Economia

Novos caminhos para o idoso no mercado de trabalho

Vistos como pessoas obsoletas, o grupo de idade avançada busca se reestruturar financeiramente

A crise econômica que atinge o Brasil tem afetado não só a macroeconomia do país, mas também a vida privada de muitos brasileiros. Com isso, a turma da terceira idade volta ao mercado de trabalho, em busca de se reinventar, renovar e também quebrar barreiras.

Para esta fatia da população está cada vez mais difícil fazer compras, manter as despesas da casa, conseguir um descanso, pois a aposentadoria não é mais suficiente para cobrir esses gastos.

Em Brasília, no quarto trimestre de 2017, a capital chegou a 380.000 pessoas idosas. Destas, cerca de 89.000 estão ativas no mercado de trabalho, com mais de 60 anos. O empreendedorismo tem sido uma das alternativas buscadas pelo idoso para se reinventar no mercado de trabalho e abrir seu próprio negócio, mesmo depois da aposentadoria.

Com o propósito de gerar oportunidades para essas pessoas mais maduras poderem continuar trabalhando, Mórris Litvak fundou, em 2015, a plataforma digital Maturijobs. Trata-se de um negócio social para ajudar as pessoas mais maduras a terem a oportunidade de continuarem ativas, trabalhando, aprendendo, ensinando e compartilhando suas experiências pelo tempo que desejar.

A Maturijobs incentiva o diálogo intergeracional criando uma cultura que valoriza a sabedoria de quem já tem uma longa história de vida, o que é fundamental para quebrar o padrão existente.

De acordo com Mórris, o mercado de trabalho, atualmente, encara as pessoas mais velhas como ultrapassadas. “A cultura no Brasil é muito voltada para o jovem. Então os mais velhos, a partir dos 50 anos, sofrem muito com isso. E não é uma coisa que muda de um dia para o outro. Até porque muitas empresas ainda preferem os jovens”, contou Mórris.

Além do emprego, a Maturijobs também possibilita o empreendedorismo, oferece cursos de capacitação e tecnologias. “Possibilitamos negócios entre essas pessoas, com encontros de network, como se tornar um profissional autônomo, consultor e realizar trabalhos voluntários”, relatou o empresário.

Atualmente, a Maturijobs possui polo em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Ainda no primeiro semestre de 2018 a previsão é por em ação um polo em Brasília, para eventos, como encontros presenciais e oficinas.

Dicas do Sebrae para recomeçar

Segundo Christiane de Souza Gnone, do Sebrae, em Brasília e em várias outras regiões do Brasil, são oferecidas oficinas para empreender na terceira idade. “Oferecemos apoio em todas as etapas, como elaborar um plano de negócios, estudar o mercado e buscar capacitação”, falou Christiane.

O conhecimento e as competências adquiridas durante a vida profissional devem estar afiados. Isso deve ser valorizado, mas não pode dispensar mais conteúdo. Por isso, é importante fazer cursos na área de interesse do negócios, participar de seminários, feiras e exposições.

Buscar ajuda também é importante. “Experiência e aptidão são credenciais para abertura de um negócio, mas não bastam para determinar o sucesso de um empreendimento”, destaca Christiane. Consultar especialistas para conseguir ajuda no amadurecimento da ideia e de viabilidade, além de saber por onde deve começar é outra dica do Sebrae.

José Torres, de 61 anos, morador do Bairro Bela Vista, em São Sebastião, começou seu empreendimento há um ano, investindo todas as suas economias na compra de um terreno no Bairro Capão Cumprido, onde construiu uma loja de verduras.“Eu trabalhei muito pra conseguir construir minha lojinha, passei muito tempo estudando como iria fazer. Fazia muitos planos, porque era e é um recomeço. Tudo do zero, mas com meu esforço e minha luta consegui construir e estou realizando o que sempre gostei de fazer: vender”, falou.

O Sebrae também ajuda na criação de negócios por pessoas na terceira idade em duas situações: oportunidade e necessidade.

A oportunidade acontece no momento em que há mais tranquilidade, conhecimento e segurança para fazer o que se sabe ou o que se gosta. Muitas vezes, pela realização de um sonho. A necessidade acontece nas condições impostas pelo mercado de trabalho, com a priorização da juventude em detrimento da experiência dos mais velhos ou para completar a renda obtida com a aposentadoria.

É o caso do senhor Honório Gonçalves Pereira, 77 anos, morador do bairro Morro Azul, em São Sebastião, aposentado por idade e, atualmente, funcionário de uma padaria como garçom. Há um ano se encontrou numa situação financeira complicada. Com a crise econômica, precisou vender seu automóvel e voltar a se reinserir no mercado de trabalho. “Há um ano me encontrei numa situação em que precisei voltar a trabalhar para conseguir manter as despesas da casa e voltar para minha estabilidade financeira. Tive sorte de encontrar uma oportunidade nessa idade, porque não foi fácil e não é fácil. Mas pretendo continuar batalhando e terminar meus dias de vida assim, lutando como qualquer outra pessoa”, falou Honório.

Segundo a Secretaria da Previdência Social, o Brasil tem 19 milhões de aposentados pelo INSS- Instituto Nacional de Seguridade Social. Dentro desse número existem dois tipos de aposentadorias: por idade e por tempo de contribuição.

Por idade, como é o caso do senhor Honório, é um benefício devido ao trabalhador que comprovar o mínimo de 180 meses de trabalho, além da idade mínima de 65 anos, se homem, ou 60 anos, se mulher. Para o segurado especial (agricultor familiar, pescador artesanal, indígena), a idade mínima é reduzida em cinco anos. Nesta modalidade são pouco mais de 10 milhões de brasileiros que se aposentam nesta modalidade. Cerca de 70% da população idosa brasileira vive com um salário mínimo, equivalente a R$ 954.

Por tempo de contribuição, a aposentadoria é um benefício devido ao cidadão que comprovar o tempo total de 35 anos de contribuição, se homem, ou 30 anos de contribuição, se mulher. Atualmente, cerca de 5,7 milhões de pessoas fazem parte desse grupo, segundo a Previdência Social.

Diante de problemas de saúde com sua esposa Joaquim Alves Pereira, 60, também se viu numa situação financeira apertada. Mesmo trabalhando de porteiro, precisou recorrer a mais de um trabalho para aumentar a renda e conseguir comprar medicamentos, pagar exames e demais despesas. “O segundo emprego veio como uma necessidade mesmo de vida, de sobrevivência. Minha esposa sempre trabalhou e nunca tive necessidade de aumentar nossa renda até que ela descobriu um problema de saúde e não pode mais trabalhar. Então tive que me virar para manter nossa casa e manter o tratamento dela com remédios, medicamentos, exames, aluguel, água, luz, comida, roupa. Tudo que você imaginar eu tive que assumir do dia pra noite. Não estava preparado e também nunca passou pela minha cabeça que a vida ia exigir isso de mim”, contou Joaquim.

Joaquim Pereira "me vi forçado  assumir outra obrigação pra sobreviver"

Joaquim Pereira: “me vi forçado a assumir outra obrigação pra sobreviver”

Atualmente, trabalhando como porteiro à noite e marceneiro durante o dia, Joaquim possui uma carga horária de trabalho pesada aos 60 anos. Recorreu aos amigos em busca de uma nova oportunidade no mercado de trabalho e, além das dificuldades devido sua idade, teve que enfrentar o preconceito. “Eu entreguei meu currículo para um síndico, ele olhou e falou: ‘Tem problema de saúde, não? Com essa idade procurando serviço?’ Eu respondi para ele: ‘tenho, não, sou sadio graças a Deus e tenho muita vontade de trabalhar, estou precisando’, relatou o marceneiro.

O idoso no ensino superior

 O idoso do século 21 possui um novo perfil. Busca, por meio da educação, a possibilidade de ingressar em uma universidade, aumentando suas chances de participar ativamente do processo de novos conhecimentos e contribuir para a construção de uma nova cultura a partir da bagagem de experiências adquiridas nos anos vividos.

O Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) mostra que 75% dos estudantes idosos participantes concluem o curso superior e a região Sudeste tem o índice mais representativo de alunos desta faixa etária.

Estudante de jornalismo do 7° semestre, atualmente funcionário na TV Justiça, Guilherme Menezes, 60, frequenta a faculdade para se divertir um pouco, interagir e conviver com a turma. “Eu gosto de vir para aula, ver e ouvir as coisas. Tem bons professores, boas aulas, é legal. Estudar para mim não é uma obrigação”, conta o estudante.

A diferença de idade entre Guilherme e seus colegas de turma foi motivo para questionamentos, como: O que faz aqui? Estudar pra que?. “Eu não pertenço ao mesmo universo de quem tem 20, 30 anos. Eu convivo bem, mas não sou exatamente igual. Normalmente, pessoas mais velhas convivem com pessoas mais velhas, assim como os jovens convivem com os mais jovens. Tem algumas diferenças, mas sempre fui bem tratado nunca sofri nenhum tipo de discriminação”, finalizou Guilherme Menezes.

Guilherme Menezes "Claro que pessoas mais velhas convivem com pessoas mais velhas, assim como os jovens, mas convivo bem na faculdade"

Guilherme Menezes resolveu fazer um curso superior aos 60 anos e diz que convive bem com colegas mais jovens

Doenças mais comuns nos idosos

Segundo a geriatra Randara Simões, o idoso que possui uma jornada de trabalho pesada, com uma rotina dupla e horários opostos, depois dos 58 anos, deve se atentar para a saúde, dando atenção, principalmente, para as consultas. “Um acompanhamento de rotina é fundamental para uma prevenção e também como forma de avaliação de doenças crônicas e neoplasias”, ressaltou a geriatra.

Geriatra Randara "O Idoso que vai ao médico com frequência, não costuma ter alguma doença"

Para a geriatra Randara Simões, “o Idoso que vai ao médico com frequência não costuma ter doenças”

O paciente que possui uma jornada puxada, mas que costuma ir ao médico regularmente, tem menores possibilidades de desenvolver alguma doença. “O idoso pode deixar de ter um diagnóstico precoce de algumas comorbidades e que podem diminuir complicações”, finalizou Randara.

Idosos que possuem doenças crônicas e que já apresentaram um grau de fragilidade devem ir ao médico a cada 3-4 meses, sendo acompanhado regularmente para promover prevenções e reabilitações.

Doenças crônicas não transmissíveis , como diabetes mellitus, hipertensão arterial e suas consequências (Acidente Vascular Encefálico- AVC, Infarto/Angina) doenças neurodegenerativas, como demências, osteomusculares, artroses e osteoporose são as mais comuns entre idosos.

Preconceito contra idosos

O preconceito é o ato de criar uma ideia a respeito de algo ou alguém com base em informações pré-concebidas. No caso dos idosos, a discriminação aparece de várias formas, transparecendo os estereótipos formados pela sociedade em relação à terceira idade. No mercado de trabalho, o idoso também é discriminado, sendo visto como incapaz e ultrapassado, pouco adaptado às evoluções tecnológicas.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou sua preocupação com o preconceito contra idosos em um relatório divulgado em Genebra, em setembro de 2016. Segundo a entidade, 58% da população do mundo crê que os idosos não são honrados. O envelhecimento é agregado ao aumento de doenças graves, como cânceres e problemas cardíacos.

De acordo com o economista Leoncio de Carvalho, o termo desaposentação significa que uma pessoa aposentada, seja ela homem ou mulher, tem a possibilidade e oportunidade de voltar para o mercado de trabalho com chances de se aposentar novamente. O processo de se aposentar novamente depende do Supremo Tribunal Federal.

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