Economia

Empreendedorismo independente move economia da periferia

Economia criativa é a grande aliada na construção de um novo mercado de trabalho para a população periférica

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O empreendedorismo independente tem se tornado cada vez mais comum na periferia. É também parte da economia criativa, onde a oportunidade de um trabalho independente é bem promissora. Para a empreendedora da marca RAIX, Wemmia Anita, de 29 anos, o desafio maior é fazer algo que não se é ensinado. “É desafiador, mas mais no sentido de superar dificuldades, pois devido à escassez de informação que temos na periferia desde a escola, não sinto que somos educados para nos tornarmos donos do próprio negócio”, diz.

O RAIX é um coletivo nascido na Ceilândia, com foco no empreendedorismo criativo e na cultura periférica, que funciona de forma colaborativa como um selo underground, produzindo e criando produtos de vestuário no segmento streetwear e oferecendo serviços de suporte e apoio ao artista local.

O intuito do Coletivo é dar visibilidade para seu lugar de origem, a periferia, onde a população não precise ir ao Centro consumir o que tem na própria quebrada. “RAIX surgiu no intuito de dar visibilidade para micro empreendedores formais e informais, a galera da culinária, do artesanato, da poesia, da arte, da música. Pretendemos dar suporte para essas áreas e outras até, ajudando a ter visibilidade, organizando espaços e eventos pra que a comunidade passe a ocupar seu habitat também”, afirma empreendedora.

Coletivo RAIX expondo suas peças no festival Elemento em Movimento na Ceilândia

Coletivo RAIX expondo suas peças no festival Elemento em Movimento, na Ceilândia

O empreendedorismo feito na favela pode ser considerado parte da economia criativa, que é a união de economia com criatividade. Serviços criativos, expressões culturais tradicionais, artes visuais, audiovisual e design são alguns setores das indústrias criativas. Tudo que envolve esses setores é considerado parte da economia criativa.

O número de pessoas com ocupações criativas no emprego formal e no emprego informal, tanto no Brasil como no mundo, vem crescendo. No Brasil, grande parte ainda se concentra em grandes centros urbanos, como é o caso de São Paulo e Rio de Janeiro, mas há um aumento na participação em cidades como Brasília, Belo Horizonte e Curitiba. Juntas essas cidades geraram riqueza de R$155,6 bilhões nesse segmento. Contudo, a participação da economia criativa no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil ainda é baixa (por volta de 2,5%), em comparação com países onde a economia criativa é expressiva.

Para a economista Maria Antônia Costa, de 35 anos, a economia criativa é a principal aliada dos moradores das periferias, por dois motivos: a pobreza e a insatisfação no mercado de trabalho. “As pessoas que moram na periferia são líderes em ter seu próprio negócio e serem mais realizadas profissionalmente”, diz a economista. “Serviço de manicure, cabelereiro, barbeiro, vendedor, tudo isso é empreendedorismo independente e move muito a economia da periferia”, completa.

As irmãs Quézia Costa e Queren Hapuque abriram um salão especializado em cabelos crespos e cacheados na Ceilândia, região administrativa do Distrito Federal, por conta da escassez de salões afros nas cidades do DF. Isso faz parte da economia criativa, um meio de garantir renda mensal da família, através de um serviço que a própria população da Ceilândia precisa. “Empreender com algo que precisamos e gostamos torna tudo mais agradável”, completa Quézia.

Quézia Costa executando aplique crochet em cliente

Quézia Costa executando aplique crochet em cliente

Para Wemmia, a tão famosa crise sempre existiu nos entornos da cidade, mas o restante da população não se dá conta disso. “Tem muito milionário sonegando imposto, aí agora querem colocar a mão no dinheiro que o dono da empresa dá ao trabalhador, mexendo com a aposentadoria do povo”, argumenta. “Ter um negócio independente é justamente não ser parte dessa crise, porque essa crise foi feita por quem depende do povo, os políticos. Ser independente é justamente não fazer parte dessa pirâmide”, completa Wemmia.

De acordo com os critérios da Fundação Getúlio Vargas, muitas famílias que antes tinham cerca de 3 mil reais como renda, se classificavam como classe C e, hoje, como essa renda passou a ser de 1 mil reais, se posiciona como classe E. Maria Antônia explica que mesmo essas famílias fazendo trabalhos autônomos, a renda é instável de um mês para o outro. “O serviço, hoje, pode chegar a 1 mil reais e o do mês que vem pode ser de 300 reais, ou seja, varia muito de mês para mês”, diz economista.

Segundo dados do Sebrae (2013), a maioria esmagadora dos negócios existentes no país é de micro ou pequeno porte. Do total existente de empresas formalizadas, 99% delas são MPEs – Micro e Pequenas Empresas, o que significa aproximadamente 9 milhões de empresas, responsáveis por 27% do PIB, e geradoras de 52% dos postos de trabalho do Brasil.

“Eu como membro do RAIX, costumo dizer que a ideia é girar uma moeda nossa. Essa grana que entra na nossa conta quando somos trabalhadores fichados não é nossa, é só uma manutenção do consumo dos maiores. O centro, pra nós, seria mais pra ocupação de todas as quebradas juntas para mostrar que estamos trabalhando”, finaliza. A empresária acredita que a economia na periferia é muito importante, principalmente para os jovens que estão começando agora no mercado de trabalho e tem nesse empreendedorismo a oportunidade de ter um trabalho próprio e se sentir realizado.

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