Cidades

O giro dos movimentos sociais em torno da bike no Distrito Federal

A capital, projetada para automóveis, luta para ter uma mobilidade sustentável. Grupos de cicloativistas incentivam o uso da bicicleta como meio de transporte e fazem campanhas pela paz no trânsito

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Brasília, com relevo plano e clima favorável, seria cidade ideal para o uso da bicicleta.  A capital que lutou pela faixa de pedestres agora luta para garantir maior mobilidade urbana com o uso da bike. Comunidade e movimentos sociais são os protagonistas na batalha para uma relação mais educada entre pedestres, carros e bicicletas.

A capital federal é uma cidade que desenvolveu muitas ações para o uso da bicicleta, desde a entrada da Política Nacional de Mobilidade Urbana em 2012, lei considerada um avanço por incentivar a criação de sistemas de transporte acessíveis para a população. Com 428 quilômetros de ciclovias, considerada a maior do país, Brasília conta com a avaliação de sua malha cicloviária e debates para criação de novas vias a partir da relação de movimentos sociais e governo, além é claro, da campanha pela paz no trânsito.

Bruno Leite é coordenador de uma das principais ONGs de Brasília no incentivo do uso da bike.

Bruno Leite é coordenador de uma das principais ONGs de Brasília no incentivo do uso da bike.

Um desses movimentos sociais é o Rodas da Paz, já conhecido em Brasília. Nasceu em 2003 com o objetivo de reagir à violência e ao crescente número de acidentes e mortes no trânsito do Distrito Federal. Quem explica melhor sobre a ONG é Bruno Leite, coordenador geral da organização. Bruno explica que atualmente o Rodas trabalha em três frentes de atuação: a área de incidência política, que são basicamente conversas com o governo local, o incentivo ao uso da bicicleta e as ações sociais.

O coordenador cita o Doe Bicicleta como exemplo de ação social: “Recolhemos bicicleta de quem não está usando e quer doar. A gente dá a manutenção e faz a doação em uma instituição, geralmente uma creche ou para pessoas em situação de rua, no geral para quem está precisando”. O Rodas da Paz também criou uma escola de mecânica de bicicletas para pessoas carentes, fica em Vicente Pires, próximo ao Taguaparque. A organização recebeu um patrocínio da embaixada da Austrália, possui equipamentos e um professor e no fim deste primeiro semestre já forma a primeira turma, com entrega de certificado.

A ONG participa de audiências com o governo, dá sugestões em projetos de obras que não contam com a mobilidade adequada e cidades sem a malha cicloviária. Bruno comenta que a relação com o governo é boa, existem muitos avanços através dessa parceria, mas algumas situações simples ainda não são resolvidas, um exemplo delas é a conectividade entre as ciclovias. “Por exemplo, a ciclovia da Esplanada é segregada dos carros, podemos dizer que ela tem uma estrutura boa, mas falta a questão da conectividade. Na Esplanada mesmo, quando se chega perto do Congresso, você tem que voltar, se for adiante tem que se virar para achar outro caminho”.

 “O que tem que se criar na cidade, é Brasília ter orgulho da bicicleta.”

Bruno comenta sobre a dificuldade de mobilização da comunidade. “A comunidade tem que se organizar. Hoje em dia, a sociedade está desmotivada, está difícil mobilizar as pessoas em torno de uma causa”. Ele ainda lembra o poder que a comunidade tem. “Se a gente não estiver lá fazendo pressão, as coisas não vão sair. Quando a gente faz pressão, as coisas ainda saem tortas, se a gente não fizer fica bem pior”, lamenta. “O que tem que se criar aqui na cidade, é Brasília ter orgulho da bicicleta, nós somos uma cidade plana, com chuvas em determinadas épocas. Então eu acho que na verdade a cidade tinha que abraçar essa causa”, pondera.

O ciclista ativo Fábio Moraes também participa de ações em prol da mobilidade em Brasília. Foi um dos voluntários do estudo “Respeito à faixa de pedestre”, feito em 2018 por uma parceria da Universidade de Brasília (UnB), ONGs Rodas da Paz e Andar a Pé e o coletivo Movimento Ocupe o Seu Bairro (MOB). Também trabalhou em conjunto com uma empresa para o mapeamento das ciclovias em Brasília, um conhecedor das vias na cidade.

Fábio considera Brasília uma das melhores cidades para se pedalar – em comparação a outras capitais. Mesmo assim cita alguns problemas antigos. “A gente que pedala em Brasília sabe das condições das ciclovias. Temos muitas críticas a essas ciclovias, quanto à rota, ao material usado.” Ele fala sobre algumas ciclovias muito sinuosas e feitas com concreto que perde qualidade facilmente, exemplos de L2 Sul e Norte.

“Essas forças que os grupos de pedais vêm tendo, essa visibilidade, esses treinos de pelotão ajudaram muito no respeito dos outros motoristas com o ciclista aqui em Brasília.”

Ciclovias mal elaboradas e com falta de manutenção também fazem parte dos problemas entre ciclistas

Ciclovias mal elaboradas e com falta de manutenção também fazem parte dos problemas entre ciclistas

O ciclista há mais de 13 anos lembra do velho conflito com os motoristas. “Por conta dessas ciclovias sinuosas e rachadas, é preferível pedalar na borda da via do que em uma ciclovia dessas, dependendo da velocidade e tipo de bicicleta. E aí vem o conflito com os motoristas que não aceitam”, lamenta. Mesmo com um longo caminho e críticas, Fábio considera que a cidade mudou muito em todos esses anos.  “A cidade mudou bastante desde que eu comecei a me locomover entre as cidades satélites com a bicicleta. Essas forças que os grupos de pedais vêm tendo, essa visibilidade, esses treinos de pelotão ajudaram muito no respeito dos outros motoristas com o ciclista aqui em Brasília.”

A Secretaria de Mobilidade (Semob) do Governo do Distrito Federal informou em nota que foi lançado, em agosto de 2017, o Plano de Ciclomobilidade +Bike, que prevê a melhoria e a ampliação da infraestrutura cicloviária da capital, conectando as ciclovias já existentes e criando uma rede integrada para facilitar os deslocamentos dos ciclistas. Por meio do plano, foi contratado um diagnóstico com o objetivo de mapear as ciclovias existentes e identificar os problemas de conexão e de infraestrutura. Dessa forma, a Semob poderá reparar as falhas na malha cicloviária do DF.

 

Movimentos nos ensinam

Por meio de uma pequena busca, a reportagem encontrou cerca de 110 grupos de pedal em Brasília.  As modalidades são diversas:  vão desde pelotões para fazer trilhas, locomoção para o trabalho, pedal noturno e outros que ensinam até a andar de bicicleta.  Eles também incentivam o uso da bike e o respeito no trânsito.

O Caça Pedal, grupo formado em 2013 na cidade de Samambaia, tem um dia totalmente dedicado para ensinar a andar de bicicleta. O coordenador do pedal, Claudio Ferreira, explica que o grupo aborda diversos modos como trilhas, passeios turísticos e explica sobre o dia dedicado para ensinar crianças, chamado de pedal mirim. “O pedal mirim, que é um dos nossos focos principais, é voltado para crianças e suas famílias. Também para pessoas que estão aprendendo a pedalar”, explica. O dia para as crianças acontece todas as noites de quarta-feira nas ciclovias de Samambaia.

Ele conta que o grupo conta com cerca de 150 ciclistas ativos e a página do Facebook conta com mais de 3.500 seguidores. Quando questionado sobre a importância dos movimentos sociais para o ciclismo, Claudio desabafa. “Considero de extrema importância as ONGs voltadas para o esporte e ainda mais para o ciclismo. A ciclomobilidade precisa de muito mais que movimentos sociais. Ao meu ver, a tarefa do governo em prol da ciclomobilidade deveria ter um trabalho efetivo em todos os sentidos, desde movimentos, incentivos fiscais, ciclovias, educação no trânsito, movimentos em escolas, bares, restaurantes entre outras coisas”.

A rede Bike Anjo também promove os ensinamentos do pedal. Presente em 31 países e 657 cidades, inclusive Brasília, o Bike Anjo foi formado em São Paulo há cerca de 8 anos. A plataforma funciona de forma totalmente voluntária e espontânea. Você pode se inscrever em duas modalidades: “Quero ajuda para pedalar” e “Já pedalo e quero ajudar”. Além de ensinar os primeiros passos para andar de bicicleta, ela também promove guias para encontrar melhores rotas e táticas de como pedalar para o trabalho por exemplo. Segundo a própria rede, “Bike Anjo é uma rede de ciclistas apaixonados pela bicicleta que promove, mobiliza e ajuda pessoas a começarem a utilizar esse veículo nas cidades”.

 

Esplanada conta com incentivo para o uso da bike como meio de transporte

A bicicleta também é um bom meio de transporte para quem trabalha na Esplanada dos Ministérios. Além do fácil acesso com as ciclovias, alguns ministérios oferecem a infraestrutura necessária aos servidores para acomodar suas bicicletas, com bicicletários adequados e vestiários.

Vagner prefere o pedal em Brasília do que em sua cidade natal, o Rio de Janeiro.

Vagner prefere o pedal em Brasília do que em sua cidade natal, o Rio de Janeiro.

Vagner Silva, Subtenente da Força Nacional de Segurança, é um dos usuários do bicicletário. O carioca, que está há poucos anos em Brasília, pondera sobre a questão de se locomover na cidade. “Eu já pedalava no Rio de Janeiro e aqui é a questão de mobilidade, né? A gente tem mais facilidade de utilizar a bicicleta como meio de transporte. Eu vinha antes da reforma do bicicletário e depois da reforma dá uma motivação maior”, comenta. Além da facilidade do uso da bike, Vagner falou da economia de 50% no uso de combustível de sua motocicleta, no percurso do trabalho.

O Ministério da Justiça é um que conta com o bicicletário desde 2016. Segundo informações do próprio ministério, o espaço foi construído a partir de uma pesquisa identificando o número de pessoas que usam a bicicleta como meio de locomoção. O bicicletário fica localizado na garagem do edifício sede e conta com 24 vagas. Além disso, há vestiários com chuveiros e armários para que usuário possa guardar seus pertences.

Outros ministérios também contam com os bicicletários e vestiários como o Ministério das Cidades, Planejamento, Defesa, Minas e Energia, Transportes e Fazenda.

A iniciativa faz parte de uma ação conjunta chamado Projeto Esplanada Sustentável (PES). Os ministérios do Planejamento, Meio Ambiente, Minas e Energia e a Secretaria-Geral da Presidência da República tem como objetivo principal “incentivar órgãos e instituições públicas federais a adotarem modelo de gestão organizacional e de processos estruturado na implementação de ações voltadas ao uso racional de recursos naturais, promovendo a sustentabilidade ambiental e socioeconômica na administração pública.”

 

Você sabe a diferença entre uma ciclofaixa e uma ciclovia?

Geralmente utilizamos a palavra ciclovia para todas as vias que os ciclistas usam. Mas sabia que existe uma diferença entre várias delas? Elas podem levar o nome de ciclovia, ciclofaixa, ciclorrota, ciclovia operacional e espaço compartilhado.

A ciclovia é um espaço segregado para fluxo de bicicletas. Isso significa que há uma separação física isolando os ciclistas dos demais veículos. É indicada para locais com grande fluxo de veículos como avenidas e vias expressas. Aqui em Brasília podemos encontrar a ciclovia no canteiro central da esplanada.

A ciclofaixa é quando há apenas uma faixa pintada no chão, sem separação física de qualquer tipo. Ela é muito mais barata que a ciclovia, pois geralmente utiliza a estrutura da via existente, como acostamentos. É indicada para o trânsito menos veloz de veículos e pode ser encontrada em áreas como o Lago Sul e Lago Norte.

A ciclovia operacional é uma faixa exclusiva instalada temporariamente e operada por agentes de trânsito durante eventos, isolada do tráfego dos demais veículos por elementos canalizadores removíveis, como cones, cavaletes, grades móveis, fitas, entre outos. O Eixão do Lazer, evento realizado todos os domingos é uma delas.

O espaço compartilhado é uma das grandes lutas dos ciclistas hoje em dia. Pela lei, quando não houver ciclovia ou ciclofaixa, a via deve ser compartilhada (art. 58 do Código de Trânsito). Ou seja, bicicletas e carros podem e devem ocupar o mesmo espaço viário. Os veículos maiores devem prezar pela segurança dos menores respeitando sua presença na via, seu direito de utilizá-la e a distância mínima de 1,5m ao ultrapassar as bicicletas diminuindo a velocidade ao fazer a ultrapassagem.

A ciclorrota não é utilizada em Brasília, cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro utilizam bastante em suas ruas. De uso mais recente, o termo significa um caminho, sinalizado ou não, que represente a rota recomendada para o ciclista chegar onde deseja. Representa efetivamente um trajeto, não uma faixa da via ou um trecho segregado, embora parte ou toda a rota possa passar por ciclofaixas e ciclovias.

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