Cidadania

A arte que inclui

Projetos culturais em comunidades democratizam a arte e promovem inclusão social

São dez para as 8h da manhã, alunos de todas as idades começam a chegar. Alguns sentam em frente ao piano e praticam uma lição aprendida na aula passada, outros ficam em pé conversando e batucando no peito. A aula, que começaria às 8 horas, ainda aguarda a chegada do professor. Para não atrasar mais, dois alunos então começam a guiar o aquecimento. “Aqui todo mundo aprende e todo mundo ensina”, diz Rebeca de Assis, 14.

O projeto Batucadeiros fica no Recanto das Emas, Distrito Federal. Nasceu em 2001, a partir de uma ação social da Igreja Presbiteriana de Brasília, que promovia aulas de violão, teclado e bateria. A inciativa utiliza a música como ferramenta de transformação na vida de crianças e adolescentes dessa comunidade. Na época, devido à falta de recursos, os coordenadores desenvolveram técnicas para usar o próprio corpo como instrumento musical.

Às 9h, a segunda atividade do dia começa. A aula de dança, guiada por Gabriel Tavares, 18, explora criatividade e confiança por meio do contato improvisação. Os alunos se movimentam em duplas, e com olho no olho seguem os passos do colega. “É para vocês terem confiança e conhecerem o movimento do outro”, explica o professor. Gabriel entrou para o projeto em 2010, como aluno, e em 2015 foi convidado para ministrar as aulas de dança no instituto. “A gente aqui cresceu na periferia, então minha capacitação foi na rua”. O jovem entrou em contato com a prática, pela primeira vez, por meio do break, um estilo de dança de rua criado por afro-americanos na década de 70. A partir daí portas se abriram e Gabriel teve a oportunidade de conhecer outros estilos, como o ballet moderno. “Eu fazia coisa errada, me envolvi com drogas, mas através da dança e com projetos da comunidade foi que eu pude sair e reconhecer o meu potencial”.

Aula de dança trabalha conhecimento corporal a partir do contato improvisação no Instituto Batucar

Aula de dança trabalha conhecimento corporal a partir do contato improvisação no Instituto Batucar

As aulas ministradas no Instituto Batucar acontecem todas as terças e quartas.  Os alunos participam de oficinas de instrumentos, percussão corporal e dança. Às sextas-feiras, as crianças e adolescentes recebem apoio pedagógico, com aulas de reforço e atividades lúdicas.

Gabriel reconhece a importância de projetos culturais em comunidades carentes. “Isso aqui é muito forte. A comunidade precisa disso”. Para ele, sem inciativas assim, em um local onde todos estão sempre expostos à violência e às drogas, os alunos estariam nas ruas “fazendo besteira”. No entanto, reconhece também que há resistência, principalmente dos alunos novos, que ficam com o pé atrás com a dança. Apesar do estranhamento inicial, Gabriel relata histórias de alunos que abraçaram o diferente e chegaram a se emocionar. Uma criança, em particular, se sobressai na memória do jovem, que ao final da aula se aproximou dele e disse: “Tio, meu coração está chorando”.

Rebeca de Assis, 14, faz parte do projeto há quatro anos. A estudante do 9º ano do ensino fundamental conheceu o instituto a partir de um sarau e hoje sonha em ser musicista. “Eu me interessei muito, queria fazer aquilo também e falei que queria começar”, relata. Rebeca sente-se grata por ter a oportunidade de participar de projetos como os Batucadeiros, e sabe que nem todas as pessoas de sua idade têm acesso a inciativas culturais como essa. “Em comunidades carentes, geralmente não tem esse tipo de projeto. São comunidades esquecidas”.

Batucar, fazer o próprio som e conhecer coisas novas,são, segundo a adolescente, os privilégios de fazer parte dos Batucadeiros. “Eu acho muito importante porque acontece uma interação com a arte e com a música, e com coisas que geralmente essas pessoas nunca iriam conhecer se não fossem projetos como esse”.  Rebeca sonha em fazer faculdade de música para estudar violão e canto.

Reciclando os Sons

O projeto nasceu em 2001, como parte de uma ação comunitária dentro da Associação Viver, que está localizada ao lado do Lixão da Estrutural. Após captação de recursos, novos parceiros e doação de instrumentos, a inciativa que começou com 22 alunos hoje atende 150 crianças e jovens em situação de vulnerabilidade na comunidade. Idealizado pela musicista Rejane Pacheco, o Reciclando Sons oferece curso de musicalização. A formação inicial é voltada para crianças a partir de 9 anos de idade. Os alunos com melhor desempenho têm a oportunidade estudarem até a formação técnica, quando são orientados para prova de admissão na Ordem dos Músicos do Brasil e de universidades públicas.

A assistente social e vice-presidente do Instituto, Lilia Kézia Lion, relata histórias de ex-alunos que hoje são profissionais e tiveram a oportunidade de fazer intercambio na Itália. Também menciona, com orgulho, dois alunos que, atualmente, são bolsistas do curso de música na Universidade de Brasília. “Aqui é um celeiro de replicadores, a gente prepara os meninos para trabalhar lá fora”.

Reciclando os Sons oferece curso de musicalização para a comunidade da Estrutural

Reciclando os Sons oferece curso de musicalização para a comunidade da Estrutural

O projeto trabalha com uma tecnologia social que busca envolver a comunidade local, formar músicos e educadores sociais em busca de diminuir o agravamento da vulnerabilidade local. Lilia ressalta que iniciativas culturais como essa são importantes e empoderam talentos nas comunidades que muitas vezes não são vistos ou reconhecidos pela sociedade. “La fora as pessoas só visam a violência que acontece aqui dentro, mas pouco se fala dos talentos que tem”.

Ao longo dos 16 anos de atuação, o Instituto Reciclando Sons virou referência no Distrito Federal. Os jovens que passaram por lá carregam consigo uma noção mais aprofundada de participação na sociedade, e os que persistem conseguiram oportunidades no mercado de trabalho e na vida acadêmica. “Nós somos fruto desse projeto, eu comecei minha carreira aqui dentro”, afirma, com orgulho, Elcielma Nascimento, diretora financeira do projeto.

A diretora, após concluir as etapas do instituto, ingressou no curso de administração, na faculdade Anhanguera, em Brasília, com o intuito de ajudar o projeto a crescer. O curso foi todo custeado pela Bancorbrás, um dos parceiros da inciativa. “O que nós acreditamos, acho que não seja um pensamento só meu, é que o Instituto Reciclando Sons realmente transforma vidas e dá oportunidades. (…) hoje nós temos professores voluntários, mas 99% são pessoas que se formaram aqui”. 

Incentivo à cultura

Os direitos culturais resguardados pela Constituição Federal ressaltam como o incentivo artístico, da mesma forma que a educação, deve ser usado como instrumento de formação do indivíduo, para desenvolvimento de pensamento crítico e demais reflexões.

Segundo o artigo 215 da Carta Magna, é assegurado a todos os indivíduos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes de cultura nacional. Cabe ao Estado, portanto, apoiar, incentivar e valorizar manifestações culturais, defender patrimônios históricos, formar pessoal qualificado para gestão da cultura e democratizar o acesso aos bens de cunho artístico.

Garantias como essas visam assegurar melhor qualidade de vida e o pleno desenvolvimento pessoal e social dos cidadãos. Entretanto, grande parte dos municípios brasileiros não usufrui desses direitos e sequer possui centros culturais. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2014 apenas 37% dos municípios possuíam algum tipo de centro cultural. Em contraste, a porcentagem de municípios com equipamentos esportivos públicos foi de 91,4%.

Para o Observatório da Criança e Adolescente, da Fundação Abrinq, a falta de espaços seguros e protegidos para a prática de atividades culturais “restringe o convívio entre diferentes grupos sociais, prática necessária para o desenvolvimento da tolerância e cultura de paz”. Além disso, dificulta a difusão do repertório cultural e manifestações de produções artísticas próprias ou referentes às tradições daquela comunidade.

Leis de incentivo à cultura tornam-se alternativas cada vez mais dependentes do Estado para difundir inciativas culturais e engajar também o apoio do setor privado. Um exemplo é a Lei Rouanet (8.313/91), que estabelece normativas de como o Governo Federal deve disponibilizar recursos para produção de projetos artístico-culturais. A lei foi concebida, originalmente, por três mecanismos: o Fundo Nacional da Cultura (FNC) que representa o investimento direto do Estado no fomento à Cultura; o incentivo fiscal, ferramenta desenvolvida para que a sociedade possa decidir aplicar parte do dinheiro de seus impostos em ações culturais; e o Fundo de Investimento Cultural e Artístico (Ficart), que nunca foi implementado. Podem inscrever projetos, pessoas físicas, como artistas ou agentes culturais, e pessoas jurídicas criadas com finalidades culturais. Todas as propostas podem ser apresentadas ao Ministério da Cultura de 1º de fevereiro a 30 de novembro de cada ano.

Criatividade, improvisação são pontos trabalhados durante oficinas de projetos culturais em comunidades

Criatividade, improvisação são pontos trabalhados durante oficinas de projetos culturais em comunidades

Proteção

Criado em 2011, o Coletivo da Cidade é uma das organizações sociais que usufrui de editais, tanto governamentais quanto privados, para tocar o projeto que atua com atendimento de crianças e adolescente no contraturno escolar. A iniciativa oferece atividades artísticas e educativas com o intuito de promover transformação social na comunidade. Localizada na Cidade Estrutural, a organização também se caracteriza como importante espaço de convivência comunitária e capacitação profissional para moradores do local. No início, o grupo era composto apenas por moradores da comunidade, além de profissionais e voluntários da Universidade de Brasília, hoje a equipe conta com educadores de outras áreas e parcerias institucionais.

Coracy Coelho, um dos coordenadores voluntários da organização, acredita que o principal diferencial do projeto seja a preocupação com a segurança e proteção escolar das crianças envolvidas. “A educação, que é muito importante, não tem nenhuma estratégia para combater evasão escolar, por exemplo. A gente trabalha tentando assegurar que a criança não saia da escola”.  O voluntário alega que o sistema educacional, que nem sempre possui profissionais suficientes, não consegue identificar necessidades específicas e individuais de cada aluno. “O coletivo, por ter uma equipe de educadores, psicólogos, assistentes sociais e pedagogos, acaba conseguindo enxergar essas questões”, analisa.

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