Entrevistas

Música exerce papel fundamental na formação infanto-juvenil

Maestro Sousa-Castro é um dos idealizadores do Movimento Sinfônico de Brasília, que hoje ensina arte gratuitamente a mais de 60 alunos

Tags:
abuso sexual Escola de Música de Brasília jovem Maestro Movimento Sinfônico música

    Após conhecer o sistema de orquestras da Venezuela e se impressionar com a qualidade das orquestras juvenis, o maestro Ricardo Sousa-Castro, 36, idealizou em 2012 o Movimento Sinfônico de Brasília, que atende atualmente cerca de 70 jovens  no Guará, Sudoeste e Cruzeiro. Nesses seis anos de trabalho, tem sido difícil cumprir agendas devido à demanda de solicitações para reger. A iniciativa e o movimento têm dado tão certo que inspira jovens a se profissionalizarem na música, que contribui para a superação de jovens que sofrem abuso sexual e violência doméstica.

    - Portal de Jornalismo do Iesb: O que levou o senhor a se envolver com a música?

    - Maestro Ricardo Sousa-Castro: Gostava muito de música. Colocava um disco para  escutar, meu pai tocava um pouquinho de violão, mas nunca foi músico. Gostava de brincar com os sons ao redor. Fui aprendendo a tocar violão, tocar alguns outros instrumentos de música popular. Depois eu entrei para a Escola de Música de Brasília, aos 20 anos, como tinha o conhecimento musical, fiz a prova e passei para as vagas que eles disponibilizam pelo teste. Na música, deve-se começar no máximo até oito anos. Fui muito tarde! Depois da EMB passei para a regência, na UnB.

    - O que o motivou a fundar o Movimento Sinfônico de Brasília?

    - Quando eu terminei a UnB, comecei a fazer algumas aulas particulares de Regência com o maestro Miro. Participei de alguns cursos no Brasil e fora do Brasil, como a na Itália, na Alemanha, na República Tcheca, na Argentina e na Venezuela. Daí eu resolvi fazer um mestrado em regência na UnB, fiquei sabendo do mestrado que tinha na Venezuela, que eles têm um sistema de orquestras que hoje chega a mais de 900 mil alunos. Quando eu fui lá, era só para o mestrado mesmo, não tinha muito interesse em trabalhar com a orquestra juvenil.

    Maestro Ricardo Sousa-Castro recebeu homenagem por seis anos do movimento

    Maestro Ricardo Sousa-Castro é homenageado por seis anos do movimento

    - Quando a primeira turma iniciou as atividades?

    - Em janeiro de 2012, eu comecei esse trabalho com uma turma de alunos que eu tinha pagantes. Orquestra filarmônica do Sudoeste. Em meados de agosto, a gente já tinha instrumentos para começar com sete alunos, começamos em uma creche aqui no Guará, que ainda é nossa parceira, com sete alunos e aí cresceu, pois abriu uma orquestra no Cruzeiro e começamos a desenvolver o trabalho lá. Hoje contamos com esses três núcleos: Sudoeste, Cruzeiro e Guará.

    - Nesses seis anos de trabalho, qual o maior aprendizado no movimento sinfônico?

    - Muita coisa musicalmente. Claro! Porque como a gente aprende nos cursos, a aula te ensina muito, mas você aprende a profissão de Regente nos ensaios, com a vivência. Então por mais que eu tenha regido orquestras profissionais e tudo antes de começar o movimento, com esse trabalho eu tenho ficado praticamente todos os dias da minha semana. O trabalho social realmente faz a gente se tornar uma pessoa melhor e aprendemos a ver o outro mais do que quando você está só assistindo de fora.

    - Há uma procura dos jovens em participar desse trabalho?

    - Muito! Quando eu comecei eu tinha essa dúvida, eu falei “como é que vocês fazem para os alunos se interessarem por participar? Tem que ter lanche? O que tem que fazer para incentivar e atrair?” Daí eles disseram que se tiver lanche, ótimo! Se tiver transporte, ótimo! Se não tiver nada disso, anuncia as vagas que os alunos vão aparecer. Quando você começar a fazer as apresentações dos alunos, os que estão assistindo vão querer estar no palco na próxima vez e não na plateia. Realmente tem acontecido isso e em cada apresentação sempre aparece mais pessoas no movimento.

    - Atualmente, o Movimento Sinfônico de Brasília conta com quantas pessoas? 

    - A gente tem uma rotatividade baixa. Tem aluno que praticamente começou com a gente e ficou até hoje. Não temos um número exato, mas por volta de 60 a 70 pessoas que a gente atende atualmente sendo que já foram quase 200 alunos no total de atendido desde 2012.

    - Como são as demandas e agendas da orquestra? 

    - Há uma demanda grande de apresentações solicitadas, de procura mesmo. Nos últimos dois ou três anos, talvez até mais, a gente não precisou procurar as escolas e as instituições para oferecer apresentações da orquestra, porque já está difícil a gente cumprir agenda de apresentações que são solicitadas.

    - Qual o cenário com a Escola de Música de Brasília? 

    - A gente não tem o apoio da Escola de Música porque são instituições com alguns objetivos em comum outros não, e até a burocracia de ser uma organização pública então é um pouco mais complicado fazer algum tipo de convênio para escola de música. Tenho muitos amigos lá na escola que são professores e eles conhecem o movimento porque alguns dos nossos alunos querem complementar os estudos, então eles fizeram a mesma prova que eu fiz na minha época e passaram. Hoje são alunos lá também. Isso é muito interessante porque a gente trabalha muito a questão da qualidade e do respeito da disciplina, e eles se esforçam bastante, então quando eles chegam lá na escola os professores costumam gostar muito deles pois são mais aplicados e dedicados.

    - Maestro, se há, qual a perspectiva para o Movimento daqui a dez anos? Como o senhor enxerga esse trabalho daqui para frente? 

    - São várias perspectivas. Primeiro, claro, crescer mais ainda o tamanho, em quantidade de pessoas e em qualidade musical, a gente tem conseguido manter um nível de crescimento. Os nossos alunos mais avançados estão tocando cada vez melhor e está cada vez maior a quantidade de alunos avançados. Nossos alunos já estão considerando, inclusive, estão até já se programando para se profissionalizar na música. Então acho que a gente está começando com isso para que daqui a 10 anos consigamos consolidar bem isso e consigamos absorver uma boa parte dos nossos alunos que queiram trabalhar com profissionais da música.

    -  Nesses anos, o senhor viu a realidade desses jovens? Como a música os atraiu?

    - Vários! A gente, querendo ou não, acaba entrando em contato com coisas que a gente não imagina, né? Muitos casos de violência doméstica, muitos casos de abuso sexual, muitos casos terríveis dentro das famílias das pessoas e muitos deles até se apegam muito a música, pois é uma coisa que faz ele sair um pouco da realidade que vive. Esse tipo de trauma acaba influenciando o aluno a não se dar bem na escola, a não conseguir se concentrar, porque na verdade ele está com problemas muito mais sérios, então ele acaba não se concentrando no que ele tem que se concentrar e a música exerce papel fundamental.

    Deixe uma resposta

    Educação
    Projeto incentiva leitura em escolas de ensino infantil
    Saúde
    IMG_5078 Remédio que pode prevenir HIV chega para todo o Brasil
    Cultura
    _MG_4228 Carreira artística que nasceu na escola

    Mais lidas