Entrevistas

Os impactos da guerra e uma chance de recomeçar

Conheça George Al Nameh, um jovem sírio que precisou deixar o país natal para poder estudar, trabalhar e, principalmente, sobreviver

George Al Nameh. Este é o nome do refugiado sírio que, aos 22 anos, se reinventa no Brasil. Aqui ele já conquistou uma vaga no curso de relações internacionais na Universidade de Brasília, moradia e trabalho, na função de gerente do restaurante árabe Yalla Falafel. Lá se comercializa a versão vegana de um prato típico do Oriente.

O negócio surgiu da sociedade entre o primo de George e um amigo deles. Com um português afiado, o jovem fica à frente da gestão da empresa que, para ele, é só o começo. Mas há uma coisa que ainda incomoda George: a distância de 10.986 km que o separa de sua família. Ele desembarcou sozinho no Brasil em 2015 e desde então não a vê.

O pai e a mãe de George são funcionários do governo e não podem deixar a Síria por enquanto. Já seus dois irmãos, um de 16 e outro de 13 anos, teriam grandes dificuldades de terminar o ensino médio aqui. Mas George explica que pretende trazer todos eles para cá assim que possível.

Em entrevista ao Portal de Jornalismo IESB, George conta sobre a vida que teve que deixar para trás e os sonhos que nasceram junto com sua chegada ao Brasil, que apesar de tão diferente do lugar onde cresceu, ele já chama de casa.

George e o primo Bashar, com quem trabalha.

George (à esquerda) e o primo Bashar, com quem trabalha

Como era a sua vida na Síria?  

Era uma vida tranquila até o dia em que começaram a lançar muitos morteiros na capital Damasco, onde eu morava.  Eu fazia faculdade de ciência política, mas o campus foi bombardeado. Cheguei a perder muitos amigos por causa da guerra. É uma situação assustadora ficar com medo de morrer a cada minuto por alguma bala perdida ou por um morteiro que ninguém sabe quando vai cair. Violência e timidez que ficam sendo cada dia implantados mais e mais.

O que passou na sua cabeça quando você decidiu deixar a Síria? 

Esperança em melhorar o meu futuro e não perder tempo dentro da guerra. Eu só queria mudar aquela realidade, sair de um ambiente violento.

Como você avalia as oportunidades que o Estado oferece a refugiados aqui? 

Há uma ajuda muito grande. O Estado brasileiro foi bem receptivo e sem discriminação alguma. A gente sente que é bem-vindo também pelo povo brasileiro, ao contrário do que os outros refugiados encontram, às vezes, em outros países ocidentais.

Por que escolheu o Brasil para morar?  

Por várias razões. A primeira delas foi porque o meu primo, que me recebeu, me chamou para vir ao Brasil com plena responsabilidade dele na carta de convite. Segundo, porque o Brasil ofereceu vistos para os refugiados e a viagem é mais segura tanto na questão dos documentos como passaporte e visto legais, quanto pelo conforto de viajar no avião em segurança, ao invés de passar pelos caminhos da Europa e outros processos de tráfico de pessoas.

Qual é a maior dificuldade para um jovem sírio que chega no Brasil?  

Não é só um jovem ou só um sírio, é difícil para toda pessoa que acaba de nascer em outro país e precisa aprender tudo de novo, como uma criança de 5 anos. Andar pelas ruas, aprender a língua, fazer amigos, aprender costumes e tradições, e como sírio, especificamente, é difícil aprender a se socializar com um outro tipo de cultura, de pessoas e gêneros.

Como você se sustenta aqui desde que chegou? 

Primeiro eu passei quatro meses em São Paulo vendendo coisas para celular como atacadista ambulante. Depois eu vim para Brasília e trabalhei um tempo em um restaurante árabe. Quando saí de lá fui trabalhar em uma advocacia como assistente. Daí meu primo abriu um restaurante de comida árabe vegana e eu deixei o escritório para trabalhar com ele. Já tem um ano que abrimos.

Como é a sua relação com a cultura e com o povo brasileiro? 

Cada dia está sendo uma relação mais integrante [sic], de conectar as palavras diferentes com o jeito de cada pessoa nova que conheço no dia-a-dia, e saber a história das expressões linguísticas, entender a política interna e o Brasil aos poucos.

A sua família tem interesse em imigrar para o Brasil também? 

Sim, posteriormente. Quando eu melhorar minha situação financeira e ter uma estabilidade econômica para poder manter eles aqui. Para os meus pais seria mais difícil trabalhar aqui e aprender a língua, como eu ou meus irmãos, por causa da idade. Aí estamos esperando passar um tempo para que as condições mudem para melhor.

Deixe uma resposta

Saúde
_DSC0012 Narguilé: Mitos e verdades
Cidadania
Ônibus do banho do bem Projeto social resgata dignidade de quem mora na rua
Economia
É possível encontrar peças dos valores mais variáveis possíveis. Novas formas de consumo sugerem adaptações no mercado da moda

Mais lidas