Economia

Saúde na mesa não precisa ser para poucos

Consumo de produtos orgânicos no DF se torna cada vez mais popular e consumidores buscam alternativas para fugir dos valores elevados dos produtos. Mas é preciso atenção para não ser enganado

Há algumas décadas, havia certa resistência do consumidor comum a respeito das vantagens dos produtos orgânicos. O alto custo e a dificuldade de acesso aos produtos eram fatores que desestimulavam a busca por alimentos mais saudáveis, ao mesmo tempo em que os produtores tinham dificuldades de adquirir insumos e sofriam com a falta de credibilidade nos processos de produção.

O fluxo de informações aumentou e as pessoas começaram a se conscientizar de que a beleza de frutas e hortaliças poderia esconder um ciclo pernicioso de produção, que termina no consumo perigoso de aditivos químicos. Mas como aderir aos alimentos orgânicos? Para muitos, parecem ser produzidos para uma elite que pode pagar o dobro (ou mais) em cultivos mais seguros para a saúde. O desconhecimento sobre as certificações também gera confusão na escolha dos produtos e pontos de venda.

Potencial de crescimento esbarra em desinformação

A primeira pesquisa nacional sobre o consumo de orgânicos, promovida em 2017 pelo Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (Organis) e o instituto de pesquisa e opinião pública Market Analysis, confirma dados identificados no dia-a-dia de consumidores e produtores de orgânicos.

Realizada em nove cidades de quatro regiões, os dados levantados indicam que a busca pela saúde é o principal motivador da escolha de orgânicos em todas as regiões. No Centro-Oeste, as informações divulgadas na mídia e a questão ambiental se destacam nesse quesito e a região também aparece como a mais receptiva ao aumento do consumo de orgânicos (92%). Já os benefícios para a saúde são a principal motivação para o consumo de produtos sem agrotóxicos. Outras vantagens reconhecidas pelos consumidores são a contribuição ao meio ambiente e as melhores características dos produtos se comparados aos convencionais.

A pesquisa concluiu que a maior barreira percebida é o valor elevado dos produtos, já que a maior parte dos consumidores entende o varejo convencional como o principal canal de venda – justamente onde o custo dos orgânicos é mais inflacionado. Além disso, existe uma demanda latente por maior clareza e informação, como dificuldade de identificar se um produto é ou não orgânico, e dúvidas sobre o que o selo de certificação garante sobre os produtos.

Saber onde comprar faz a diferença no bolso e na saúde

Priorizar a compra em feiras de produtores é a saída, já que os grandes mercados e hortifrútis chegam a lucrar 100% na venda de orgânicos. O produtor agroecológico Valdir Manuel de Oliveira aderiu aos orgânicos há cerca de dez anos e realiza vendas na cooperativa orgânica das Centrais de Abastecimento do Distrito Federal (Ceasa-DF), além de ter um ponto venda na Feira Orgânica Agroecológica da Ceilândia (Foac).

Valdir, como é conhecido, explica que o alto custo cobrado nas grandes redes de mercados só se justifica pela praticidade, mas esses lugares reforçam o mito de que orgânicos são para poucos. Ele diz que a política de negociação desses comércios é rígida, exigindo oferta de produtos de maneira regular, sendo que um dos diferenciais dos orgânicos é respeitar a sazonalidade dos cultivos.

Valdir Oliveira: preço dos orgânicos em feiras de produtores derruba o mito do alto custo

Valdir Oliveira: preço dos orgânicos em feiras de produtores derruba o mito do alto custo

O engenheiro agrônomo e produtor Luiz Carlos Pinagé concorda com Valdir. Ele explica que o mercado não abre mão sequer da margem de prejuízo sob eventuais perdas: os produtores têm que assumir o prejuízo da não venda, o que encarece ainda mais os produtos vendidos em comércios tradicionais. Ele é sócio fundador da Associação de Agricultura Ecológica (AGE), a segunda mais antiga do Brasil, inaugurada em 1988. Desde então, uma feira de orgânicos da Associação é montada ao lado da Igreja Messiânica, na quadra 314/315 da Asa Norte, além de outros locais (veja no final da matéria).

Pinagé confirma que a procura aumentou muito nos últimos anos e os produtores estão se organizando para atender à demanda. Ele explica que ao longo de três décadas a produção da associação se igualou aos cultivos convencionais, pois o tempo favoreceu o controle de pragas e o equilíbrio dos cultivos, o que possibilita vender a preços iguais ou até mesmo inferiores aos produtos com agrotóxicos. “Com o tempo a cadeia foi se estruturando. Antes tínhamos que trazer de outros estados os insumos orgânicos (fosfato de rocha, calcário, sementes). Hoje a Emater [Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal] dá assistência, outras associações e cooperativas surgiram. É inevitável que os preços caiam porque se cria mais escala de produção”, explica.

O produtor Pinagé, da AGE: cadeia de orgânicos estruturada aumentou escala de produção

O produtor Pinagé, da AGE: cadeia de orgânicos estruturada aumentou escala de produção

No entanto, ele alerta para feiras que estão surgindo em vários locais, provenientes de agricultura familiar, porém baseadas no método convencional. Ele explica que é preciso confirmar a certificação dos produtores antes de comprar. Hoje a associação está em processo de transição da certificação OCS para Opac, o que permitirá adquirir um selo que autoriza a venda a terceiros (Veja a diferença das três certificações de orgânicos ao final da matéria).

Descanso da terra significa alimento saudável

A produtora Maria Abadia Chaves Barberato e seu marido, Marcelino Barberato, compraram o Sítio Geranium em 1986 para distanciar-se de uma tragédia familiar – o filho de 1 ano não resistiu ao contato com veneno para dedetização no prédio onde moravam, na Octogonal. A ideia de sair da cidade para retomar o chão perdido se revelou uma missão de vida ao terem contato pela primeira vez com a agricultura orgânica.

No contrato de arrendamento do sítio, os antigos donos estipularam a obrigatoriedade de atividade agrícola no local. Em 1987, o casal –  ela, cirugiã-dentista e ele, engenheiro civil – participou do primeiro evento de agricultura alternativa na cidade, promovido pela Universidade de Brasília, e decidiram se reunir com outros interessados para fundar a AGE. “Iniciamos com uma primeira feira de orgânicos na Asa Sul e realmente foi uma luta para acontecer, porque ninguém acreditava que era possível produzir orgânicos. Oitenta anos atrás só existiam orgânicos, mas de lá pra cá essa tecnologia foi sepultada e teve que renascer das cinzas”, explica.

 

A cirurgião dentista Abadia viu sua vida se transformar com os orgânicos: missão de vida

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Com o tempo o sítio, situado no Núcleo Rural de Taguatinga, se especializou na produção sem agrotóxicos e organização de eventos, e conta com uma feira há 12 anos no local. Abadia diz que a procura não para de crescer: “Quando a pessoa toma consciência que paga um pouquinho mais barato no convencional, mas que vai pagar com remédio, ela não quer mais, porque vai se intoxicando gradativamente”, diz.

Sobre a questão do custo maior dos orgânicos, a produtora justifica alguma diferença no valor com um exemplo: ao utilizar pesticidas e adubo químico em cultivos convencionais, é possível colher alface em dois meses. Já na produção orgânica, a mesma hortaliça demanda três meses e meio a quatro para se desenvolver. “É preciso respeitar o tempo de descanso do solo e de absorção de nutrientes da planta. Perdemos em hectares cultivados também, porque a plantação é permeada de agrofloresta, é preciso biodiversidade para as plantas terem saúde”, diz. Mesmo assim, Abadia confirma que hoje o preço é competitivo nas feiras dos produtores.

 

Heleno Farias e as amigas Patrícia e Andreia: a distância compensa pelo menor preço

Heleno Farias e as amigas Patrícia e Andreia: a distância compensa pelo menor preço

A dona de casa Patrícia de Almeida foi pela primeira vez na feira do sítio Geranium com sua amiga, a empresária Andreia Vieira, que frequenta o sítio há três anos. “O preço me impressionou, alguns são mais baratos do que no mercado, que são cheios de agrotóxicos”, afirma Patrícia. Heleno de Farias, servidor público, também conheceu a feira por intermédio de Andreia, e nunca mais deixou de frequentar as feiras de orgânicos. Ele explica que, apesar de morar em Águas Claras, o gasto de 10% a mais de combustível no mês é compensado em cerca de 40% de economia na feira. Heleno confirma que a procura aumenta a cada ano: “Antigamente eu chegava aqui às 10 horas, mas vou passar a vir às 7h30 porque está acabando cada vez mais rápido”.

Entenda como identificar os orgânicos

Uma dúvida recorrente do consumidor é quanto à garantia de não comprar cultivos convencionais disfarçados de orgânicos. Há três modalidades de autorização, com características distintas:

Cadastramento de produtores orgânicos por Organização de Controle Social (OCS): é feito diretamente via cadastramento no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O ministério avalia e acompanha os processos, verificando a conformidade orgânica, e se os produtos têm rastreabilidade e qualidade compatível com a legislação de produção orgânica. No DF existem seis OCS, em diversas regiões.

A vantagem para o produtor é o custo menor dentre as autorizações – trata-se de uma forma de simplificar o processo para inserir mais agricultores familiares na cadeia produtiva de orgânicos. No entanto, há a desvantagem de não existir um selo de certificação que permita a venda para terceiros. A feira de orgânicos que vende produtos nessa modalidade precisa expor a declaração de cadastro em lugar visível (veja na foto da galeria de imagens). É preciso que o consumidor cobre essa comprovação para não correr o risco de ser enganado e compre produtos de cultivo convencional.

Certificação pelo Sistema Participativo / Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade Orgânica (Opac): os próprios agricultores se organizam e efetivam o processo baseado na legislação vigente, sob avaliação constante do Mapa. Em Brasília, existe a Opac Cerrado. A vantagem dessa modalidade para o produtor é o menor custo e a permissão de venda a terceiros. O que pode ser considerado desvantagem é a corresponsabilidade entre os grupos, ou seja, há a necessidade de fiscalização regular entre os pares, de forma a garantir a qualidade e certificação de todos. Para o consumidor, essa comprovação é mais simples, pois os produtos possuem selo no próprio rótulo da embalagem.

Certificação por auditoria: uma instituição particular faz a checagem de métodos e processos e compara com a legislação federal. Para o produtor, a vantagem dessa certificação é a rapidez do processo e a autorização para vendas a terceiros, além de atrair aqueles não têm “espírito associativo” – nas Opac, por exemplo, há a necessidade de visitas trimestrais nas produções dos pares. A desvantagem é o custo elevado, que torna pouco viável essa modalidade de autorização para pequenos produtores. Para o consumidor, essa certificação assemelha-se à Opac, pois permite um selo na rotulagem dos produtos, o que facilita a verificação de procedência e manejo.

 

 Dicas de feiras orgânicas no DF

 

AGE (Associação de Agricultura Ecológica)

  • Quarta e Sábado (manhã)

315 norte (ao lado da Igreja Messiânica), Asa Norte.

909/709 sul (no Sindicato Rural do DF), Asa Sul.

112 sul (ao lado da escola Ursinho Feliz), Asa Sul.

316 sul (próximo à banca de revista), Asa Sul.

  •  Sábado (manhã)

Sudoeste EQSW 303/304 (em frente à escola Candanguinho), Sudoeste.

303 norte (ao lado da Igreja Santo Expedito), Asa Norte.

Empório rural Brazlândia. Margem da DF 240 – Incra 6 – ARCAG, Brazlândia.

  • Domingo (manhã)

Empório rural Brazlândia. Margem da DF 240 – Incra 6 – ARCAG, Brazlândia.

 

Espaço Natural      

  • Terça, Quinta e Sábado (manhã)

315/316 norte (em frente à Igreja Messiânica), Asa Norte.

 

TAO Orgânica        

  • Sábado

108/109 norte (próximo à escola Pedacinho do Céu), Asa Norte.

 

Mercado Orgânico

  • Quinta e Sábado (manhã)

Mercado Orgânico/CEASA, Cruzeiro.

  • Sábado (manhã)

315/316 Sul (no espaço do templo Budista), Asa Sul.

Condomínio Império dos Nobres, Sobradinho.

 

MOA Internacional

  • Segunda a Sexta e Sábado (manhã)

Centro de Agricultura de Produção Natural, DF 180 – KM 19, Brazlândia.

 

Grupo de Orgânicos de São Sebastião

  • Sábado (manhã)

Banca Orgânicos da Feira do Jardim Botânico em frente à ESAF, Jardim Botânico.

  • Quarta e Sábado (manhã)

308 sul, Asa Sul.

 

Grupo de Orgânicos de São Sebastião II

  • Sábado (manhã)

Varejão da CEASA – Próximo à Loja Sol Embalagens – Cruzeiro.

  • Quarta e Sábado (manhã)

Atrás do restaurante Girassol – SCLS 409, Bl. B – lj. 15/16 – Asa Sul.

 

Grupo Vida e Preservação (GVP) – Assentamento Colônia I

  • Terça (manhã)

505 norte – Anexo do MMA – Asa Norte.

UnB – Minhocão, Ala norte – Asa Norte.

  • Quinta (tarde)

Ministério Meio Ambiente, Esplanada dos Ministérios.

INCRA – Palácio do Desenvolvimento – SBN, Asa Norte.

UnB – Minhocão, Ala norte – Asa Norte.

 

Grupo Agrofloresta

  • Quinta e Sábado (Manhã)

Parque Estação Biológica, em frente a Emater-DF – Asa Norte.

 

Grupo de orgânicos de Planaltina e Sobradinho

  • Sábado (manhã)

Ao lado da Adm. Regional – Planaltina.

  • Domingo (manhã)

Banca Orgânica na Feira do Padre – Sobradinho.

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