Entrevistas

Uma mensagem de esperança

A escritora, atriz e diretora de teatro, Cristiane Sobral, soma 5 obras literárias e é a primeira negra formada em artes cênicas pela Universidade de Brasília. Em 2018, comemora 20 anos de sucesso do monólogo “Uma boneca no lixo” com texto e interpretação de Cristiane Sobral e direção de Hugo Rodas

Cristiane Sobral é escritora, diretora de teatro e atriz. Nasceu no Rio de Janeiro e vive em Brasília. É mestre em teatro e ganhadora do Prêmio FAC 2017 Culturas Afro-Brasileiras. Dirige a companhia de teatro Arte Negra Cabeça Feita há 18 anos. Imortal cadeira 34 da Academia de Letras do Brasil, e diretora de literatura afro-brasileira no Sindicato dos Escritores é também professora coordenadora intermediária na Regional de Ensino do Núcleo Bandeirante – SEDF.

Iniciou sua carreira como escritora em 2000 na antologia Cadernos Negros (SP). Publicou cinco obras com maior destaque para “Não vou mais lavar os pratos”. A poética de Cristiane Sobral busca, nitidamente, inspirar as mulheres leitoras a se conhecerem (ou se reconhecerem), se aceitarem e se posicionarem diante do preconceito e do racismo.  Seus textos mesclam crítica e suavidade com uma linguagem atual, ousada e motivadora, transgredindo as representações estereotipadas, privilegiando os afetos, a subjetividade, a cultura e a intelectualidade das mulheres negras.

Atualmente, está trabalhando na produção do espetáculo “Uma boneca no lixo”. O monólogo, com texto e interpretação dela e direção de Hugo Rodas, estará em cartaz em outubro de 2018 para comemorar as duas décadas de existência com sucesso. Em julho participará da Feira do Livro de Brasília e da Flip – Feira do Livro de Paraty (Rio de Janeiro), do Festival de Teatro de Cavalcante Goiás, e da Oficina de Escrita Criativa, em Salvador.

Portal de Jornalismo: Como foi a infância da Cristiane Sobral?

Cristiane Sobral: Sou a caçula de uma família com 5 filhos, três meninos e duas meninas. Uma infância feliz em um bairro onde a comunidade se integrava bastante. Meu pai era ávido leitor e minha mãe, líder comunitária, mulher de personalidade muito forte, professora que optou por estar em casa, alfabetizando os filhos. Passou a ser uma infância triste depois do súbito falecimento de mamãe, quando eu tinha 7 anos.

Quando surgiu seu interesse por ser escritora?

Eu sempre fui uma menina muito ligada no universo das letras. Ainda na infância, eu comecei a pensar em trabalhar como escritora, como atriz e como professora, atividades que exerço até os dias de hoje. Surgiu com o intuito de colocar meu ponto de vista, tanto na literatura quanto no teatro, em função do desejo de escrever histórias que representassem o povo negro, o universo feminino e que fossem contadas a partir do nosso ponto de vista, do meu ponto de vista enquanto mulher negra, mulher brasileira e isso me estimulou ao longo desses anos.

Quais os principais obstáculos vividos na adolescência?

Mobilidade urbana, falta de acesso aos bens culturais, isolamento geográfico, racismo, exclusão social.

Quais são os maiores desafios de um escritor (a)?

Os obstáculos estão na profissionalização. Majoritariamente, quem mais escreve e publica no Brasil são os homens brancos e de elite, então é um grande desafio ser uma mulher e negra no meio. É um desafio também escrever bem, com qualidade, ter criatividade, pesquisar sensivelmente conteúdos, histórias que possam afetar o leitor, que possam mudar o estado das coisas. Acredito na arte e na literatura como ofertas sensíveis, como experiências que a gente pode oferecer para a população que passa por momentos tão difíceis, proporcionar encontros reais, encontros verdadeiros. Passa a ser bem desafiante manter a pureza do coração, a novidade no olhar, alegria e a sensibilidade para captar temas que possam ser impactantes.

Quais são os livros publicados?

Prosa e poesia, desde 2000 na antologia “Cadernos Negros” (Ed. Quilombhoje (SP), nos volumes 23-25, 29, 30, 32-38 e 40); “Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção”, contos (Ed. Dulcina, 1ª Ed , DF, 2011); “Só por hoje vou deixar meu cabelo em paz”, poesia (1ª Ed, ed. Teixeira, DF, 2014); “Não vou mais lavar os pratos”, poesia (3ª ed. revisada e ampliada, ed. Garcia, SP, 2016); “O tapete voador”, contos (ed. Malê, 2ª Ed, RJ, 2017) e “Terra Negra”, poesia (Ed. Malê, RJ, 2017).

De onde vem a inspiração para suas obras?  Você se tornou, ao longo de sua vida, uma defensora dos direitos da mulher, em especial as negras. Como define isso?

Os temas dos meus livros refletem o meu olhar diante da vida, da realidade, da sociedade, então são parte de mim. Claro que a desigualdade de gênero e a desigualdade racial estão presentes. Pesquisas comprovam que mais de 70% dos autores que estão publicando no Brasil, hoje, são brancos, homens e de elite. Nós sabemos que essa desigualdade de gênero está presente em todos os campos da sociedade brasileira. Tem avançado, mas temos ainda muito a conquistar e referências positivas são importantes para garantir que outras pessoas também se lancem. Porém as dificuldades existem, não me assustam, mas me mostram que é necessário ter estratégias importantes para conseguir sobreviver e driblar esse espaço de interdição.

Recentemente, foi noticiado nos jornais que você passou por um assédio dentro de um transporte coletivo em Brasília. Em sua opinião, quais as medidas capazes de minimizar tais dificuldades que tantas mulheres passam?

Não quero mais falar sobre isso. São medidas o cumprimento das leis e fortalecimento da auto-estima das mulheres, ações em rede no campo social que possam encorajar denúncias, proteção para as vítimas e tratamento psicológico.

Você foi a primeira atriz negra a se formar em artes cênicas na Unb. O que representou essa conquista pra você?

Um marco, uma denúncia da ínfima participação da população preta e parda no espaço acadêmico. Eu fui a primeira, não digo isso com orgulho. Isso aponta para uma Universidade com 99% de não negros no final dos anos noventa. Isso é expressivo, revela o racismo, tema ainda não controverso em nosso país. Na ocasião, textos teatrais de autores negros não costumavam ser estudados nas disciplinas. O foco estava em dramaturgias eurocêntricas, isso é muito grave considerando a identidade nacional.

Sendo professora da Secretaria de Educação do Distrito Federal, sua profissão de escritora, diretora de artes e atriz colabora de que forma na formação de seus alunos?

Acredito na arte como uma representação estética da experiência humana, como um contributo fundamental para a formação ética e cidadã. O teatro e a literatura são, essencialmente, portais de transformação de realidades e autoconhecimento. Isso é essencial aos nossos alunos para que possam aprender a ser e a conviver diante da diversidade no espaço escolar e comunitário. Quem aprende a ler, aprende a refletir sobre a própria realidade. Quem faz teatro começa a perceber melhor as suas contradições, educa a sua sensibilidade para conviver em uma sociedade tão desafiante como a nossa.

Recentemente, você esteve na Guiné Bissau, poderia nos relatar essa experiência?

Foi minha terceira experiência em um país africano, enriquecedora e proveitosa. Os guineenses são encantadores, acolhem o brasileiro com muita gentileza e admiração. Precisamos fortalecer mais os laços que nos unem ao continente africano, sair do senso comum. Estive no país para ministrar um curso de escrita criativa a convite do Centro Cultural Brasileiro. A turma superou as expectativas das 15 vagas inicialmente programadas. 59 alunos estiveram presentes, a produção foi enorme, em quantidade e qualidade, mostrando a potência da literatura do país e o enorme desejo dos alunos na contação das histórias nacionais a partir do seu ponto de vista.

"Quem aprende a ler, aprende a refletir sobre a própria realidade. Quem faz teatro começa a perceber melhor as suas contradições, educa a sua sensibilidade para conviver em uma sociedade tão desafiante como a nossa"

“Quem aprende a ler, aprende a refletir sobre a própria realidade. Quem faz teatro começa a perceber melhor as suas contradições”

Existe algum fato que te marcou, no que se refere ao alcance de sua escrita?

Um episódio interessante se refere ao livro “Não vou mais lavar os pratos”. Em uma sessão de autógrafos em São Paulo uma moça me procurou, me pediu um autógrafo. Eu atendi, começamos a conversar e ela me relatou que quando leu a minha obra ela trabalhava como empregada doméstica e que foi muito impactante. Ela passou a olhar para a forma como vivia, era uma mãe solteira com quatro filhos, trabalhando em uma residência de luxo, os patrões não permitiam que ela estudasse, ela dormia no serviço, deixando seus filhos sozinhos em casa para trabalhar.

No momento que ela leu a obra, chorou muito, decidiu mudar de vida, decidiu abandonar aquele emprego, voltar a estudar, deixar de fazer o que ela estava fazendo, que não geraria avanço algum em sua trajetória. Esperou o patrão chegar, agradeceu por tudo que havia recebido daquela família, pedindo a demissão. O patrão foi terrível. Ele a humilhou, dizendo que ela tinha os manuais dos eletrodomésticos para estudar, disse também que ela era muito querida, como um animal de estimação da família, que ficava muito triste em perdê-la.

Ela se viu andando pelas ruas de São Paulo, chorando e pensando: ‘Sou uma mulher negra, com quatro filhos para criar e um livro debaixo do braço’. Entrou em uma igreja, contou sua história ao padre que a garantiu uma cesta básica todo mês e a indicou a um cursinho pré-vestibular para pessoas negras e pobres. Nesse momento de nossa conversa ela abriu a bolsa, tirou o cartão de visitas onde estava escrito o nome completo, advogada e o número da Ordem dos Advogados do Brasil.

Um momento que não esqueço; perceber a importância dessa literatura, dessa representatividade, desse outro olhar, para a contação da nossa história negra e periférica de uma outra maneira, outro lugar de fala. Deixo aqui como uma mensagem de esperança.

Para saber mais:

Escreve no blog: www.cristianesobral.blogspot.com.br

Facebook: @CristianeSobralArtista

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