Educação

Pedagogia Griô é nova forma de enxergar a educação

Nova forma de enxergar a educação surge com a proposta de diálogo entre comunidade e escola, coloca a identidade e ancestralidade no centro da roda da educação

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#culturaoral #pedagogiagriô #saberesancestrais

Imagine um conceito pedagógico com base na cultura da transmissão oral de conhecimento. Essa é a ideia da Pedagogia Griô, reinterpretada pela coordenadora pedagógica da Ong Grãos de Luz e Griô, Líllian Pacheco. O conceito surgiu da Ação Griô,  que tem como objetivo a valorização dos mestres e mestras portadores dos saberes e fazeres da cultura oral, os chamados griôs, e o fomento da transmissão desta tradição.

A Escola de Formação em Pedagogia Griô é fruto de 20 anos de trabalho, pesquisa e ações comunitárias realizadas por Líllian e Marcio Caires a partir da criação, vivência, coordenação e sistematização do projeto Ponto de Cultura Grãos de Luz Griô, (desde 1998) na comunidade de Lençóis (BA), e do Programa Ação Griô Nacional/Programa Cultura Viva (2005 a 2011). A experiência dos criadores da Pedagogia Griô foi compartilhada com 600 entidades e tornou-se referência em cultura e educação em todo o Brasil. A escola foi fundada em 2016, por eles, em parceria com griôs aprendizes, educadores em formação e autores de referência em educação, educomunicação e cultura brasileira.

Líllian Pacheco em uma oficina de introdução á Pedagogia Griô na UnB

Líllian Pacheco em uma oficina de introdução à Pedagogia Griô, na UnB

A Pedagogia Griô teve início no Distrito Federal em 2005, quando ainda tinha apoio do Ministério da Cultura. “Com todas as questões políticas, foram cortados os auxílios financeiros que recebíamos e a partir disso diminuímos o nosso trabalho na capital. Ou seja, plantamos muitas sementes, e como foi um trabalho muito rico e que agregou muitas comunidades, decidimos retornar com o projeto em 2012, mas de forma independente”, relata Mariana Almeida, educadora.

Atualmente, a Pedagogia Griô está em seu 3° grupo de formação em Brasília que acontece na UnB, com 50 pessoas participando. O curso tem treze encontros, com término em  janeiro de 2019. Ainda não tem data prevista para iniciar nova turma.

A proposta é o diálogo entre a tradição oral e educação formal, entre comunidade e escola, entre todas as idades e espaços pedagógicos da comunidade, entre todas as raízes étnico raciais e colocar a identidade e ancestralidade no centro da roda da educação. Líllian Pacheco lançou dois livros, Pedagogia griô: a reinvenção da roda da vida e Nação griô: o parto mítico da identidade do povo brasileiro, ambos em formato digital e gratuito. Atualmente, Líllian Pacheco está desenvolvendo outra obra, aprofundando a Pedagogia Griô, como parte de uma nova tendência pedagógica do século 21.

O termo griô surgiu na região do noroeste da África. “Lá, a colonização foi francesa, por isso, os mestres eram chamados griots, que denomina figuras como contadores de histórias, genealogistas, mediadores políticos, comunicadores, cantadores e poetas populares. Os griots têm diversas formas de expressão, mas em comum são responsáveis pela biblioteca viva da tradição oral. Nós abrasileiramos o termo para criar uma metodologia de diálogo com as tradições orais das nossas comunidades. Assim, surgiu o griô”, explica Pacheco.

O intuito desse novo conceito pedagógico é universalizar os mestres detentores do conhecimento. “Há diversos mestres nas comunidades que usam a transmissão oral para manter a tradição. A tradição oral tem conhecimentos maravilhosos para a humanidade e guarda isso de forma que só pode ser passada de geração em geração. Por que não agregá-la, então, à tradição escrita utilizada na educação formal das escolas?”, questiona.

Trabalho sendo executado no curso de formação

Trabalho sendo executado no curso de formação

A tradição escrita é o conceito usado nas escolas brasileiras, que teve como base a colonização europeia. “Acredito que, como afrodescendentes, devemos valorizar mais a tradição oral, porque faz parte da nossa história como brasileiros. Muitas coisas que nossos antepassados viveram só poderão ser transmitidas pela tradição oral. Por isso, a figura do griô é tão importante”, explica a coordenadora.

Pacheco defende a ideia de que tanto a transmissão escrita quanto a oral devem ganhar seu espaço e dialogar entre si. Para ela, esse diálogo pode ajudar na melhoria da qualidade de ensino. “A Pedagogia Griô nasceu, sobretudo, da necessidade de diálogo entre as duas tradições. Muita coisa em uma pesquisa, por exemplo, não pode ser vista porque não somos treinados para entender a tradição oral nas escolas. Por isso, as duas devem ser casadas para que haja a absorção total do conteúdo.”

Para que ocorra o diálogo, há um processo em que o educador da escola e o griô da comunidade dialogam de uma forma mais significativa. “O griô sai caminhando, como acontece na África e em diversas aldeias indígenas, atuando como um livro, contando as histórias que ele sabe da comunidade, da maneira dele, que pode ser através de um canto ou de uma dança. Na tradição oral, o livro é o corpo. Esse processo pode ser adaptado de acordo com a realidade de cada escola”, conta.

Um novo olhar ancestral

Educadora, acupunturista, fitoterapeuta e aprendiz de parteira, Mariana Almeida, 31 anos, conta que a Pedagogia Griô a capacitou como profissional e aprendiz. “Esses conhecimentos são passado de forma mais humana, mais colaborativa e menos colonizada, algo que não é ensinado nas Universidades, como por exemplo o ofício de parteira. Não existe um curso específico, mas a Pedagogia Griô me capacita no sentido de que esse é o meu caminho ancestral”, explica.

Segundo Mariana, mesmo com todas as questões de receptividade vindas das escolas ditas como tradicionais, os saberes estão se espalhando. “Como educadora, parteira e erveira, comecei a introduzir esses conhecimentos em oficinas que ministro em escolas. Alguns locais são mais resistentes, outros me dão total liberdade, e tenho obtido bons retornos, principalmente por ser algo diferente do que é passado no cotidiano,” aborda.

A educadora griô Mariana Almeida no curso de formação em Pedagogia Griô ministrado na UnB

A educadora griô Mariana Almeida no curso de formação 

“É uma pedagogia de introdução, para qualquer um, não é necessário ser um educador. É um curso livre com foco em reconhecer a ancestralidade, a identidade e a partir disso encontrar o seu lugar no mundo, no sentido de valorizar os saberes e cultura do nosso país. Então independe da profissão, é mais uma questão de resgate”, conclui Mariana.

A Pedagogia Griô já atingiu, em média, um milhão de pessoas, em 130 Ongs e 130 escolas e universidades públicas, sendo uma delas a Universidade de Brasília – UnB. A formalização do conceito será feita através da Lei Griô, em tramitação no Congresso Nacional. A lei tem como principal mecanismo a oferta de bolsas de incentivo para os griôs, para que eles promovam o encontro de tais saberes com a educação formal por meio de encontros regulares de compartilhamento e troca de experiências de educação e cultura.

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