Entrevistas

Um seresteiro de Juscelino

Fernando Lopes conta a história da sua carreira como primeiro cantor contratado pela Rádio Nacional de Brasília e como conheceu o presidente JK durante a construção da cidade

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#entrevista Fernando Lopes JK Juscelino Kubitscheck

Um poço de simpatia, sorriso fácil, e muita história para contar. Nascido em Piracanjuba-GO, Fernando Lopes veio para Brasília em 1959, ainda durante a sua construção, para ser cantor. E acabou por encantar nada menos que o presidente da República, Juscelino Kubitscheck, de quem era fã.

Antes de vir para a capital federal, ainda criança, morou em Goiânia, onde fez aulas de canto na Escola Técnica. Depois, devido ao falecimento do pai, mudou-se para Inhumas. Trabalhou como gerente nas Casas Pernambucanas, até a grande oportunidade bater à sua porta: o convite para cantar na Rádio Nacional de Brasília.

Batizado como Eduardo Gomes de Faria, recebeu o nome artístico quando foi contratado pela emissora. A mudança aconteceu porque havia outro cantor chamado Eduardo fazendo uma temporada na cidade. O nome pegou. Hoje, aos 86 anos, Fernando canta apenas a convite de amigos e por puro prazer.

Quando você começou a cantar?

O Eduardo que nasceu lá em Piracanjuba, ele ficou em Piracanjuba até os três, quatro anos de idade e veio pra Goiânia. Em Goiânia ele já se metia a cantor e já cantava naquelas rádios locais lá nos programas infantis. O tempo foi passando e eu vim estudar na Escola Técnica de Goiânia. Estudando lá eu conheci a professora de música, mestre Nair de Morais. Ela foi fazer teste para cantor que existia na escola. Ela foi me testar, a escala musical, viu o lá lá lá lá lá lá (Fernando solfeja). “Você é bom. Vem cá, depois do almoço lá no refeitório, você acaba de almoçar e vem aqui pra o auditório que eu tô te esperando”. E naquela brincadeira ela passou a me dar aula de canto. Eu tinha 12 anos. E eu fui desenvolvendo. Chegou a um ponto que ela disse pra mim “Ô Eduardo, eu não tenho mais nada pra te ensinar. Você hoje pode sair para o mundo que você pode fazer a vida cantando”.

E você saiu para o mundo. Mas como apareceu esta oportunidade?

Passou uma época eu deixei a Escola Técnica porque houve o falecimento de meu pai e a gente precisava trabalhar pra a ajudar a família. E minha mãe nessa época trabalhava em Inhumas, que é uma cidade próxima de Goiânia, e eu fui pra lá trabalhar. Arrumei emprego nas Casas Pernambucanas. Cheguei a ser até gerente. Eu tinha um amigo que era jornalista em Goiânia. Ele trabalhava no O Popular, mas querendo progredir na vida, foi convidado pra trabalhar no Rio de Janeiro. Mas esse rapaz ele era colega meu lá em Inhumas. Colega de serenata. Ele tinha o apelido de Bacuri, mas o nome dele é Américo Fernandes. Um fim de semana ele chega lá em Inhumas: “Ô Eduardo, eu tô hoje na Rádio Nacional, lá no Rio de Janeiro, e a Rádio Nacional tá aqui no planalto central, tá construindo a capital da República, a rádio tá funcionando já há seis, oito meses, e eu vim pra cá como jornalista. Vou ficar aqui mais perto de casa, ficar em Brasília. Se eu arrumar um contrato pra você ser cantor da Rádio Nacional você toparia?” Eu falei “Que é que é isso? Pelamordedeus. Já tô arrumando a mala!” Aí passou um fim de semana, outro, outro, ele chegou lá e falou “Você vai a semana que vem. Tô te esperando lá”.

E foi simples assim? Você chegou e foi contratado pela Rádio Nacional?

Quando eu cheguei, ele me levou pra a casa dele. Mas o diretor da rádio não estava aqui na época. Fiquei esperando. Foi quase uma semana. Nisso eu fiz amizade com uma pessoa que era produtor musical lá na Rádio Nacional, o doutor Alfredo Ribeiro. Ele tava com dificuldade em arrumar alguém que sabia mexer com cenário de teatro (para a Novacap). Aí eu disse pra ele “isso aí eu sei fazer”. Três dias depois, eu trabalhando lá das 8 às 18 horas, o Eli Mesquita (diretor da rádio) chegou. No dia seguinte eu encontrei com o maestro Colman, que era um russo radicado aqui no Brasil. Ele botou a orquestra, eu tinha dado o nome de seis músicas, ele preparou, fomos lá e ele começou a fazer o teste. Cantei, ele gostou, aí eu falei com ele “Maestro, eu tinha vontade de cantar a música Granada”. Essa música faz parte da minha vida. Todas as batalhas que eu já enfrentei musicais, com ela eu estourei a boca do balão. Ele virou e falou “Rapaz, essa música é muito difícil de cantar. Muito difícil. Você que cantou agora tá ótimo, eu vou aprovar o senhor para o Eli Mesquita. Agora, se o senhor cantar Granada e não der certo, eu não posso fazer nada, eu não posso dizer que o senhor tá aprovado”. Eu falei “eu faço questão professor”. Eu fazia questão, sabe por quê? Porque essa música foi a mestre Nair lá na Escola Técnica que me ensinou quando eu tinha 12 anos de idade. Eu dominava essa música. Ele regeu a orquestra, eu comecei a cantar. Ele parou de reger pra ficar me olhando. Meu talismã ficou sendo Granada e imediatamente fui contratado. Eu fiquei sendo o primeiro cantor a ser contratado pela Rádio Nacional.

Fernando Lopes não abre mão de cantar Granada em momentos importantes. É seu talismã

Fernando Lopes deixou sua vida em Goiás para viver seu sonho

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

O mais importante de tudo aconteceu quando, um dia, o maestro Colman: “Ô rapaz, eu tenho de apresentar você ao meu compadre. Amanhã à tarde você vem pra a rádio e eu vou levá-lo pra conhecer meu compadre. Quero que você cante pra ele”. Pois não. O maestro, né? Sete horas da noite eu saí da rádio e pegamos a Kombi, mais uns três, quatro músicos e saímos por aí. Eu não sabia pra onde era porque naquela época Brasília não te dava uma direção. Era um canteiro de obra. Aí andamos, andamos, mato danado, estrada ruim. Paramos em um lugar lá. Tava bem iluminado, tinha bastante gente por lá. Ele desceu, eu desci logo atrás, ajudei a carregar os instrumentos e quando eu dou de cara… “Ô Fernando, esse é meu compadre”. Quem que era? Juscelino! Jesus crucificado. As pernas tremeram. Eu não sabia se eu dava a mão pra ele. Deu vontade de mijar. Eu não sabia se ria, se chorava de emoção. “Ô Fernando, meu compadre tá dizendo que você canta muito bem”, já veio e me deu um abraço. Meu coração disparou. De repente eu encontro com a maior autoridade do Brasil, e esse homem estende o braço pra me abraçar? Que é que é isso, meu Deus do céu? Mereço não, uai. É muita coisa pra mim. “Vombora aí, veio pra cantar, eu quero ver você cantando”. Já tava mais soltinho um pouquinho, o que é que eu fiz? Granada! Lógico! É minha música de sorte. Acabei de cantar, ele “Ó, toda sexta-feira a gente reúne aqui. Se o maestro Colman vier, muito bem, se não vier, você vem pra cá pra a gente fazer uma serestinha aqui. Toda sexta-feira venha. Se você não puder, eu mando o carro do palácio te pegar”. “Presidente, eu venho sim”. Ali eu fiquei conhecendo Dilermando Reis, Sílvio Caldas. Não no mesmo dia, mas nessas reuniões eu fiquei conhecendo Elizeth Cardoso, Francisco Petrônio, só cantor seresteiro, que é o que Juscelino gostava.

E dona Sarah?

Agora você falou um negócio danado. Dona Sarah, excelente pessoa. Era uma mulher moldada para ser a primeira-dama, e o era com toda a distinção, postura, porte. A única coisa que faltava pra ela era altura, mas era uma elegância, meiguice, muito muito muito meiga. Eu tô falando tudo isso, verdade da dona Sarah. Mas nas rodas lá, ela precisava de justificar as saídas nas quebradas do Juscelino. Mas o Juscelino não podia ter culpa.  O Nonô não pode ter culpa disso, né? Coitado dele. Ele é levado. “Olha lá, o neguinho do Juscelino ali”. Era eu (risada alta). O neguinho de Juscelino que botava ele no mau caminho. Precisava ter uma saída, um bode expiatório, aí era o neguinho do Juscelino, porque ele gostava muito de mim.

Hoje, você ainda canta profissionalmente? Ou só por distração?

Canto só pra me distrair. Eu tenho uma plêiade de amigos que me levam pra a casa deles pra cantar. Ultimamente eu fiz, aqui no Feitiço Mineiro, uma apresentação. Eu já tinha parado de cantar quando eu saí da Rádio Nacional, me aposentei, aí eu parei de cantar, nunca mais cantei. Cantava numa festinha, na casa de um, bebendo uma e tal, mas aí um grupo de amigos resolveu fazer com que eu cantasse, fizesse uma apresentação mais prolongada lá no Feitiço Mineiro. Eu, depois de muito luta e tal, cedi. Eu não me sentia preparado pra isso porque, pra fazer uma apresentação pra um público grande, eu tenho de me preparar psicologicamente, ensaiar demais, treinar cantar duas horas sem parar, isso é muito trabalhoso pra quem já parou de cantar. Através de exercícios e etc., eu fiz. Graças a Deus aconteceu, eu não esperava e principalmente o pessoal da minha família ficou impressionado com isso, porque a minha apresentação lá tava marcada pra um dia X e uma semana antes tinha esgotada toda a lotação da casa. No dia da apresentação, na porta no lado de fora, tinha gente que dava pra fazer uma segunda sessão. Isso pra mim aumentou minha responsabilidade demais. Fiz, e foi uma noitada maravilhosa. Depois eu fiquei sabendo que esses amigos meus tinham feito uma sacanagem comigo. Tinham botado, sem eu ver, câmeras de gravação no palco. Fizeram então um DVD. Queria vender, eu não deixei. Parei de cantar há muito tempo, não tem que vender isso não. Fica feio. E eles pediram pra fazer mais outra apresentação e eu não fiz. Mas eu não fiz sabe por quê? De medo de não dar o sucesso que deu! (risada alta). Não mexe com time que tá ganhando não.

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