[quando minha filha morava aqui] tinha o canto dela na cozinha e em Shabat não assistia televisão com a gente”, conta. A filha não é ortodoxa, no entanto come kosher pela facilidade dessa alimentação em Israel, além de ser Shomer Shabat (quem guarda o Shabat). “Mas falar em ser ortodoxa, não, é uma palavra muito forte”, explica Rachel.

O lado reformista do judaísmo

Mauro Leonardo Cunha é diretor da ACIB e explicou que há aproximadamente 500 judeus frequentando a Associação e cerca de 150 no Beit Chabad. “Mas, somando as pessoas que vem a Brasília de terça-feira a quinta, a ACIB atende uma comunidade de 1.100 pessoas”, explica Cunha. “Sou um reformista bastante religioso, igualitário – ou seja, acredito que as mulheres podem rezar e ler a Torá [texto central do judaísmo]”. Cunha explica que é um judeu de descendência “não muito organizada”, e precisou realizar um processo de naturalização, o que equivocadamente é chamado de conversão. Sua esposa é judia por opção, e não por consanguinidade, já que não é descendente pelo lado materno, apenas por parte de pai.

Cunha explica que tem relação de amizade com a sinagoga Beit Chabad, mas frequenta apenas em alguns eventos, não religiosamente. Mesmo assim, ele fez questão de enfatizar que é possível ser Reformista e ser religioso. Pai de Manuela, de 10 anos, Cunha diz que na sua casa cada um pratica o judaísmo do seu jeito, o que é uma característica da visão reformista. “Às vezes os ortodoxos falam como se eles fossem donos da religiosidade, mas tem gente bastante cumpridora dentro da própria reforma, que acredita na reforma do ponto de vista mais filosófico, mais político, mais do direito igualitário das mulheres”, finaliza.

Saiba mais

ACIB — Associação Cultural Israelita de Brasília
EQN 305/306, Bloco A, Brasília-DF.
Telefone: (61) 3273-8255

 

 

 

 

    Notice: Tema sem comments.php está obsoleto desde a versão 3.0 sem nenhuma alternativa disponível. Inclua um modelo comments.php em seu tema. in /var/www/publicacao/jornalismo/site-root/wp-includes/functions.php on line 2957

    Deixe uma resposta

    Entrevistas
    Entrevista Inovar é saber como os outros se comportam
    Cidadania
    Foto: Ingrid Pires Projeto leva esporte e música a adolescentes em Sobradinho
    Cidades
    Placas que sinalizam as saídas do parque, quando existem, estão degradadas. Parque da Cidade precisa de sinalização

    Mais lidas