Cidades

Sem apoio, Semana do Pimentão perde público

O evento tradicional em Planaltina está em sua 20° edição. Mas devido à falta de apoio, a festa diminuiu, embora o cultivo de pimentão na região tenha movimentado R$ 8 milhões, em 2017

De acordo com a Assistente Social e Prefeita Comunitária do Núcleo Rural da Taquara, em Planaltina – DF, Jane Batista, a Semana do Pimentão já representou uma grandiosa festa que atraia público de todo Distrito Federal. Mas devido à crise econômica, as últimas cinco edições precisaram ser encurtadas já que o apoio dos empresários do ramo da agricultura diminuiu até se extinguir e a parceria com o governo, através de emendas parlamentares e apoio de secretarias, como a da Cultura, também não aconteceu mais.

Prefeita Comunitária do Núcleo Rural da Taquara em Planaltina DF, Jane Batista

Prefeita Comunitária do Núcleo Rural da Taquara, Jane Batista lembra que a festa já atraiu público de todo o DF

“Foi um choque para a comunidade diminuir esse evento, o único que acontecia na Taquara. Era de uma magnitude de total importância para toda região”, diz. Jane conta que o poder público local provavelmente não sabe nem em que período acontece a programação. Devido a imensa luta para realizar o evento a comunidade se retraiu e também não busca mais apoio para reerguer a festa.

“Menos palestras, menos atrações culturais, o que era muito importante pois o único contato com essas atrações aqui na região acontecia apenas na Semana do Pimentão. Era uma parceria que dava muito certo, governo e comunidade”, diz Jane.

A prefeita conta que mantiveram por 15 edições dois importantes concursos dentro do evento, que era a Rainha do Pimentão, no qual sempre concorriam filhas de produtores ou funcionários ligados a atividade, e o concurso de culinária, quando era eleito o melhor prato feito com pimentão, elaborado por esposas de produtores, também produtoras. Ambos os concursos eram premiados e aguardados com expectativa pela comunidade.

“Menos palestras, menos atrações culturais. O único contato cultural aqui na região acontecia apenas na semana do pimentão. Uma parceria que dava certo, governo e comunidade”

Jane Batista: “Menos palestras, menos atrações culturais. O único contato cultural aqui na região acontecia apenas na semana do pimentão. Uma parceria que dava certo, governo e comunidade”

Em 2018, o evento ocorrerá em data prevista para 15 a 19 de agosto. A programação ainda não confirmada. Tradicionalmente contempla cursos e palestras para os produtores rurais, para a troca de informações sobre melhorias do cultivo no território brasiliense. Há também festas, exposições e comercialização de produtos ao longo da semana.

Com entrada franca, são esperados para essa edição um total de 100 pessoas diariamente nas oficinas de capacitação. Em 2017 foram 3 dias de palestras técnicas. Já nos eventos que incluem degustações, exposições e shows são aguardados em média 400 pessoas.

De acordo com um servidor da Gerência de Cultura de Planaltina DF, que preferiu não se identificar, as representatividades comunitárias do Núcleo Rural Taquara, garantiam parcerias com parlamentares que destinavam emendas para que a festa fosse realizada. A gerência dispunha de prover algumas atrações culturais para a festa, mas não eram os principais responsáveis pelas atrações. Havia uma participação mais enfática da Secretaria de Cultura do Distrito Federal na época em que o evento era grandioso.

O servidor diz ainda que a festa não entrou via Decreto Lei para a agenda oficial dos eventos da cidade, o que dificulta manter os padrões do evento, pois com as mudanças de governo os parceiros políticos mudam e sem o mesmo empenho da comunidade tudo se torna mais difícil.

“ Uma gerência cultural local não possui insumos para ajudar acontecer um evento desse porte. A comunidade parou de buscar as parcerias políticas que garantiam a festa. Seria possível não perder a Semana do Pimentão que é de extrema relevância cultural, se entrasse para agenda oficial do DF, como temos a Via Sacra, Cruzada Evangelista. Somente através de um Decreto Lei seria possível”.

Cultivando pimentão

O produtor rural, Maurício Severino de Rezende, cultiva e colhe pimentão no núcleo rural Taquara e atualmente está a frente da Cootaquara – Cooperativa Agrícola da Região de Planaltina. Há 28 anos exercendo atividade agrícola, Maurício diz obter renda que chega a R$ 4.000. Esse ganho já foi bem maior, o que o motivou na década de 80, a exercer a função de produtor rural em paralelo ao seu cargo no Departamento de Terras Rurais, na Fundação Zoobotânica, na Secretaria de Agricultura.

“ Eu ainda insisto com o pimentão, possuo uma produtividade que justifica plantar o pimentão” Produtor rural, Maurício Severino de Rezende

“Eu ainda insisto com o pimentão, possuo uma produtividade que justifica plantar”, diz o produtor rural, Maurício Severino de Rezende

Não demorou muito, em 1997, pediu demissão de seu cargo público para apenas exercer o cultivo de pimentão. Segundo Maurício, seu gerente de produção ganhava mais que ele no emprego na secretaria. O sucesso da atividade na época se deu ao pioneirismo em cultivar o fruto em estufa. “A pós colheita do pimentão de estufa é bem melhor, ele é mais resistente que o de campo aberto. Mandávamos para Manaus e demorava 12 dias de carreta e o pimentão de estufa chegava perfeito. Já com o de campo aberto havia perda de 25%”.

Segundo o produtor rural devido a pragas, crise hídrica e financeira que vem atravessando o país, essa renda diminuiu bastante. Maurício diz que muitos produtores de pimentão da região tem aberto espaço para cultivo do tomate, mas os mesmos problemas que afetaram o pimentão também afetarão o tomate.

A plantação de pimentão de Maurício, que já somou mais de 70 estufas, hoje foi reduzida para 62. Ele espera ter colhido até agosto de 2018 cerca de 1.380 toneladas de pimentão. Na crise hídrica, em 2017, quando a região de Planaltina ficou sem água inclusive para consumo humano por período de até 10 dias, o produtor atuou apenas com 20 estufas. Cita que na ocasião muitos colegas perderam colheitas e tiveram prejuízos. “ Embora haja as condições adversas de mercados hoje, eu ainda insisto com o pimentão, possuo uma produtividade que justifica plantar o pimentão”, diz Maurício.

Emater-DF (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do DF)

Gerente do escritório da Emater-DF, em Taquara, empresa pública que orienta os agricultores com os procedimentos e técnicas para o cultivo de produtos agrícolas, aplicação de agrotóxicos, tratamento de pragas e orientações para obter crédito agrícola, Fabiano Ibraim Regis Carvalho diz que possui dados referentes a 2017. A prática de cultivar pimentão gerou 200 empregos diretos na região. A safra desse ano movimentou por volta de R$ 8 milhões.

O gerente diz que são 80 produtores e que em 2017 foram colhidos de 4.000 toneladas. A área cultivada foi de 15 hectares em estufas e 30 hectares a campo aberto. “ Os ganhos e a geração de empregos já foram maiores. Essa queda se deve a problemas relacionados ao cultivo e ao ataque de pragas. Esses últimos anos de pouca chuva também influenciaram de forma negativa tanto o valor na comercialização no período chuvoso, com foco no pimentão de estufa, como na severidade do ataque da praga”.

Embora haja queda em todos os âmbitos da prática agrícola, Planaltina é um dos maiores produtores do Brasil. Fabiano conta também que a produção é direcionada para consumidores de Brasília, mas que empresas de outras cidades como Goiânia e Anápolis, também compram pimentão do núcleo rural. “Hoje o pimentão produzido na Taquara, em Planaltina, representa por volta de 50% de todo DF. O que serve de incentivo aos produtores”.

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