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Velocidade e perigo

Ruas do DF viram palco para rachas ilegais; apaixonados investem pequenas fortunas para customizar carros

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Segundo o Departamento de Trânsito do Distrito Federal do DF (Detran), em 2017 foram registradas 1.562 autuações por rachas, competições ou exibições de manobras radicais com veículos. Em 2018, já foram contabilizados 247 flagrantes, isto até março. Carros modificados que apostam corridas ou fazem manobras ilegais podem ser apreendidos e autuados com multas que ultrapassam os R$ 2.900,00, além de provocar a perda do direito de dirigir por seis a 12 meses ou até mesmo definitivamente.

Participar de corridas ilegais ou manobras automobilísticas não autorizadas em via pública é punido com sanções previstas no Código de Trânsito Brasileiro. O artigo 308 do CTB prevê pena de detenção, de seis meses a três anos, multa e suspensão ou proibição do direito de obter a carteira de motorista. Se o crime resultar em morte, o condutor pode ficar recluso por até dez anos. Os crimes de trânsito são determinados, normalmente, como culposo (sem intenção de matar). No caso de óbito por racha, a perícia poderá categorizar como doloso (quando há intenção de matar), pois o motorista habilitado está ciente das leis e limites no trânsito.

A mercê dos riscos 

João Paulo (nome fictício), 20 anos, participa de encontros de motoristas em estacionamentos públicos do DF. Ele garante que não participa de pegas, mas ainda assim sofreu um acidente na marginal da EPTG, próximo ao Guará, em 2018. “O carro perdeu controle na pista, com medo de que meu carro atravessasse para EPTG, tentei trazer o veículo de volta para marginal, porém, por infelicidade minha, ao conseguir direcionar o carro para direita, sentido contrário da EPTG, meu carro foi em direção ao poste”, relata. Como procedimento padrão em um acidente grave de trânsito, João foi convidado a realizar vários exames e prestar depoimento para as autoridades de como o acidente aconteceu. “Prestei depoimento, fiz bafômetro, que deu negativo. O carro foi embora para que eu pudesse viver, foi vendido como sucata”.

Levantamento divulgado pelo Detran mostra o crescimento de acidentes fatais nas vias urbanas e rodovias entre 2016 e 2017 no DF. No período a alta dos acidentes mortais foi de 21%, como o número de mortos de 23 em 2016 e 28 em 2017. A maior perda de vidas está em rodovias, por consequência da imprudência em alta velocidade. As baixas em alguns pontos são resultados do aumento de fiscalizações e policiamento (confira no gráfico).

Gráfico 1

Gráfico 2

De acordo com a Polícia Rodoviária Federal, existem grupos que marcam pegas pelas redes sociais. Os locais preferidos são BR-040, BR-070 e BR-060, EPTG, Estrutural e EPIA. A PRF identificou motociclistas que usam a estrada para apostar pega, e boa parte deles é do DF. As fiscalizações são baseadas em blitz, câmeras de monitoramento e câmeras de velocidade.

De acordo com o Departamento de Estrada e Rodagem (DER), estão sendo implantados 618 pardais com alta tecnologia no DF. O novo equipamento tem a função de velocidade média. O tempo percorrido será calculado entre um pardal e outro e caso ocorra de o motorista percorrer o trecho em tempo inferior ao permitido pela velocidade máxima, ele será multado no pardal seguinte mesmo que ao passar pelo instrumento esteja no limite da via.

Velocidade ou Credibilidade?

Os veículos que participam de eventos em estacionamentos públicos e rodovias podem ultrapassar 100 km/h em apenas seis segundos. Os carros podem ser de categorias diferentes, como popular, superesportivo e luxuoso. Nos eventos automotivos acontece de tudo, de disputa entre os motores mais potentes, carros mais belos a uma boa conversa entre amigos.

Com o monitoramento dos grupos e com autorização dos integrantes do encontro, a reportagem registrou em diversos momentos a disputa entre carros e motos em uma reta de aproximadamente 450 metros no Shopping Popular, ao lado da antiga rodoferroviária.

O improvável acontece, até carros e motos disputam sua melhor velocidade em 450m

Reta de 450 m vira palco para corridas ilegais

Alguns dos participantes repudiam a forma como a mídia os retrata e muitos se sentem ofendidos com o que chamam de “generalização” nas reportagens. João Paulo garante que o objetivo das reuniões não é fazer corrida: “Infelizmente a visão de todo mundo é que esses encontros são apenas para fazer rachas, a questão é que o intuito destes encontros nunca foi ver se um carro é melhor que outro e sim conhecer, conversar, fazer amigos através de uma paixão, que são os carros”.

Grupos se reúnem no Shopping Popular para conversar sobre os projetos de suas paixões sobre 4 e 2 rodas

Grupos se reúnem no Shopping Popular para conversar sobre os projetos de suas paixões sobre 4 e 2 rodas

João Paulo acredita que as manobras arriscadas e audaciosas são realizadas por pessoas desconhecidas, que não fazem parte dos encontros, organizados em grupos de WhatsApp. Essas pessoas aparecem com baixa frequência, pois o local é público e qualquer carro pode comparecer. A “bagunça” prejudica a imagem do evento, segundo ele. “Nunca se teve restrição quanto a quem deveria ir aos encontros, pelo contrário, se mantem o respeito entre todos, [...] locais são variados, pois por tratar de um ambiente público, não temos controle das pessoas que estão circulando por nós, [...] é aí que as más impressões são tiradas dos encontros de carros, pois as pessoas que não respeitam, tiram racha na frente do encontro, fazem zerinho e põem um evento de amigos se passar por uma bagunça descontrolada”.

João Paulo sofreu um acidente com seu veículo anterior, saindo de um encontro, mas nada impede de novos sonhos surgirem

João Paulo (nome fictício) sofreu um acidente com seu veículo anterior, saindo de um encontro, mas nada impede de novos sonhos surgirem

Incomodo sonoro

As corridas ilegais chamam muita atenção da população, por se tratar de um hobby com carros bonitos, rápidos e imprevisíveis. Mas muitas vezes assustam e incomodam as pessoas que moram ao redor das rodovias. Guilherme Wesphal,  de 22 anos, morador de Vicente Pires, perto da Estrada Parque Taguatinga (EPTG), reclama do som que as motos de alta potência fazem ao apostarem racha.  “Incomoda em qualquer horário, recomendo procurar uma pista de autódromo ou lugar adequado para isso”, ressalta.

Há locais apropriados e permitidos por lei para realizar eventos automobilísticos, para que os barulhos e riscos possam ser mínimos. Esses pontos são autódromos, circuitos internos e estacionamentos privados para realização dos eventos.

Atualmente em Brasília as corridas estão suspensas pela reforma do Autódromo Internacional Nelson Piquet, que sedia somente eventos de arrancada. Como segunda opção há o HOT LAP (volta quente), competição realizada comumente em kartódromos. Ela é baseada no percurso concluído com o menor tempo. No DF, o circuito é localizado no Guará, onde pilotos profissionais ou amadores começam sua carreira ou hobby. Para isso é necessário cumprir alguns requisitos legais, como o Art. 67 do CTB. Confira o texto:

Art. 67- As provas ou competições desportivas, inclusive seus ensaios, em via aberta à circulação, só poderão ser realizados mediante prévia permissão da autoridade de trânsito com circunscrição sobre a via e dependerão de:

I – Autorização expressa da respectiva confederação desportiva ou de entidades estaduais a ela filiadas;

II – Caução ou fiança para cobrir possíveis danos materiais à via;

III – Contrato de seguro contra riscos e acidentes em favor de terceiros;

IV – Prévio recolhimento do valor correspondente aos custos operacionais em que o órgão ou entidade permissionária incorrerá.

Parágrafo único. A autoridade com circunscrição sobre a via arbitrará os valores mínimos da caução ou fiança e do contrato de seguro.

Mais potência? 

Os carros que apostam pega são particulares e rodam normalmente nas ruas. Porém, poucos sabem o que se esconde embaixo dos capôs. Carros com motorização 1.0 turbo podem chegar a 190 cavalos, quando mexidos para competição. De fábrica, um carro popular tem potência apenas 82 cavalos, ou seja, menos da metade. Os roncos são de arrepiar para quem é fã das quatro rodas. Entre os grupos que frequentam os locais, aparecem carros que custam mais de R$ 200 mil, com customizações que podem ultrapassar os R$ 50 mil. Mas a competição mesmo são os investimentos em preparações para ser o mais potente e o mais bonito.

Carros de todas as potências e classes participam dos encontros, o objetivo final é apenas a troca de experiências, dizem os participantes

Carros de todas as potências e classes participam dos encontros, o objetivo final é apenas a troca de experiências, dizem os participantes

Ricardo Oliveira (nome fictício) tem paixão por carros desde criança, participa dos encontros, mas não faz pegas. “Não sou muito adepto dos rachas, tanto pela minha natureza mais conservadora e medrosa no que diz respeito à velocidade em vias públicas, quanto pela personalidade em geral mesmo”. Ricardo acredita que quem faz racha não tem consciência do perigo: “A minha opinião final é quem faz isso não tem noção do mal que pode causar e a maioria  vai para manter as amizades, distrair um pouco da semana e admirar o que gosta: carros e projetos diversos”.

O carro de Ricardo é bem chamativo, possui rodas grandes, aerofólio, um modelo muito parecido com os de filmes de corrida. O amante das pistas investiu mais de R$ 50 mil no projeto final do seu Eclipse GS-T 1995, da Mitsubishi. O resultado do upgrade no motor elevou a potência para 370 cavalos, ante os 213 cavalos iniciais. “Aumentei a cilindrada, troquei turbina, bicos injetores, ponto de ignição, peças do motor, filtro de ar, escapamento, dentre outras várias modificações. O objetivo real do projeto era ter um carro com uma potência bem maior, por mero prazer, e uma estética que vinha da época que eu jogava e era apaixonado pelo carro”, conta.

Ricardo sempre participa dos encontros, mas procura só os locais adequados com segurança para alcançar a potência máxima do seu carro

Ricardo sempre participa dos encontros, mas procura só os locais adequados com segurança para alcançar a potência máxima do seu carro 

 

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