Educação

Consequências de um tabu

Além da falta de diálogo sobre planejamento familiar, jovens se submetem com mais frequência aos riscos de contrair doenças ou infecções sexualmente transmissíveis

Apesar de o índice de gravidez na adolescência ter caído em 17% no Brasil, segundo pesquisa divulgada pelo Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos, em 2017, a nação ainda é o sétimo país da América do Sul com o maior número de adolescentes grávidas. De acordo com a ONU – Organização das Nações Unidas, um em cada cinco bebês que nascem no Brasil é filho de mãe adolescente. Entre estas, de cada cinco, três não trabalham nem estudam; sete em cada dez são afrodescendentes e, aproximadamente, a metade mora na região Nordeste. Os números indicam que fatores como baixa renda e escolaridade influenciam, diretamente, no acesso ao conhecimento e a meios de prevenção.

A cultura sexual representa o tipo de comportamento que um grupo de pessoas tende a ter, seja este grupo separado por região, gênero ou idade, por exemplo. As pesquisas apontam que cada característica do meio pode influir, o que torna a sexualidade ainda mais complexa. Mas será que mesmo em uma sociedade com tanta informação as pessoas desconhecem as formas de prevenção às doenças e infecções sexualmente transmissíveis? E por que tantas mulheres ainda se tornam mães mais cedo do que gostariam?

Para os especialistas em educação e saúde sexual, os casos de gravidez na adolescência não são, exatamente, resultado da falta de acesso à informação, nem aos meios de prevenção, como os preservativos, mas da falta estratégias adequadas e programas contínuos de educação sexual que sejam, de fato, eficientes para dialogar com o público jovem de forma que o conscientize.

“Ter muita informação disponível não garante educação. São coisas diferentes. Orientação sexual deve estar presente na escola, sim, mas não no mesmo formato que as demais disciplinas, porque assim não funciona. É preciso usar outros métodos, outra linguagem”, diz o gerente da Secretaria de Saúde, Sérgio D´Ávila.

D’Ávila defende, ainda, que as campanhas de prevenção e conscientização sobre as DST (Doenças Sexualmente Transmissíveis) ou IST (Infecções Sexualmente Transmissíveis) devem ser direcionadas. “Penso que funcionaria melhor um investimento em campanhas específicas para cada público. Nós temos algumas campanhas que incentivam o uso de preservativo e a visita aos postos de saúde para exames, mas que talvez estejam falhando por tentar atingir as pessoas de forma generalizada”, afirma.

“Eu vejo como uma boa alternativa envolver pessoas que têm características em comum nessa conversa. Por exemplo, falar com pessoas da mesma faixa etária, com um grupo LGBT, um de cada vez. Tudo que puder deixar as pessoas mais à vontade vai favorecer para que a conversa seja realmente um serviço de saúde pública, que não comprometa as individualidades das pessoas nem cause constrangimentos. O tabu vem pelo constrangimento”, diz Sérgio D’Ávila.

A sexualidade deveria ser debatida como os demais assuntos: naturalmente. Mas talvez a sociedade ainda não esteja culturalmente aberta para isso. Em várias famílias, os filhos nunca conversaram com os pais sobre o assunto, seja por falta de oportunidade ou de abertura. Geralmente, os adolescentes se sentem intimidados ao tratar disso com os pais e só descobrem na prática, ao acaso.

Gravidez na adolescência ainda é comum no Brasil, principalmente entre famílias de baixa renda.

Gravidez na adolescência ainda é comum no Brasil, principalmente, entre famílias de baixa renda

Aos 14 anos, Karolayne Oliveira teve a primeira relação sexual, na qual engravidou. Segundo ela, ter vivido essa maternidade sem planejamento foi consequência da falta de orientação. “Em casa, ninguém nunca falava sobre sexo. Eu, simplesmente, não tinha noção dos riscos aos quais estava me expondo, podendo contrair uma doença. Também não passava pela minha cabeça que iria ficar grávida. Eu, realmente, não sabia o que estava fazendo”, conta.

À época, o parceiro de Karolayne, pai do seu primeiro filho, tinha 20 anos de idade. Ela diz que em momento algum ele se preocupou em usar preservativo durante a relação que os dois tiveram, a única. O rapaz sequer sugeriu que a moça tomasse pílula. Quando a adolescente comunicou a gravidez ao pai da criança, ele se negou a prestar apoio.

Muitos lares ainda não dialogam sobre sexualidade. O assunto ainda é mantido como tabu e vem à tona, às vezes, somente quando os adolescentes vão ser pais ou contraem alguma doença através do sexo e a família precisa intervir. Aí, é comum que os pais do jovem reajam com surpresa e reprovação.

Na família de Karollayne o tema, simplesmente, era evitado. Até que a jovem engravidou. Hoje, com 20 anos e 2 filhos, ela sabe como se cuidar, mas se queixa de que os conselhos vieram tarde. “Antes de eu ser mãe ninguém conversava sobre isso lá em casa. Depois que eu engravidei que a minha mãe veio falar ‘filha, tem que usar camisinha porque a camisinha evita tudo’, mas antes, não mesmo”, diz.

Segundo a ginecologista Karine Frausino, que passou boa parte da carreira exercendo a profissão em postos de regiões onde se concentram pessoas de baixa renda, como Sol Nascente, o maior problema está na falta de seriedade das pessoas em relação ao sexo.

“Eu organizava palestras para ministrar nos postos de saúde, avisava o dia e horário e convidava as pessoas. Quando apareciam, eram, no máximo, umas cinco. Com os adolescentes eu também cheguei a fazer, nas escolas. A reação deles é rir enquanto falamos. Não têm interesse em ter conhecimento acerca do sexo. O que eu observo é que, na nossa cultura, o sexo é levado na brincadeira. Não se dialoga sobre isso da mesma forma que se fala sobre outros temas”, diz a médica.

A família em que cresceu Karollayne ilustra muito bem o comportamento da maioria das famílias brasileiras, ainda hoje. A base do problema consiste na comunicação. Conversar sobre sexo ainda soa como algo ruim.

Por outro lado, ela diz que pretende fazer diferente com os filhos. “Acho que a melhor saída não é deixar de falar sobre sexo, porque de uma forma ou de outra, a gente vai conhecer. Eu vou aconselhar, sim. Do mesmo jeito que eu alerto para outros perigos, eu vou alertá-los para os riscos do sexo desprotegido. Creio que a partir dos 12 já comece esse diálogo com eles. É a idade que acho adequada”, conta.

A rede pública de saúde disponibiliza apenas algumas opções de anticoncepcionais.

A rede pública de saúde disponibiliza apenas algumas opções de anticoncepcionais

Meios contraceptivos

Não falta camisinha! É o que sugere a ginecologista Karine Frausino: “Preservativo tem demais. Em qualquer posto de saúde você encontra. Concordo que a rede pública de saúde tem muitos problemas, mas a disponibilidade de meios para se prevenir existe”, avalia.

São repassados aos postos de saúde da rede pública, mensalmente, cerca de 8.000 preservativos masculinos e 500 femininos, de acordo com dados da farmácia do posto da 612 Sul, em Brasília.

Segundo a Diretoria de Assistência Farmacêutica do Ministério da Saúde, os postos de saúde recebem, também para distribuição gratuita, os contraceptivos Levonorgestrel (pílula de emergência);  Noretisterona (mini-pílula); Etinilestradiol + Levonorgestrel (pílula combinada); Enantato de Noretisterona + Valerato de Estradiol (injetável mensal); Acetato de Medroxiprogesterona (injetável trimestral); Diafragma e Dispositivo Intra-Uterino (DIU) de cobre.

Doenças Sexualmente Transmissíveis

De 2017 para cá, a sífilis se tornou uma epidemia. “A gente percebe que o crescimento das infecções por falta de prevenção sexual é constante e não tem recuado. Isso indica que as pessoas não têm se prevenido, não fazem testes para saber se está com alguma DST e têm usado menos preservativo”, diz a ginecologista Karine Frausino.

Dado dos Estudos de Comportamento Sexual mostra que, de 2005 para cá, o índice das pessoas que usam camisinha caiu de 98% para 95%.

Quanto ao HIV, a especialista diz que “a população parece estar menos preocupada. É como se não vissem mais o vírus da AIDS como ameaça de morte. Desde que o Sistema Único de Saúde passou a fornecer o tratamento e as medicações do coquetel, a gente sente que houve um relaxamento por parte das pessoas. Isso pode ter mudado o olhar delas sobre a importância que tem o uso do preservativo”.

O gerente da Secretaria de Saúde, Sérgio D’Ávila, alerta para a elaboração de campanhas direcionadas, como forma de incentivar a prevenção e o diagnóstico. “É importante a gente olhar para as pesquisas e reconhecer que a população homossexual é a que mais porta o vírus da AIDS. Então, é uma questão de saúde pública a gente se organizar e trabalhar em uma forma de alcançar essas pessoas, com intuito de garantir educação e apoio a elas”, afirma.

Sexualidade e PDE

Tratar as questões de gênero e sexualidade no ambiente escolar é conduta prevista no Plano Distrital de Educação (PDE) e no Plano Nacional de Educação (PNE), portanto, compete, também, às escolas e professores abordarem o tema.

Acesso a preservativos

Conforme a Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira (PCAP), publicada em 2016, dos jovens com idade entre 15 e 24 que estudam, somente 27,2% tiveram acesso a preservativos na escola, sendo que a maior parte deste percentual corresponde a homens.

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