Entrevistas

A fotografia negra vista pelos olhos de quem entende da luta

Jovem estudante de artes visuais tem suas fotografias como grito de resistência e liberdade ao estereótipo do povo negro

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#artesvisuais fotografia liberdade Luta

Luiz Ferreira, de 21 anos, nascido em Brasília, é estudante de artes visuais pela Universidade de Brasília e tem a fotografia como paixão. Suas fotografias têm um recorte racial e social, onde explora a estética, memória afetiva e a relação espacial do povo preto. Luiz tem uma trajetória muito rica. Apesar da pouca idade, ele acredita que a arte é uma importante ferramenta de transformação político-social por trazer à tona questionamentos, expressões e corporeidade.

Luiz Ferreira, artista visual

Luiz Ferreira é artista visual

Qual a sensação de um jovem negro periférico ser reconhecido pelo seu trabalho?
A sensação é estar no caminho certo. Estar inserido no contexto periférico e trabalhar com arte são dois extremos, como a arquitetura da nossa cidade, excludente. Brasília como um campo modernista com traços simples e monocromática e, do outro lado, a luta para soluções e instrumentos de ação democrática. O reconhecimento do meu trabalho parte de um reconhecimento espacial de quem gosta das minhas produções.

De onde surgiu a sua vontade de abordar questões raciais e sociais nas suas fotos?
Quando tive acesso direto a fotografia, logo vieram diversos questionamentos sobre minha identidade e os incômodos sociais. A arte foi um grande instrumento para verbalizar de forma visual sobre todo ideal que me assombrava diante da sociedade e a dívida histórica no processo escravocrata da construção do país. Toda pesquisa é gerada a partir de um incômodo e foi isso que me fez seguir uma linha de pesquisa sobre a sociedade e identidade racial no Brasil. O processo de pesquisa foi bem difícil porque não tinha acesso. Minhas pesquisas caminharam de acordo com meu processo de identidade racial e intelectual, partindo da estética até a academia. Hoje, a abordagem do meu trabalho continua dentro de uma política, mas com outros embasamentos como a masculinidade, materialização dos meus processos, fotografia analógica, intervenções e a memória afetiva.

O que você tenta mostrar nos seus trabalhos, seja de vídeo ou de fotos?
Todas as minhas produções têm um grande valor afetivo para mim e sempre defino como um refazimento histórico, uma memória ancestral e reminiscência dos corpos negros. Meu objetivo dentro das artes visuais é contar nossa própria história e repassar nossos registros que se perderam por um crime contra a população negra, de esquecimento e marginalização dos nossos corpos.

Você já recebeu muito não? Sabe o motivo? O que te fez continuar e não desistir?
Sim. Quando eu comecei a fotografar, tentei expor em diversas galerias de Brasília e acharam meu trabalho muito “agressivo” para o espaço. Hoje, eu entendo que a arte é branca e nós devemos construir nossos espaços fora e dentro do centro sem as validações institucionais. O que me fez continuar é estar no processo que minhas produções cheguem na ‘Dona Maria’ costureira e que a nossa política incomoda.

O que você faz com as fotografias? Posta, acervo, exposição?
Minhas produções ficam em constante processo criativo. Como estou experimentando novos materiais e materialização das fotos, faço diversas intervenções nesses corpos que estão em vulnerabilidade. Hoje, tenho diversas fotos impressas no meu pequeno acervo, ou meu quarto, que vendo e participo de feiras fotográficas. Aliás, quem quiser comprar é só falar comigo.

Como sua fotografia foi parar no Afropunk?
Nem eu sei (risos). Na verdade, a plataforma fez uma postagem para curadoria de novos trabalhos para publicação. Enviei meu trabalho, passou muito tempo e já tinha esquecido. Eu estava em um dia bem bad vibes, abri o Facebook e tinha milhões de notificações. Fiquei sem entender e o Afropunk tinha me marcado numa publicação. Com a publicação, meu trabalho chegou a horizontes que eu não imaginava, como fazer a capa de uma revista pra Europa, fotografar campanha publicitária, expor no Museu Nacional e ser visto como uma referência.

Aonde você quer chegar?
Quero chegar em todos os espaços pra resignificar nossa história e contar a nossa versão.

Serviço:
Para comprar as fotografias de Luiz, basta entrar em contato com ele.
E-mail: luizhnferreira@gmail.com

 

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