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Ser Brasília pelas águas do Lago Paranoá

Pesquisa discute o papel do Lago Paranoá na construção da identidade brasiliense

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#lagoParanoá #SerBrasiliense Brasília

Qual a interferência do clima, da culinária e do sotaque na construção identitária de um povo? O que é ser mineiro, baiano, paulista? E o que é ser brasiliense? O que compõe a identidade de uma cidade que é, por essência, uma grande colcha de retalhos das identidades do Brasil? Esses questionamentos serviram de inspiração para o estudo de mestrado do historiador Guilhermo Vilas Boas. Ele analisou as impressões dos brasilienses sobre o Lago Paranoá e como essas percepções ajudam a construir o sentimento de pertencimento e identidade daqueles que se sentem parte da capital.

Sandra caminha todo dia nas orlas do Lago Paranoá

Sandra caminha todo dia na orla do Lago Paranoá

Mas foi na diversidade que Guilhermo encontrou diferentes percepções do lago ao longo da história brasiliense. Nas entrevistas, conversou com moradores do Plano Piloto e de regiões mais distantes, como Taguatinga e Ceilândia. A ideia foi justamente conhecer as experiências de quem está próximo e mais longe do Lago.

E surgiram as mais variadas impressões do ambiente. A cada entrevista, o pesquisador compreendia a história da capital e a relação com o Lago Paranoá. Em sua maioria os moradores consideram o Lago um ambiente de relevância para Brasília. A beleza, o visual e a umidade são destaques na descrição do Lago Paranoá, entretanto a poluição e as margens fechadas ganharam referências negativas. Mas, ainda sim,  os depoimentos eram tomados de percepções positivas e orgulhosas.

E é este o sentimento que a aposentada Sandra Correia carrega. Ela mora no Lago Sul e diariamente caminha nas curvas do lago. Para ela, o local é essencial para capital, além de combater os momentos de seca da cidade o ambiente e um cartão postal que chama atenção pela beleza “É a frescura, o ventinho que bate. Você se sente bem com esse ar que vem da água e o barulho dela. É reconfortante isso aqui.”

Aldo Ferreira é outro apaixonada. Há 25 anos saiu do Rio de Janeiro para morar em Brasília. No Lago Paranoá,  pratica pesca esportiva, o lugar escolhido é a Praça dos Orixás. Morador de Águas Claras, o cabeleireiro vai frequentemente no local, considerado por ele o ponto mais tranquilo do lago. É lá que o carioca se reaproxima da cidade natal e dos encantos da capital do país.

A pesca esportiva é o que aproxima Aldo do Lago Paranoá

A pesca esportiva é o que aproxima Aldo do Lago Paranoá

“Descansar e relaxar. Isso aqui pra mim e uma higiene mental. O peixe é só um prêmio a mais. Eu gosto e sempre que posso trago pessoas para poder conhecer. Vale a pena”, conta Aldo.

Com os anos, as águas foram se tornando um elemento marcante para a cidade de Brasília. Para Guilhermo, o Lago representa um lado da história de Brasília ainda a ser trabalhado e internalizado nos círculos de conversas dos moradores, sejam eles do centro ou das áreas mais distantes. “O Lago Paranoá é Brasília, embora muitos ainda não percebem isso, ou percebem muito pouco.”

O surgimento das curvas

A idéia da criação do Lago Paranoá surgiu do botânico francês, Glaziou, que fez integrou a equipe que percorreu o planalto central no final do século XIX na Missão Cruls. A expedição fazia parte do dispositivo constitucional de 1891 que previa a transferência da capital para o interior do país, mas somente  68 anos depois que o plano foi colocado em prática. No governo JK foi determinado em edital público que projeto da capital contemplasse a construção de um lago artificial. Foi aí que todos os projetistas, inclusive Lúcio Costa, trabalharam em seus projetos com o espaço do lago.

“Assim, o que Lúcio Costa idealizou para o Lago foi uma área de atividades recreativas e de lazer e tranquilidade, com pouca densidade populacional em suas proximidades e com utilização dosada de suas margens. Ainda, seria importante que o Lago Paranoá estivesse sempre visível para a população, previsto para ser um dos elementos de composição paisagística mais marcantes na cidade” explica Guilhermo.

São 48 km de metros quadrados de espelho de água, 510 milhões de metros cúbicos de volume e profundidade aproximada de 40 metros. Estas são as medidas do Lago Paranoá que com suas curvas contornam a capital. O lago, que é artificial, foi criado a partir das águas represadas do Rio Paranoá  e por isso que recebeu o mesmo nome.

Nas duas primeiras décadas, as vivências eram restritas aos clubes náuticos e clubes recreativos de associação de servidores públicos. E a comunidade que ocupava os espaços  era, em sua maioria, de moradores das áreas centrais. Era comum também as visitas de excursões escolares e turísticas.

Mas com o passar do tempo, as rotinas em torno do lago foram mudando. Se antes, era um espaço de visitas esporádicas, nos últimos dois anos é perceptível uma ocupação maior por parte dos moradores de diferentes regiões de Brasília, o que representa para Guilhermo uma maior diálogo entre os integrantes de Brasília. “Não diria necessariamente que houve mudança na apropriação do espaço, mas novos espaços foram criados e novas rotinas e demandas surgiram em relação ao lago desde a inauguração da cidade”, explica o historiador.

 

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