Educação

Pedagogia Waldorf

Criado há quase 100 anos, o método é um dos maiores movimentos educacionais independentes do mundo

Tags:
#Moara #Waldorf Euritmia Rudolf Steiner

Uma abordagem pedagógica que leva em conta as características individuais e procura ajudar o aluno para que ele seja a melhor pessoa que ele pode ser. Com essa premissa, o filósofo austríaco Rudolf Steiner criou na Alemanha, em 1919, a pedagogia Waldorf, hoje com mais de 1.060 unidades federadas no mundo, além de aproximadamente 5.000 jardins de infância em 64 países.

Por ser considerado um método de ensino alternativo ao preconizado habitualmente, a Secretaria de Educação estadual precisa dar aprovação à pedagogia Waldorf. A formação dos professores dura quatro anos e em Brasília os cursos são realizados trimestralmente, em cursos de imersão na metodologia. A escola Moara é a única federada Waldorf de Brasília, e iniciou as atividades há 18 anos como uma associação sem fins lucrativos, mais especificamente uma escola comunitária – termo que designa uma instituição educacional formada por grupos de pessoas físicas ou por uma ou mais pessoas jurídicas, inclusive cooperativas de pais, professores e alunos, que tenham em sua entidade mantenedora representantes da comunidade.

Antroposofia

A base dos conceitos educacionais do método Waldorf vem da antroposofia, também idealizada por Rudolf Steiner, e considerada pelo pensador como a “ciência espiritual” que aproxima a fé da racionalidade. Pode-se dividir a antroposofia em três âmbitos: o pensar, que tem a ver com aquilo que se sabe, com as informações adquiridas com as experiências do passado. O sentir: tem a ver com as emoções associadas ao âmbito anterior, o saber. E o querer, que traz o movimento e tem a ver com a força de vontade. “Se você começa uma pintura, um desenho, um tricô, uma peça musical, uma canção, uma dança de eurritmia, você exercita a sua vontade de ir até o fim, de concluir”, explica Elizabeth Ossegue, fundadora da escola Moara.

Euritmia, aliás, é um diferencial desenvolvido por Marie Steiner, esposa do criador pedagogia Waldorf. A disciplina consiste em movimentos corporais e da laringe. Os gestos das mãos sempre se relacionam a fonemas, que dão forma a poemas e textos coreografados. As aulas de euritmia são dadas do jardim ao nono ano, sempre com piano ou outros instrumentos musicais ao vivo.

Nesse método de aprendizagem estimula-se que as crianças reajam emocionalmente à novidade, seja amando ou odiando, mas nunca com neutralidade, porque indiferença não gera aprendizado. A questão do sentir tem a ver com o novo, por isso o professor traz pelo menos uma novidade por aula. A regra é que se o professor não gosta do que está ensinando, é melhor não fazer, já que automaticamente as crianças não vão aprender.

A percepção sensorial marcante é fixada na memória. Ao ensinar sobre números, o professor pode pingar chá em um conta-gotas na língua de uma criança para que ela conte o número de gotas. As outras crianças estão atentas, contando mentalmente. Da mesma forma, o som de uma flauta, ou de um sino. Os alunos de olhos fechados vão prestar atenção e dizer o número. “Aulas só no pensamento, no racional, no conteúdo, passam como vento na nossa cabeça”, explica Elizabeth.

Um elo de anos entre professor e alunos

Um dos grandes diferenciais do ensino Waldorf é a presença do “professor de classe”, algo que exige um chamado interno, pois não é uma tarefa simples: esse educador acompanha o desenvolvimento das crianças desde o primeiro até o oitavo ano, e é responsável pelas principais matérias. A “missão” demanda um constante aperfeiçoamento e aprendizado, que envolve abordagem artística com recitação de poesia, peças de teatro, etc.

Professora Elizabeth Ossegue, com os filhos, todos formados na pedagogia Waldorf: Thomas, Johanna (de vestido florido, também professora do método), Isadora, e a pequena Catarina (única que ainda é aluna da escola Moara)

Professora Elizabeth Ossegue, com os filhos, todos formados na pedagogia Waldorf: Thomas, Johanna (de vestido florido, também professora do método), Isadora, e a pequena Catarina (única que ainda é aluna da escola Moara)

O professor de classe sabe a dificuldade de cada criança e qual o dom que cada uma tem. Com essa percepção, ele prepara a aula do dia de modo a alcançar o aluno que está precisando de uma atenção especial naquela matéria, recorrendo também às habilidades dos colegas que podem ajudar. Existe um conhecimento em termos de desenvolvimento físico e emocional, o que permite identificar se o aluno que enfrenta um problema de aprendizado está conseguindo progredir em relação a ele mesmo, e não apenas comparando-se com os colegas de turma.

Há também o chamado “professor de matéria”, que ministra aulas como inglês, alemão, educação física, trabalhos manuais, música, marcenaria e euritimia. Ainda que essas disciplinas não tenham o “casamento de anos” com o mesmo educador, eles se beneficiam da íntima percepção que os professores de classe adquirem para conduzir da melhor forma cada turma.

O contexto ensina mais que as partes

Na pedagogia Waldorf não são abordadas disciplinas separadamente, há sempre um contexto que vai inspirar o aprendizado. O assunto “tempo”, por exemplo, vai incluir biologia, geografia (ciclo lunar, solar), matemática, português. As crianças saem da escola para conhecer as redondezas, os tipos de árvores, entendem os pontos geográficos, aprendem músicas e danças que trazem o conteúdo ao seu cotidiano.

No método Waldorf o jardim de infância, que dura três anos (4 aos 6 anos com a mesma professora), tem dois momentos distintos: o brincar livre dentro da sala e fora da sala. As crianças passam pelas fases de serem os mais novos da turma, os intermediários e os mais velhos e vão se apropriando do espaço e da responsabilidade de ensinar aos mais novos.

Cuidados com a tecnologia e alimentação

Aparelhos tecnológicos são proibidos e recomenda-se aos pais que não estimulem o uso em casa: crianças que tem excesso de estimulação virtual ficam alheias ao que está sendo dado em classe porque elas têm desenhos, filmes e vídeos “rodando” na cabeça o tempo inteiro. O aluno não consegue sentar, ouvir e fazer as coisas junto com os demais.

Na abordagem Waldorf acredita-se que uma criança saudável, de 0 a 7 anos, está em movimento, vivendo a realidade. Mais adiante, dos 7 aos 14 anos, essa mesma criança terá mais chances de estar entregue ao aprendizado porque acostumou-se a estar presente. “Quando ela está parada, fica prostrada, exatamente como ficam quando estão em frente à TV e ao computador ou um smartphone. O adulto consegue compreender que aquilo não existe aqui, mas existe em algum lugar; a criança não faz essa distinção. A presença tem a ver com autoconsciência”, explica Elizabeth.

A alimentação também recebe uma atenção especial: até o terceiro ano o lanche é coletivo, sendo que no maternal os pais levam os ingredientes e os professores preparam a comida na frente das crianças. É proibido salgadinhos de pacote, doces, biscoitos recheados e sucos de caixa. A partir do terceiro ano os alunos fazem pães e biscoitos toda semana na cozinha pedagógica e também costumam utilizar a cozinha para produzir lanches que serão vendidos no recreio para angariar recursos para viagens pedagógicas.

Provas formais não definem aprovação

No método Waldorf quase não há provas, à exceção dos últimos anos de formação na escola, mas ainda assim elas não são determinantes para que o aluno seja aprovado. A avaliação de fato é feita descritivamente, em um boletim que traça uma espécie de análise abrangente dos professores a respeito do desenvolvimento do aluno em todos os aspectos. É muito difícil haver reprovação porque o professor de classe acompanha ano após ano o processo de aprendizagem de maneira muito personalizada.

Outro princípio da metodologia é que o cotidiano do aprendizado precisa desenvolver um sentimento de pertencimento. A grande tarefa do professor não é a alfabetização, e sim formar o sentimento de unidade dentro da turma, de maneira que a criança fique com vontade de estar naquele grupo. Sentir-se útil resulta em uma grande ferramenta pedagógica nos anos vindouros, economizando tempo no aprendizado.

Um elo de generosidade

A tradutora e servidora pública Liana Tavares, 55 anos, tem uma história peculiar com o ensino Waldorf. Sua mãe, a enfermeira aposentada Bráulia Mattos, 82 anos, contratou uma funcionária há dez anos, Sueli Barbosa. Quando Sueli ainda estava em período de experiência, engravidou. Liana sugeriu que a mãe a dispensasse, já que Bráulia tem artrite reumatoide e precisaria de uma pessoa que não estivesse com um recém-nascido. Bráulia, no entanto, decidiu contratar Sueli, temendo que a moça não conseguisse emprego naquelas condições.

Os anos se passaram e hoje Sueli tem quatro filhos, todos morando com Bráulia: João Guilherme (9 anos), Lucas (8 anos), Júlia (6 anos) e Maria Alice (1 ano e 8 meses). Quando completou dois anos e meio, Bráulia decidiu colocar João Guilherme na escola Moara, pois é próxima à sua residência e tinha informações muito positivas sobre o método Waldorf. Lucas e Júlia também foram matriculados, mas com o tempo o custo das mensalidades pesou. Bráulia manteve apenas João Guilherme, e os outros irmãos foram matriculados em escola pública.

Bráulia, Liana e os filhos de Sueli (João Guilherme ao centro): ensinamentos para a vida

Bráulia, Liana e os filhos de Sueli (João Guilherme ao centro): ensinamentos para a vida

A alfabetização diferenciada pesou na decisão de manter João Guilherme mais tempo na escola: no ensino tradicional a criança aprende no primeiro ano de alfabetização a escrever em caixa alta, letra minúscula de imprensa, e a letra cursiva. Já na pedagogia Waldorf essa fase dura três anos, sendo que no primeiro ano as crianças não aprendem a ler e escrever. “[o método] respeita muito a evolução da criança e o processo de alfabetização não é tão rápido. Achamos que se ele saísse agora, no meio do processo, teria dificuldades de se adaptar e se sentiria muito frustrado, pois o nível de leitura não é o mesmo das outras crianças”, explica Liana.

A servidora diz que admira a ênfase nas qualidades humanas do método Waldorf. Emoção, sentimento, cidadania, convívio e independência são priorizados em detrimento de “encher” a cabeça da criança com conhecimento formal. Ela diz que o ensino é feito na vida, algo que a encantou, pois nunca se sentiu motivada a estudar pelo método convencional. Liana já conheceu outras unidades Waldorf, uma em Botucatu, São Paulo, e quatro em Barra Grande, na Bahia, onde 70% das crianças são bolsistas.

Ao relembrar o aprendizado de João Guilherme, Liana conta que no terceiro ano as crianças estudaram tipos de habitação diferentes e construíram uma casa de barro infantil, em uma chácara de uma comunidade mais pobre. Fizeram a fundação, levantaram as paredes, chaminé, além de uma horta, de onde comeram do feijão plantado. Todo trabalho realizado foi oferecido para as crianças do local. “É uma coisa impressionante, ligada à terra, aos elementos, aos sentimentos. É uma metodologia que seria maravilhoso se todas as crianças pudessem ter acesso”, conta.

Festa da Lanterna: a luz interna que cada um tem em si pode se somar e virar uma luz comunitária

Festa da Lanterna: a luz interna que cada um tem em si pode se somar e virar uma luz comunitária

Liana lamenta que os outros filhos da funcionária da sua mãe não puderam permanecer na escola, pois é ressalta-se a noção de cuidado que João Guilherme tem com os mais novos e o respeito com os mais velhos. Outros aspectos que ela admira é que meninos e meninas fazem trabalhos manuais, sem a divisão social que é criada, além do cuidado com a parte espiritual. No entanto, Alice avisa que a pedagogia Waldorf precisa da participação ativa dos pais ativamente no processo, pois eles precisam ser tocados pela visão diferenciada de mundo – do contrário, é dinheiro jogado fora.

Antes de finalizar a entrevista, Liana lembrou-se da Festa das Lanternas, pois sintetiza o que a metodologia Waldorf se propõe. Ela conta que as crianças confeccionam as lanternas com ajuda dos pais e é uma cerimônia lúdica, muito bonita. “Eles desligam as luzes da quadra e as crianças seguem naquela procissão e cantam uma música que diz ‘a minha luz se acendeu e o sol agora sol eu’, um incentivo para a pessoa ser a própria luz no mundo”, conta.

 

Fases de ensino no método Waldorf

Movimento: 0 aos 7 anos.

Sentir: 7 aos 14 anos (técnicas artísticas, com repetição e progressão).

Pensar: 15 aos 17 anos. Inserção do adolescente no ensino médio, de forma bastante orgânica.

    Notice: Tema sem comments.php está obsoleto desde a versão 3.0 sem nenhuma alternativa disponível. Inclua um modelo comments.php em seu tema. in /var/www/publicacao/jornalismo/site-root/wp-includes/functions.php on line 2957

    Deixe uma resposta

    Cultura
    O taxidermista César Leão em seu ambiente de trabalho Brasília conta com dois museus de taxidermia
    Ciência e Tecnologia
    Telescópio do Planetário de Brasília Descubra qual a possibilidade de um meteoro atingir a Terra
    Esporte
    IMG_4988 Distrito Federal pode ser representado no skate na próxima Olimpíada

    Mais lidas