Cidadania

Surdos criam filmes em projeto de animação na UnB

Desenho, edição e criação fazem parte do desenvolvimento em Círculo de Cultura, que já produziu 11 curtas

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animação círculo surdo UnB

O projeto Círculo de Cultura Surda é um programa de extensão na UnB e promove a inclusão entre as pessoas com deficiência auditiva e ouvintes. Por meio da produção de curtas de animação, os surdos são convidados a criar histórias  em filmes sem falas, estimulando a criatividade. Criado em 2002, o projeto já criou 11 curtas, que estão disponíveis no canal Vimeo chamado Círculo de Cultura Surda e no Facebook do projeto.

O diferencial  é a igualdade entre as pessoas.  “A gente discute em pequenos grupos de três em três ou de quatro em quatro, deixa os desenhos nas paredes e as pessoas olham e dão sugestões,  no sentido que todo mundo tem uma coisa a dizer”, comenta Domingos Sávio Coelho, coordenador do projeto. Os desenhos são aproveitados aos poucos e viram animações. O grupo é de até oito pessoas e os participantes são de vários cursos, como direito, design, artes visuais, ciências sociais, computação e  engenharia, além de estudantes do ensino médio.

Hoje, os audiovisuais são exibidos em festivais e mostras de cinema.  Domingos Sávio Coelho, professor de Psicologia da UnB e coordenador do Círculo, aprendeu libras durante o contato com os alunos. “Quando o projeto surgiu, por meio de demandas de professores que trabalhavam com surdos, eu não sabia nada sobre o assunto. Eu fui aprendendo libras com os surdos no convívio, muitos alunos começaram crianças na época”, conta o coordenador.

Os alunos conhecem o projeto nas escolas, que tem parceria com Bilígue de Taguatinga e a escola Elefante Branco, com aulas até duas vezes na semana. Nos encontros aprendem a desenhar, elaborar o roteiro do filme e editar. A idade é a partir de 7 anos, embora hoje a maioria dos participantes seja de adolescentes e jovens. “Alguns  começaram crianças. A gente acompanhou o desenvolvimento, mas hoje os temas de criação são mais voltados para o mundo adolescente”, conta Domingos.

Natanael Rocha Cruz, 23 anos, estudante de Letras Libras na UnB, é um dos alunos que vieram dessas escolas. “Conheci o projeto na 214 Sul, em 2010. Eu gosto de desenho, fazer os filmes, inventar as histórias. Eu não sabia desenhar quando cheguei aqui, fui desenvolvendo”, conta o jovem. Natanael foi um dos criadores do mais recente filme do projeto, o curta de animação Louise, que trata da desigualdade de gêneros no mundo surdo. Por coincidência, a proposta foi apresentada horas antes do assassinato da estudante de biologia Louise Ribeiro, vítima de feminicídio na UnB, em março de 2016.

Os temas de criação são livres, mas todos participam e dão sugestões. Também não há metas nem tempo de permanência no projeto. Mayra Pessoa dos Santos, 19 anos, está no projeto há dois anos e meio e hoje adapta provas de vestibular para surdos por meio de filmagens. “Estudava na escola Bilíngue de Taguatinga e foi lá que eu conheci o projeto, eu gosto de filmar, produzir a matéria. Estou trabalhando num projeto de provas de vestibular adaptadas para surdos, usando a filmagem”.

O projeto desenvolvido por Mayra utiliza um software que permite  a explicação das provas em libras, após serem filmadas e interpretadas. Também são adaptadas a analogias como símbolos e desenhos, para que os surdos possam contextualizar a explicação, especialmente as questões de matemática. Esse projeto tem previsão de finalização em setembro desse ano.

A liberdade de criação proporciona mudanças no comportamento dos surdos, como conta o coordenador. “Nas escolas dizem que depois do projeto eles mudam bastante, ficam mais independentes, com autonomia para produzir, criar. “O trabalho aqui é autoral, eu não quero que eles copiem de um filme, mas façam uma coisa deles, isso impacta, eles sentem a pressão, o voto de confiança”, relata. Natanael destaca o desenvolvimento de cada aluno nas etapas de produção.  “O surdo não costuma criar, precisa desenvolver isso, a ficar igual ao ouvinte. Da mesma forma que o ouvinte cria, o surdo também tem capacidade para criar”.

Uma outra proposta é ficar atento para as dificuldades, como a falta de acessibilidade nas produções comuns. A falta de  legenda, por exemplo, dificulta o entretenimento para os não ouvintes. “O surdo é visual, nos filmes comuns às vezes a gente não entende sem a legenda, tem vezes que a legenda não é compreensível e é muito rápida, fica difícil contextualizar”, explica Mayra.

O filme mais recente, Louise, está em exibição nos trens do metrô. “A reação das pessoas ao verem o filme é variada, no começo o ouvinte fica inseguro, com a falta de legenda, em dúvida se entendeu, fazem perguntas e se concentram para contextualizar. A gente é meio viciada na questão da palavra”, conclui Domingos.

Como o projeto também é aberto a ouvintes, o aprendizado mútuo, gera inclusão social e amizade. “Criar em grupo é mais fácil do que sozinho, as ideias surgem, os desenhos, todo mundo dá a sua opinião contribui de alguma forma. Um ajuda o outro, isso fortalece a amizade”, finaliza Mayra.

 

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