Saúde

Na saúde do DF, nem tudo é ruim

Em 2013, a cada 1.000 partos realizados no Hospital Regional de Planaltina 18 casos de mortalidade infantil eram registrados. Ao adotar práticas humanizadas nos procedimentos que envolvem gestantes, partos e bebês a unidade diminui seu próprio índice de mortalidade infantil

A Unidade Materno Infantil do Hospital de Planaltina DF (HRPL) chegou a um índice de mortalidade de 17.8 bebês a cada mil partos realizados em 2013. Em 2015, esse número caiu para 10, segundo informações fornecidas pela gerente de Assistência Multidisciplinar e Apoio, Maria do Socorro Nunes Aguiar. Ela é responsável por treinar e fiscalizar as metas do Ministério da Saúde para que sejam adotadas as práticas instituídas pelos decretos que estabelecem as normas humanizadas de procedimento. “Já caímos mais, através de todo um trabalho conjunto em relação as formas de trabalhar no parto e amamentação, o que impacta na qualidade de vida dos bebês. Ocupávamos os primeiros lugares, junto com Ceilândia, em índices de mortalidade infantil. Caímos muito. Hoje, estamos entre os melhores”.

Para combater o cenário preocupante o HRPL adotou a Portaria 1153/2014, que estabelece os critérios para considerar o hospital adequado para o Programa da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do Unicef para promover, proteger e apoiar o aleitamento materno. A Iniciativa Hospital Amigo da Criança – IHAC tem o objetivo de mobilizar os funcionários dos estabelecimentos de saúde para mudarem os procedimentos, condutas e rotinas responsáveis pelo desmame precoce. Para isso, foram estabelecidos os Dez Passos para o Sucesso do Aleitamento Materno. (Veja no box)

Outro critério é cumprir a Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças na Primeira Infância (NBCAL), que veta procedimentos e qualquer acesso de materiais como bicos, chupetas e mamadeiras, tudo que possa atrapalhar a amamentação.

Para ser amigo da criança, o hospital deve também adotar o CAM – Cuidado Amigo da Mulher, que proporciona um tratamento humanizado à mulher. Durante o pré-parto, parto e o pós-parto, deve garantir livre acesso à mãe e ao pai junto ao recém-nascido durante 24 horas. “A mulher não fica restrita ao leito, não se realiza procedimentos invasivos sem prévio consentimento da paciente, o acompanhante de livre escolha da paciente presencia todos os momentos”, diz Maria do Socorro.

Devido ao avanço da humanização o HRPL, em 2015, foi pauta na revista Ibero Americana como o hospital que mais capacitou profissionais, com 100% da equipe, mais de 500 servidores, em relação a sensibilização quanto a importância de atender os procedimentos humanizados preconizados nas leis e programas de incentivo dos procedimentos menos invasivos.

O IHAC proporciona benefícios para todos os envolvidos. A Secretaria de Saúde do Distrito Federal optou que todos os hospitais do DF sejam amigos da criança. Em 2017, o Hospital Regional de Planaltina foi referenciado um dos melhores hospitais amigos da criança do Distrito Federal. Outro diferencial é que se trata do único hospital que possui leito para todas as mães que têm seus bebês internados em UTI-Neonatal.

Segundo Maria do Socorro um dos grandes obstáculos para adotar as normas humanizadas foi a sensibilização da equipe quanto a entrada do acompanhante no parto, preocupações em relação ao preparo psicológico desse acompanhante, roupas hospitalares, segurança, pois o mesmo poderia ser facilmente confundido com alguém da equipe técnica. Para sanar o problema de identificação, foi criada uma roupa de cor vermelha dentro dos padrões do ambiente hospitalar. Ações para angariar fundos que possibilitaram a compra e confecção dos uniformes foram realizadas pelos próprios servidores.

Acompanhante uniformizada para assistir o parto de sua irmã

Acompanhante uniformizada para assistir o parto de sua irmã

De acordo com a profissional, muitos são os critérios que podem levar um hospital a não aceitar o acompanhante, como falta de estrutura, falta de bom senso, sensibilidade. “Outra situação é em relação aos procedimentos que podem ser necessários durante o parto, nem sempre vistos por uma pessoa leiga como uma manobra humanizada, mas que naquele momento foi necessária. Os procedimentos e manobras são preconizados dentro dos passos técnicos. Havia essa resistência por parte dos profissionais em relação a essa segurança”.

Segundo a enfermeira, presidente da comissão do IHAC do HRPL, Fernanda Viana, foi preciso realizar uma adequação para abrigar esses procedimentos humanizados. A gestante estar o todo tempo acompanhada foi a tarefa mais difícil. Um colete para evitar infecção hospitalar também foi criado. “O acompanhante usa o colete para segurar o bebê no colo, que geralmente encosta na roupa. Aquela pessoa pode ter vindo da rua, suada. Quando entra, já coloca um colete esterilizado e ao mesmo tempo a pessoa está identificada. Se não está com a roupa vermelha, que é do CO- Centro Obstétrico, roupa de paciente e não está com o colete, não tem, por exemplo, que sair com criança”, conta Fernanda.

A profissional explica que através do CAM também é preconizado que a mulher não fica mais de dieta zero. Será alimentada, no pré-parto, inclusive dentro do CO, levanta quando quiser, anda, usa bola para exercício de pilates, cavalinho, banho morno para acalmar, dança, tudo para ajudar na descida do bebê.

Enfermeira- Fernanda Viana. " No ano passado o HRPL deixaria de ganhar mais de cem mil reais se não estivesse seguindo as regras do IHAC”

Enfermeira Fernanda Viana: “No ano passado, o HRPL deixaria de ganhar mais de cem mil reais se não estivesse seguindo as regras do IHAC”

A servidora explica ainda que os hospitais adeptos às regras do IHAC passam por rigorosa fiscalização. No Brasil, os incentivos financeiros das instituições avaliadas são encaminhados para as Secretarias de Saúde. “O Ministério da Saúde encaminha verbas aos hospitais que são credenciados ao SUS. Se o hospital não for amigo da criança, deixa de ganhar um bônus encaminhado através do Ministério. No ano passado, o HRPL deixaria de ganhar mais de cem mil reais se não estivesse seguindo as regras do IHAC”, declara Fernanda.

As avaliações dos hospitais são feitas pelos próprios servidores da rede pública de saúde adeptos do programa, treinados pelo Ministério. Porém, esses servidores avaliam hospitais nos quais não prestam serviços.

Uma mãe experiente

Izeuda Martins, 37 anos, está hospitalizada no HRPL. Acabou de passar pelo sétimo parto e se diz experiente no assunto. Passou pelo procedimento de parto normal. Embora seu acompanhante, o pai das crianças, pudesse estar com ela todo o tempo a mãe preferiu que o marido permanecesse em casa, cuidando dos outros filhos pequenos. “Mesmo que não tenha precisado, saber que ele pode entrar aqui quando quiser e que poderia estar no momento do parto já me deu outra sensação”, diz Izeuda.

É a primeira vez que ela soube claramente que tinha o direito e que seria aceito acompanhante durante todo o tempo, pois as gestantes não realizam apenas as consultas regulares com os médicos. Elas e seus acompanhantes realizam visitas inclusivas com as equipes do hospital. Nessas visitas, aprendem e tiram dúvidas em relação a todos os procedimentos e direitos que possuem sobre o parto, conhecem outros servidores da equipe médica, como nutricionistas e assistentes sociais.

Ao ser questionada se sentiu alguma mudança no período em que está internada para dar luz ao sétimo filho a mãe declara: “Senti que as pessoas estão mais calmas. O meu filho ficou no meu peito por bastante tempo depois de ganhar. Todos esperaram ele mamar à vontade para depois levar e dar banho”, sorriu a mãe.

Dez passos para o aleitamento materno

1 - Ter uma política de aleitamento materno escrita que seja rotineiramente transmitida a toda equipe de cuidados de saúde. 6 - Não oferecer a recém-nascidos bebida ou alimento que não seja o leite materno, a não ser que haja indicação médica e/ou de nutricionista.
2 - Capacitar toda a equipe de cuidados de saúde nas práticas necessárias para implementar esta política. 7 - Praticar o alojamento conjunto – permitir que mães e recém-nascidos permaneçam juntos – 24 horas por dia.
3 - Informar todas as gestantes sobre os benefícios e o manejo do aleitamento materno. 8 - Incentivar o aleitamento materno sob livre demanda.
4 - Ajudar as mães a iniciar o aleitamento materno na primeira meia hora após o nascimento; colocar os bebês em contato pele a pele com suas mães, imediatamente após o parto, por pelo menos uma hora e orientar a mãe a identificar se o bebê mostra sinais de que está querendo ser amamentado, oferecendo ajuda se necessário. 9 - Não oferecer bicos artificiais ou chupetas a recém-nascidos e lactentes.
5 - Mostrar às mães como amamentar e como manter a lactação mesmo se vierem a ser separadas dos filhos. 10 - Promover a formação de grupos de apoio à amamentação.

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