Meio Ambiente

Lixo eletrônico ganha sobrevida nas estações de metarreciclagem

Iniciativas encontram formas de reutilizar e comercializar toneladas de eletrônicos descartados

Em um esforço conjunto com a população, estações de metarreciclagem do Distrito Federal e Entorno promovem o descarte consciente do lixo eletrônico. Com pontos de coleta espelhados por toda a região e atendendo pessoas físicas, órgãos públicos e empresas privadas, essas estações recebem e separam adequadamente toneladas de componentes eletrônicos que são reaproveitados em cursos de informática básica ou são enviados para grandes indústrias que fazem a extração de metais pesados desses componentes.

Computadores, celulares, câmeras e televisores são alguns dos eletrônicos encontrados em grande parte dos lares brasileiros e que escondem na estrutura interna componentes químicos e metais pesados que podem causar uma série de danos visíveis ou não ao meio ambiente e ao próprio ser humano se descartados de maneira incorreta. O vidro das telas de monitores ou televisores, por exemplo, têm tempo de decomposição indeterminado e o alumínio dos gabinetes de computadores pode demorar entre 200 e 500 anos para se decompor na natureza.

Computadores descartados em contêiner do pátio da estação Zero Impacto.

Computadores descartados em contêiner do pátio da estação Zero Impacto

Na estação de metarreciclagem Zero Impacto, localizada no Guará II, placas de circuitos tiradas de eletrônicos descartados são objetos de valor e recebem atenção especial ao chegar para a triagem de componentes. O técnico Anfrisio Sousa separa essas placas de acordo com a classificação de cada de uma. “Uma placa como essa aqui tem 17 tipos de metais nobres, entre eles o ouro, a prata, o cobre”, exemplifica, enquanto analisa a placa mãe de um computador descartado. Eletrônicos que não podem ser reaproveitados têm os componentes separados e preparados para serem comercializados com outros estados onde ocorre a exportação para países como Bélgica e Japão.

Cálculos feitos em um relatório recente da ONU mostram que o mercado mundial de lixo eletrônico chega a movimentar cerca de US$ 400 bilhões por ano. No mundo, apenas cinco empresas fazem a recuperação dos metais dos componentes extraídos de eletrônicos. “Aqui no Brasil, em grande escala, não existe nenhuma empresa que faça extração dos metais nobres, tanto de processadores tanto das placas”, explica Anfrisio. “Em Brasília só tem essa primeira parte de coleta e separação, que é o que a gente faz.”

Enquanto isso, computadores que ainda têm vida útil e podem ser reaproveitados são doados e utilizados em iniciativas de inclusão digital. É o que acontece na ONG Programando o Futuro, que atua em Valparaíso (GO). Além da estação de metarreciclagem, a organização mantêm cursos de informática básica e montagem e configuração de computadores oferecidos gratuitamente à população.

Iniciativas de vários lugares do país mantêm parceria com a ONG e recebem doações constantes de máquinas montadas. Entre as máquinas montadas por jovens estagiários e técnicos está uma impressora 3D feita inteiramente a partir de componentes eletrônicos descartados no lixo. Refael Aguilar montou o equipamento e agora o utiliza, juntamente com estagiários, para a produção de artigos de decoração de festas e eventos em uma start-up criada dentro da ONG. “A impressora, da fase de onde eu comecei a estudar o processo  até eu ter uma pronta, demorou em uma média de oito a dez meses”, explica. “A lógica que eu usei foi de tentar utilizar o máximo de componentes do lixo eletrônico para baratear o custo”, lembra, enquanto assiste a impressão em 3D de um desenho feito no computador.

A impressora 3D montada por Refael Aguilar divide espaço com outras impressoras profissionais na estação Programando o Futuro

A impressora 3D montada por Refael Aguilar divide espaço com outras impressoras profissionais na estação Programando o Futuro

Em ambas as estações é constante movimento de carregamentos de equipamentos eletrônicos descartados sendo entregues. Caminhões chegam a todo instante para descarregar nos contêineres dos pátios de reciclagem. “Varia em torno de cinco toneladas por mês. Pode chegar até mais”, analisa o técnico Anfrisio Sousa em meio a um carregamento de impressoras que acabou de chegar na estação Zero Impacto proveniente de uma doação do Exército. Tanto a estação Zero Impacto quanto a ONG Programando o Futuro mantêm pontos de coleta espalhados por todo o Distrito Federal e Entorno e também fazem a retirada em domicílio dependendo do volume de materiais a serem doados. Lojas de manutenção de eletrônicos são um dos maiores doadores desses materiais. A loja Sr. Computador, por exemplo, mantêm parceria com uma estação de metarreciclagem do Distrito Federal. “A gente pergunta se o cliente quer deixar o computador que não funciona aqui ou quer levar para casa”, explica o técnico da loja, Rafael Sá. “Temos uma caixa com equipamentos descartados aqui e de dois em dois meses encaminhamos para a empresa de reciclagem”, declara.

Caminhão do Exército Brasileiro descarrega impressoras descartadas. As estações recolhem equipamentos de empresas privadas, orgãos públicos e pessoas físicas.

Caminhão do Exército Brasileiro descarrega impressoras descartadas. As estações recolhem equipamentos de empresas privadas, órgãos públicos e pessoas físicas

O país possui uma legislação específica para esse tipo de lixo, é a Lei Federal de Resíduos Sólidos n° 12.305. A lei, aprovada em 2010, determina que haja uma destinação adequada para os resíduos eletroeletrônicos. Em 2016, o relatório Global E-waste Monitor apontou o Brasil como segundo maior produtor de lixo eletrônico entre os países americanos, ficando atrás dos Estados Unidos. No ano do relatório, o Brasil gerou 1,5 milhão de toneladas de lixo eletrônico.

Deixe uma resposta

Educação
Projeto incentiva leitura em escolas de ensino infantil
Saúde
IMG_5078 Remédio que pode prevenir HIV chega para todo o Brasil
Cultura
_MG_4228 Carreira artística que nasceu na escola

Mais lidas