Entrevistas

Uma lenda viva

A história de um mineiro que, ainda na adolescência, trabalhou pesado na construção de Brasília sem imaginar o seu futuro

Sebastião de Azevedo Rodrigues chegou em Brasília em 20 de maio de 1959 e, hoje, está com 76 anos.  Aos 15 veio para trabalhar na construção da capital, sem imaginar o que iria construir, conquistar e se tornar.

Popularmente conhecido como Tião Areia, Sebastião nasceu em Patos de Minas (MG) e se instalou nos ermos da antiga Fazenda Papuda como oleiro, quando chegou na capital. Conheça, a seguir, a relação de Tião Areia com a cidade São Sebastião.

Qual a origem do apelido Tião Areia?

Vieram para Brasília comigo sete Sebastião. Eu era o oitavo e mais novo. Na divisão das tarefas, para nosso patrão não chamar um Sebastião e todos nós olharmos, cada um foi apelidado de acordo com sua função. Eu fui escolhido para tirar areia para construção de tijolos, então passei a me chamar Tião Areia.

Sebastião aos 15 anos, retirando areia para fabricação de tijolos

Sebastião aos 15 anos, retirando areia para fabricação de tijolos

De qual região era retirada a areia?

Aqui mesmo em São Sebastião. Na região da Fazenda Taboquinha, tinha um areia e argila muito boa. Por isso, foram sendo criadas cada vez mais e mais olarias. Daqui saiu a maioria dos tijolos que construíram Brasília. Os terrenos não tinham tanto valor, porque o plano era a construção do lago Bartolomeu, maior que o lago do Paranoá hoje, que na época se chamava Paranauá.

Equipamentos usados para retirar areia na região da construção do Lago Bartolomeu

Equipamentos usados para retirar areia na região da construção do Lago Bartolomeu

E como o governo se posicionava na época, a respeito da retirada da areia?

O governo de 1960 decretou que nós liberássemos a área para a construção do Bartolomeu. Com medo, muitos trabalhadores saíram. Alguns teimosos (risos), como eu, foram ficando, ficando. Até porque ninguém tinha lugar para ir. Éramos todos de fora, ninguém tinha mãe, pai. Não tinham familiares nenhum, era tanta pobreza que não tinha outra alternativa.

Como ficou sua situação depois que muitos deixaram o local?

Foi aí que me descobri rico. Boa parte dos trabalhadores saíram, deixaram tudo para trás, eu fiquei com 20 caminhões, ferramentas, equipamentos de escavações. Fiquei com tudo que possa imaginar. O que ninguém imaginava e nem esperava era que não foi construído nenhum lago. Então virei dono das terras e por aí vai. Tinha tudo, fiquei muito rico mesmo.

Diante de tudo isso quais as maiores dificuldades enfrentadas?

No meio de tudo isso, descobri que estava com Mal de Chagas aos 31 anos. Vi a morte de perto, fiquei com plena certeza que iria morrer a qualquer momento. Foi então que resolvi dividir terras de arrendamento, máquinas, ferramentas. Porque estava doente, não achava que iria sobreviver. Todos nós éramos muito pobres, não queria ver ninguém sendo tratado como escravo, morando mal, porque era isso que acontecia, escravidão mesmo. Queria ver o povo morando bem, como gente.

E depois, como ficou?

Eu fiquei bom do Mal de Chagas e não morri (risos), graças aos remédios caseiros de um curandeiro que tinha na época, a base de ervas. Aí a vilinha foi crescendo, crescendo, construções para todos os lados.

Como as pessoas fizeram para sobreviver?

Foi aí que passei a ser mais visto, ser respeitado e, logo, como um líder representante da vila. Os moradores estavam precisando de água encanada, luz elétrica, segurança, lugar para as crianças, posto de saúde. Daí veio a  primeira associação de moradores da Vila Agrovila.

Porque Vila Agrovila?

Porque a vila oferecia abrigo aos trabalhadores que vieram para construção de Brasília, dava assistência.

Como foi a mudança do nome de Vila Agrovila para a cidade São Sebastião?

O tempo passou e a vila logo ganhou vida e visibilidade, já foi mudando de vila para cidade. Então, eu já estava na liderança da cidade, representante comunitário, correndo atrás cada vez mais de benefícios para nosso povo. Passei a ser visto e conhecido pelas autoridades. Daí, tiveram a ideia de mudar a Vila Agrovila para outro nome. Era votação aberta, votação com papeis, cada morador escrevia um nome e colocava numa caixa, até chegarem em dois nomes, Sobra da Serra ou Pinheral. Na hora de decidir qual dos dois nomes seria o escolhido uma moça chamada Elaine se levantou com um papel na mão, pediu licença e começou falar.

O que ela dizia na carta?

A carta dizia que era uma proposta de nome para a cidade. Quando a moça começou, o povo começou a chorar, chorar. Ela dizia assim: ‘Eu acho que essa cidade deveria levar o nome de um homem que lutou muito pela comunidade, que ajudou todo mundo’ e por aí foi.

Carta lida por Elaine na ocasião em que foi escolhida o nome da cidade

Carta lida por Elaine na ocasião em que foi escolhida o nome da cidade

Qual o nome dessa pessoa que Elaine falava na carta?

Ela falou, falou até que terminou falando assim ‘essa vila deveria se chamar cidade São Sebastião, porque é o nome de uma pessoa que sempre quis o nosso bem’. Aí, pronto, a bancada aceitou, os moradores aceitaram e assim ficou cidade São Sebastião.

E a praça?

A praça foi uma homenagem também, porque todos da época morreram, só ficou eu, que aqui estou contando a história para você, aos 76 anos.

Sebastião de Azevedo Rodrigues- Tião Areia

Sebastião de Azevedo Rodrigues ficou conhecido como Tião Areia

 

 

 

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