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Música, a arte da democracia

O Conic é um ponto comercial, um ponto turístico, um ponto de mendicância, mas passa a ser, a partir do trabalho de produtores musicais locais, também o ponto de encontro da boa música

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Durante o dia, um conglomerado de salas comerciais distribuídas em prédios construídos em 1963, no centro de Brasília, ao lado da Rodoviária do Plano Piloto. Durante a noite, já foi ponto de drogas, mendicância e prostituição. O Conic é um dos lugares mais movimentados da cidade; já foi  um dos mais perigosos, mas hoje ocupa seus becos com música de qualidade e um público cativo.

Aproximadamente 700 mil pessoas passam por ali em horário comercial diariamente, segundo a Secretaria de Estado de Habitação, Regularização e Desenvolvimento Urbano (Sedhab). Durante a noite, o local é bem mais vazio e sombrio.

O espaço do Conic fica cheio nos dias da semana em que há atrações musicais

O espaço do Conic fica cheio nos dias da semana em que há atrações musicais

Uma boate gay; um teatro dos mais conhecidos e aclamados da cidade, o Dulcina de Moraes, hoje praticamente sem funcionamento. Mas havia ali uma possibilidade e Jhonny Moura, gerente do bar Thayná, disse que seu dono aproveitou. Desde 1991, o bar é ponto de encontro dos funcionários do próprio Conic, que fugindo do trânsito e do grande movimento da rodoviária, esticam o expediente e tomam uma cervejinha por ali.

Johnny não esperava, entretanto, que o movimento do estabelecimento iria subir cerca de 40% de 2017 até os dias de hoje. Isso aconteceu porque alguns produtores musicais em parceria com o Thayná passaram a levar suas bandas e grupos para agitar a noite do local, atraindo um novo público. Os moradores “do plano” hoje marcam presença no bar ao menos três vezes por semana. E esse número de dias – e pessoas – tende a aumentar.

Toscanini é produtor e um dos fundadores da fanfarra mais famosa da cidade, chamada Calango Careta. Além disso, participa e organiza um dos eventos mais novos do conglomerado, o Choro Piloto, marcado para acontecer todos os sábados, das 16h às 23h, no Conic. Segundo ele, o projeto faz jus ao nome do lugar que estão ocupando: Setor de Diversões Sul. “O que fazemos com a música é permitir uma acessibilidade mais democrática ao centro da cidade. É uma experiência compartilhada de vivência do centro urbano”, completa. Esses músicos se juntam para se divertir e acabam divertindo quem está por ali.

Às segundas-feiras, é possível curtir o Samba de Marola, com sambistas vindos de Taguatinga e Ceilândia para esquentar os corredores e movimentar os becos antes conhecidos apenas como ponto de droga. O organizador do samba, Chico Teixeira, chama o local de “coração de Brasília” e garante que o movimento cultural “nasceu para ser democrático. Desde sempre é um samba do povo pro povo, de graça, no centro de Brasília. Muitas pessoas não frequentam e nem conhecem o centro da própria cidade. Em países da Europa isso acontece muito. Por que não fazer aqui também?”

O coletivo Forró do B toma conta da quarta-feira, quando as pessoas tiram seus sapatos e deslizam no galpão ao som de Gonzaguinha, Domingos de Moraes, Alceu Valença e outros artistas, interpretados por Gabriel Tomé (zabumba), Maísa Arantes (voz, pife e rabeca), Marcelo Neder (violão) e Natália Pires (voz e triângulo). Às sextas, é a vez da banda Chinelo de Couro, que também leva forró ao espaço, quinzenalmente. Natália Pires diz que a maior dificuldade é as pessoas entenderem que eles estão ali trabalhando. A cantora lamenta ter ficado um tempo longe do Conic, devido a outros compromissos: “a gente tem que arrumar o espaço, a gente arruma a luz, chega aqui mais cedo… Tiramos em torno de R$ 150 por semana. Paga a cervejinha, mas não paga nem a gasolina que a gente usa pra chegar aqui”. Mesmo assim, Natália completa: “É uma satisfação enorme ver o quanto esse evento cresceu. Me dá muito orgulho ver cada vez mais gente, de todos os lugares de Brasília, frequentando o lugar”.

Os músicos esperam do público uma contribuição, a fim de manter os eventos semanais

Os músicos esperam do público uma contribuição, a fim de manter os eventos semanais

Para o frequentador Pedro Ribeiro, é importante ter um espaço público em Brasília onde a música e a dança sejam os movimentos principais. “É massa fortalecer o movimento musical de Brasília e, de quebra, animar as pessoas, né? Nunca vi nada de ruim acontecendo por aqui… Tem uns doidões, a polícia aparece às vezes, mas nunca pegaram nada, pelo menos que eu tenha visto”.

Quando a atração é forró, dificilmente se vê alguém sentado
Quando a atração é forró, dificilmente se vê alguém sentado

“Wolwerine” vive na rua e diz que está em todos os eventos citados. “Sou o dono do Conic”, brinca. “Se aparecer algum doidão querendo encher o saco de alguém aqui, eu boto pra correr. Essa aqui é minha casa, minha família”, completa. 

O “salão” fica aberto, não há cobrança na entrada e a única exigência é se divertir. Mas há um pedido também: Os músicos estão ocupando um espaço e isso faz da ação um movimento não só artístico, mas político. E para continuar, é preciso colaborar com o chapéu. Portanto, pegue apenas o necessário e coloque no bolso, vista seu sapato mais confortável e é só chegar.

 

 

Serviço:

Conic – Setor de Diversões Sul, ao lado da rodoviária

O bar Thayná fica no centro dos prédios, na mesma entrada usada para entrar na Agência do Rádio, durante o dia


 

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