Saúde

Vaginismo, a dor incompreendida das mulheres

Por conta de tabu e dificuldade de diagnóstico, mulheres sofrem por anos antes de descobrir que possuem o transtorno sexual

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O vaginismo é um transtorno sexual que causa contração involuntária dos músculos da vagina. A intensidade pode variar em cada caso — há mulheres que conseguem tolerar a penetração, porém com dor, ardência e desconforto, e casos mais graves, com obstrução total do canal vaginal, impedindo a penetração por completo.

De acordo com a psicoterapeuta especializada em sexualidade Elaine Barbosa o principal fator que motiva o transtorno é o medo. “Em cada pessoa esse medo vai ter um significado. E uma das formas como ela reage a isso é o vaginismo”, explica.

O vaginismo afeta mulheres de qualquer faixa etária e fase da vida. Algumas, apresentam dificuldade desde a primeira experiência sexual, o chamado vaginismo primário. Já o vaginismo secundário é desencadeado mesmo depois de anos de vida sexual normal.

Os principais fatores que motivam a disfunção sexual são:

  • Educação familiar muito rígida e punitiva
  • Abuso sexual
  • Falta de informação
  • Violência obstétrica
  • Baixa autoestima
  • Ansiedade
  • Primeira relação sexual desastrosa
  • Medo de engravidar
  • Crer que sexo é sujo

A psicoterapeuta esclarece que nem toda mulher que passou por um abuso ou por uma criação restritiva vai desenvolver o transtorno, mas que o vaginismo é uma das formas de reação do organismo. Entre as consequências estão a impossibilidade de realização de exames ginecológicos, o sofrimento físico (dor no local), o sofrimento emocional e reflexos negativos na relação da mulher com ela mesma e com o parceiro.

Amanda Lopes (nome fictício), 36 anos, teve dificuldades para transar desde a primeira relação, quando tinha 18. Conseguia ser penetrada, mas sempre com dor ou muito desconforto. Aos 21, ela começou a procurar tratamento, mas só recentemente teve alta. O motivo: a dificuldade de diagnóstico e a falta de informação sobre que médicos ou especialidades procurar para se tratar.

Apesar de ter uma chance de cura de praticamente 100%, a falta de educação sexual e o despreparo dos médicos que atendem mulheres vagínicas deixam o tratamento muito mais difícil. Amanda lembra que foi em cerca de 15 ginecologistas e ouvia que ela “tinha que relaxar”.

Pesquisando sozinha, descobriu o que tinha, mas não sabia como buscar tratamento. Chegou a ir para São Paulo, em uma médica que se dizia especialista em vaginismo que de nada adiantou. “É uma grande zona, ninguém sabe o que fazer”, constata Amanda.

De acordo com a fisioterapeuta Raquel Jácomo, especialista na área, essa dificuldade de diagnóstico é uma característica marcante nas pacientes. “Elas chegam meio revoltadas”, reconhece.

Tratamento conjunto

O vaginismo é um transtorno psicossomático — um problema de natureza psíquica que se expressa de maneira física, biológica. Ou seja, não adianta pedir que a mulher simplesmente relaxe ou tome um vinho para conseguir transar.

Uma mulher vagínica pode ficar excitada, lubrificada, ter tesão e querer muito transar com o parceiro, mas na hora que o vê nu ou vê o pênis na sua direção, ela trava.

A fisioterapeuta pélvica Raquel Jácomo simula no braço o uso do equipamento que que usa eletrodos de superfície para não fazer nada interno, os eletrodos são colocados na parte exterior da vagina para proporcionar um melhor controle da musculatura pélvica.  Ela pede para contrair e relaxar para identificar como está a musculatura da paciente. Na tela, por meio da contração e relaxamento da vagina a paciente tem que “percorrer uma espécie de caminho indicado. Ou por sonda interna.

A fisioterapeuta pélvica Raquel Jácomo simula no braço o uso do equipamento que por meio de eletrodos colocados no exterior da vagina monitora os exercícios de contração e relaxamento

Então, é preciso aliar três especialidades. O primeiro é o ginecologista para descartar anomalias, infecções ou problemas hormonais. A psicoterapeuta Elaine destaca aí a importância de ter paciência durante esse período em que o médico irá fazer uma série de exames e questionamentos. Confirmado o diagnóstico, é necessário tratar o psicológico e o físico.

Amanda, por exemplo, já fazia psicoterapia há mais de 12 anos e, anos mais tarde, achou no Google a fisioterapia pélvica. Após aliar os dois, conseguiu superar totalmente o transtorno. Para ela, é interessante porque havia momentos da fisioterapia em que sentia raiva de passar por aquilo, e era com a psicóloga que encontrava apoio. Além disso, sentimentos tratados ali, eram levados para a fisioterapeuta. “É uma coisa que eu lido há muito tempo. Então, acho que fazer um junto com o outro é imprescindível. A fisioterapia sozinha é arriscada”, aconselha.

Na fisioterapia pélvica, o profissional avalia o grau, qual o tamanho de dilatador vaginal usar, realiza exercícios em consultório e indica alguns para casa. O intuito é fortalecer a musculatura da parte inferior da pélvis e fazer com que a mulher os controle.

Já a psicologia faz um levantamento da história da mulher de forma geral e da vida sexual. “A história de vida dela vai dar um sentido para tudo que ela viveu”, comenta a psicoterapeuta.

Tabu sexual

Algumas publicações dizem que o vaginismo impede a relação sexual e essa é a primeira barreira a ser quebrada. Relação sexual é muito mais que penetração. A psicoterapeuta explica que para muitos homens sexo é um pênis penetrando uma vagina, mas esclarece que essa é uma visão restrita. “Falar sobre sexo em pleno século XXI ainda é um tabu, as pessoas sentem um desconforto muito grande, elas têm crenças errôneas em relação a essa questão”, comenta Elaine Barbosa.

A psicoterapeuta Elaine Barbosa reforça que educação sexual é necessária para quebra de tabus

A psicoterapeuta Elaine Barbosa reforça que educação sexual é necessária para quebra de tabus

Para Amanda, foi justamente o tabu o principal motivador para desenvolver o transtorno. Apesar de considerar os pais “tranquilos”, sexo não era um assunto tratado em casa. Ela lembra que ouvia somente coisas que as amigas diziam, e entre elas muitos relatos sobre dor na primeira relação. Somando a falta de informação com o medo, o resultado foi o vaginismo.

A psicoterapeuta Elaine Barbosa acrescenta que outro desafio para a mulher é a figura do parceiro. Quando falta compreensão, surgem ameaças de abandono ou até exigências de sexo anal. Por isso, é importante a mulher estar empoderada e informada para não aceitar esse tipo de relação.

Casada há 15 anos, Amanda conviveu durante todo esse tempo com o vaginismo e diz que, apesar de, sim, bagunçar o relacionamento, ela achou alguém que sempre a apoiou e entendeu. “Você sabe que está faltando alguma coisa e você não tem a menor ideia de como melhorar. É como se você fosse mulher, mas a sua função não existisse porque você não consegue transar, daí não consegue ter um relacionamento completo, mas eu tive sorte”, conclui.

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