Entrevistas

Meio nerd ainda é masculinizado

Professora doutora em História Cultural pela UnB e pesquisadora da área de Histórias em Quadrinho, Selma Regina Nunes destaca a importância da representatividade feminina

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Selma Regina Nunes é professora doutora em História Cultural pela Universidade de Brasília (UnB). Pertence à linha que pesquisa imagem, som e escrita. Dentro do tema, ela tem interesse específico sobre as narrativas gráficas poéticas. Além disso, orienta trabalhos na área de animação, cinema, tipografia, narrativas gráficas e quadrinhos.

No doutorado, desenvolveu a tese Mulheres ao Quadrado, que em 2007 foi publicada. De acordo com ela, o livro é uma cartografia de personagens femininas de histórias em quadrinhos desde o início, do marco considerado pela maior parte dos teóricos, 1895, até meados dos anos 90. Confira os principais trechos do bate-papo com a professora, que tratou de representatividade feminina nos quadrinhos, preconceito e o reflexo da sociedade no meio nerd.

Portal de Jornalismo: Sobre a tese “Mulheres ao Quadrado”, qual foi o intuito da pesquisa?

Selma Nunes: O problema ou pergunta da pesquisa era investigar o motivo das personagens femininas que são vilãs serem mais interessantes, os meninos acham interessantíssimas, mas no final das contas quem se dá bem são as mocinhas, mesmo elas sendo sem graça. Porém, era uma pergunta que não podia ser respondida porque não existia bibliografia sobre o que era uma mocinha e o que era vilã. Daí eu fiz a pesquisa sobre as personagens femininas passando por algumas heroínas. Personagens como a Mulher-Maravilha que foi criada na década de 40, chegando até personagens femininas mais atuais, a maioria de Graphic Novel (história produzida em quadrinhos).

O que você pôde identificar?

A conclusão é que, conforme o movimento feminista foi conseguindo, principalmente, na segunda onda, ganhos políticos para as mulheres, isso vai se refletir nos quadrinhos com papéis mais relevantes para elas. Se no início, nos primórdios dos quadrinhos, eu tenho personagens que são namoradas, são noivas, sempre mocinhas indefesas, à medida que, por exemplo, vem a primeira onda do feminismo, você tem a criação da Mulher-Maravilha. E aí, nos anos 60, com o X-men e Quarteto Fantástico, os papéis começam a ser diferenciados, mais interessante. Sai daquela função de ser namorada do herói ou do vilão e passam a ter papéis mais relevantes. Nos anos 80 e 90, nós vemos a explosão de personagens com protagonismo mais acentuado nas histórias.

Professora Selma Regina em aula no Laboratório de Publicidade e Propaganda da UnB

Professora Selma Regina em aula no Laboratório de Publicidade e Propaganda da UnB

Quais os reflexos disso na nossa realidade?

Pelo que eu vejo, leio e converso com a geração mais nova, já é possível você se sentir representada. Nas meninas, faz diferença porque elas se veem nas produções. Mas para os meninos não vejo tanta diferença. Eles continuam tranquilos nos seus personagens masculinos, muito sarados, muito grandes, muito másculos, que quebram e arrebentam. Agora… à medida em que reflete nas meninas e elas têm mais consciência, se veem representadas, elas entendem que têm de brigar por isso. Se não formos nós para brigarmos, nada vai acontecer. Acho que tem um reflexo, sim, mas no público feminino.

Por que mulheres não têm resistência para, por exemplo, vestir uma roupa com emblemas de um super-herói enquanto os homens não se sentem confortáveis com o contrário?

Uma menina se vê representada em um personagem masculino, mas o menino não vê. O outro do homem não é uma mulher. O outro do homem é um homem. O outro do herói seria o vilão e não uma super-heroína. Isso vale para a vida. O outro do homem é outro homem, a mulher é uma coisa a parte. Os meninos gostaram da mulher maravilha no filme, mas não vestem uma blusa, não usariam uma bicicleta com adereços dela, por exemplo.

Então, dá para falar que a mulher está conseguindo mais espaço no universo nerd?

Nos games são as constantes reclamações de assédio. As gurias, nos quadrinhos, já têm mais representações à altura. Mas nos games elas são sexys, muito peitudas, muito gostosas. É uma indústria voltada para os homens. Os quadrinhos já tiveram essa fase, mas nos anos 80 entraram várias mulheres – desenhistas, arte-finalistas. etc. Claro que o número masculino é maior, mas já temos autoras de destaque. Na Marvel e DC já temos mais mulheres trabalhando, claro que ainda não é número ideal, mas já temos roteiristas e por isso as meninas se veem mais representadas. Nos games a situação é mais difícil.

Neste contexto de evolução, o preconceito ainda é muito presente?

O pior que o preconceito, na minha opinião, é a naturalização desses preconceitos. Isso é pior. Porque constatei na minha pesquisa que há mudança, mas muito pouca. Tem muita coisa que ainda está arraigada. E os meninos mais novos continuam repetindo como os avós faziam. É uma briga a cada dia.

Embora você tenha dito que a mulher está atuando mais neste cenário, ela ainda não é uma presença normal no mundo nerd. E, para você, de onde vem a motivação para pesquisar esta área?

Aprendi a ler com quadrinhos. Tudo na graduação que eu tinha a chance de fazer sobre isso, eu fazia. Na pós, no mestrado e doutorado, estudei isso. No doutorado foi que comecei a estudar gênero. Por isso, fui para a História para ter contato com estudo de gênero. Não tenho nenhuma grande história de preconceito sofrido na pele, mas só o do cotidiano já basta para mim. Tô numa fila e um homem é atendido antes só por ser homem, pra mim já basta pra saber que a gente tem que matar um leão por dia.

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