Meio Ambiente

O berço está secando

Qual é o futuro da água na região considerada o berço das águas?

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Brasília meioambiente preservação sustentabilidade

Entre o céu azul que parece tocar o lago Paraná e os ipês amarelos, existem os brasilienses que se encontram, reencontram e criam correntes fortes, mas discretas, em defesa da sua Brasília. Seja pela falta de olhar ou conhecimento, as ações de brasilienses persistentes e esperançosos de dias melhores passam despercebidas à maioria.

O ambientalista e ativista ambiental Thiago Ávila foi um dos coordenadores do Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA). Sua forma de discorrer sobre os direitos dos povos água estava impressa no clima do evento, que aconteceu em março deste ano. Envolvido em projetos como o Mutirão de Bioconstrução, que está construindo moradias sustentáveis com sistema de reuso da água usada nas casas, Thiago conta que quando se trata de problemas ambientais como a escassez de água os povos mais pobres são os mais afetados. “A questão ambiental se mostra de forma mais agressiva a partir das desigualdades. Nós tivemos um processo de racionamento de água muito grande no Distrito Federal, e as regiões mais afetadas são as mais precarizadas.” As casas construídas pelo mutirão serão destinadas aos integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MTST).

Acervo pessoal: Thiago Ávila

Acervo pessoal: Thiago Ávila

Ciente dos problemas e desafios que Brasília tem, o ativista se mostra otimista em relação às mudanças que a cidade é capaz de promover através da mobilização social. “O processo de debate ambientalista sempre foi muito focado em uma classe média com alguns privilégios e isso desarticulou pessoas que poderiam estar pensando em perspectiva popular. Esse é um debate também dos povos mais pobres porque são os mais afetados. Nós precisamos pensar em uma solução agroecológica para a cidade e para o campo e isso passa a partir das periferias onde estão as pessoas e onde as contradições desse modelo de injustiça.”

Mudar a realidade, criar conscientização e criar agentes transformadores parece ser o princípio que norteia muitas ações que acontecem na cidade. Se cada cidadão é um agente transformador do ambiente em que vive, esse potencial se torna mais forte em pequenos cidadãos, ainda em formação, como é o caso das crianças do Jardim de Infância da 404 Norte, que têm através de um projeto de reuso da água da pia e bebedouro, exemplos diários de valorização e uso consciente da água.

Em 2017, após o início da crise hídrica em Brasília, a escola recebeu um documento da Secretaria de Educação informando que a horta escolar seria desativada devido ao racionamento. A tão querida horta dos alunos, como descreve a diretora Rosimara Moreschi, no comando da escola há 15 anos: “Nós resolvemos buscar uma alternativa por causa das nossas crianças que adoram a horta e seria muito ruim não termos mais esse espaço. Então surgiu a ideia de fazer coleta da água do bebedouro e pia para irrigar a horta”.

Iniciativas como a da escola contam com o apoio e participação da comunidade para sair do papel, e foi assim juntando forças que a escola teve a permanência da horta garantida. Parte dos recursos utilizados no projeto foi doado pelos pais das crianças, que também supriram com a mão de obra especializada, um avô bombeiro hidráulico e o vigia da escola com conhecimento em irrigação.

Jardim de Infância 404 norte

Jardim de Infância 404 norte

As crianças mostram na convivência diária com Rosimara que a pouca idade não significa pouco entendimento, na verdade a capacidade de integrar ao dia-dia uma responsabilidade no uso da água é ensinada pelos próprios pequenos aos funcionários da escola. “Um dia os servidores estavam lavando o pátio da escola e as crianças foram à minha sala reclamar que eles estavam gastando água, então a consciência deles está muito altiva, e eles conseguem visualizar aquilo que tem que ser”. As crianças precisaram ser explicadas que o pátio precisava ser lavado ao menos uma vez na semana, mas não sem antes a diretora garantir que procurariam economizar o máximo de água possível.

 

Mais crescidos e cientes dos problemas ambientais causados pelo mau uso da água, os alunos do Centro Educacional 07 (Ced 07) da Ceilândia foram os envolvidos na construção das cisternas de ferrocimento, que desde 2015 captam e armazenam 60 mil litros de água da chuva nos três reservatórios. A água captada é usada na irrigação da horta escolar, que fornece ingredientes para o lanche dos alunos e para a limpeza da escola.

O professor de ciências Werner Bessa Vieira conta como foi a inciativa para o projeto: “A iniciativa se deu por meio de um ex-aluno nosso, estudante de engenharia, estava perto de se formar e como TCC propôs fazer esse projeto. Na época tivemos a participação dos alunos do terceiro ano com a mão de obra, todos abraçamos o projeto. ”

O ex-aluno da escola é Mário Silva, que teve a ideia como projeto final do curso de engenharia. Ele fala da importância de desenvolver esse projeto junto à comunidade: “Os alunos puderam ver que [e uma técnica acessível que pode ser feita até mesmo em casa”.

A técnica usada na construção das cisternas, ferrocimento, tem uma vida útil em média de 50 anos se comparada a estrutura de uma cisterna feita de plástico que de acordo com o Especialista em Tecnologias Apropriadas, Arnaldo Ribeiro, além de gerarem mais resíduos no descarte, custam em média 20 mil reais.

O custo total da construção das 3 cisternas na escola foi de 9 mil reais. Todo o recuso usado para a construção dos reservatórios foi levantado a partir de eventos realizados na escola com a venda de lanches e realização de jogos que contou com a participação da comunidade local.

Viver sem o fornecimento de água da Companhia de Abastecimento de Brasília (Caesb) parece uma situação inimaginável para a maior parte dos brasilienses que sofrem há mais de um ano com o racionamento. Armazenar água em baldes se tornou hábito para garantir reserva de água, quando muitas vezes a falta de água chega a se estender por até 48 horas em algumas cidades do DF.

Para o bioarquiteto e permacultor Sérgio Pamplona, dono do Sítio Nóis na Teia, onde vive há 20 anos sem fornecimento de água da Caesb, o racionamento não afetou sua rotina nem a dos outros moradores da Fazenda Taboquinha, localizada entre o Jardim Botânico e São Sebastião.

De onde retirar água em uma área de terreno pedregoso, se a água encanada não chega, ela também não está presente no subsolo? Afinal, viver sem água não é possível.

Esse foi o desafio de Sérgio, que se propôs, há quase duas décadas, a viver utilizando água da chuva. Ao longo desse tempo construiu uma estrutura que conta com sete reservatórios de água que recolhem a água da chuva través de calhas ligadas a um encanamento que supre a capacidade de 185 mil litros dos reservatórios.

Sérgio Pamplona

Sérgio Pamplona

O bioarquiteto conta que viver dessa forma faz com que se tenha sempre conhecimento da quantidade de água que dispõe. “Como a gente sabe quanta água nós temos para atravessar a seca, mas nunca sabemos quanto tempo a seca vai durar, nós tentamos economizar ao máximo. Temos o sanitário seco, onde o material desce para uma estrutura e lá a própria estrutura favorece o aquecimento fazendo com que o calor elimine vários patógenos. A descarga, que é apontada como a responsável 40% da água usada em uma casa, aqui isso não acontece”.

Na casa de Sérgio vivem ele, a esposa Mônica e mais dois amigos. Segundo Sérgio, cada pessoa utiliza em média 40 litros de água por dia, para higiene, limpeza e alimentação. Isso é três vezes menos que a média da população do DF consome e do que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda para garantir água no futuro. Essa economia de água acontece porque toda água usada no banho e lavagem de louças é reaproveitada para irrigar as plantas, que são muitas.

As fotos do terreno quando a casa ainda estava sendo planejada, não parecem o mesmo local de hoje. A paisagem de terreno escarpado e pedregoso foi cedendo ao longo dos anos espaço para o verde do Pau-Brasil, Jatobá e Palmito Juçara que são cultivados no terreno de Sérgio, a casa à primeira vista mal se consegue visualizar por estar escondida diante da vegetação do local.

A tentativa de  adaptação para reproduzir um pouco da autonomia de Sérgio em relação a água é um ponto que faz a diferença na relação com a água e conservação desse bem público. O arquiteto aponta medidas simples que podem ser tomadas utilizando pouco recurso financeiro. “É possível de forma simples instalar calhas e pôr embaixo dela uma caixa d’água de mil litros ou até uma estrutura com duas caixas d’água empilhadas e assim você consegue manter durante o período da chuva, dois mil litros de água que já vão ter um impacto ambiental de você não precisar usar água da Caesb”. Nessa possibilidade levantada por ele, entra ainda a questão financeira, pois mesmo após passar o período de chuvas o resultado terá sido uma economia por alguns meses utilizando a água captada para necessidades diárias como limpeza de casa, roupa e até higiene pessoal.

A reflexão do porquê onde tem pessoas, a água está sempre suja é algo válido para repensar a relação com esse bem. Olhá-la como um produto limita a compreensão dos recursos hídricos como um bem finito, que se não poupado e preservado vai ser cada vez mais escasso em boas condições de uso.

As realidades são diversas na população do DF, mas dentro de cada realidade o uso consciente da água pode e deve ser inserido na rotina dos brasilienses. Dentre medidas simples e técnicas de captação de água, talvez a mais importante seja a modificação do olhar sobre a água. Pois, se o futuro da água em Brasília é uma questão discutida por especialistas e entidades governamentais, mudar esse futuro passa por cada brasiliense que se propõe a aplicar no dia-a-dia a consciência que a água é um bem de todos. Seja através de medidas pessoais para o uso da água, seja para aqueles que ampliam suas ações para a conscientização coletiva.

 

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