Saúde

Endometriose e a dificuldade de diagnóstico

Cerca de 7 milhões de mulheres sofrem com a doença no Brasil

Desde que ficou menstruada pela primeira vez, sentiu dores intensas. Faltava aula no ensino médio e na fase adulta as cólicas ficaram mais fortes. Foi assim que tudo começou para a contabilista Leliana Pereira Mascarenha, 42 anos. Foram várias idas ao hospital para entender o que estava acontecendo. Na época, os médicos solicitavam exames não específicos. “Nenhum médico descobria o que eu tinha, fiz exame de tudo, acharam que era intestinal. Foram quase 10 anos para ter um diagnóstico de endometriose”, desabafa a contabilista.

Com 33 anos fez a primeira cirurgia em que tirou o ovário esquerdo e uma das trompas, além de focos da doença na bexiga, no intestino e nos rins.

Dores fortes desde a adolescência, muitos anos sem diagnóstico, diversas cirurgias, parte de órgãos retiradas, dificuldade para engravidar, muita incompreensão social e dificuldade de tratamento. Essa é a realidade de mulheres que sofrem com a endometriose. A doença é caracterizada pela presença de tecido do endométrio, que reveste internamente o útero, em locais como ovários, bexiga ou nos intestinos, por exemplo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são cerca de 7 milhões de mulheres portadoras só no Brasil.

De acordo com o médico ginecologista e especialista em reprodução humana Jean Pierre Barguil Brasileiro, é uma patologia que mexe muito com o emocional feminino. Segundo o ginecologista, o diagnóstico da endometriose é feito em etapas. A primeira é a avaliação da história da paciente, também conhecida como anamnese. São avaliados sintomas clássicos, como dores na região pélvica, cólica menstrual e desconforto na relação sexual, além da infertilidade.  A segunda etapa é o exame ginecológico, quando o especialista faz uma detalhada verificação das condições do útero, ovários, tubas e ligamentos uterossacrais, para observar possíveis alterações anatômicas e lesões típicas da doença. Após a avaliação clínica, pode ser necessária uma complementação com exames de imagem necessários para o mapeamento da endometriose, como o ultrassom transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética.

“O principal sintoma na endometriose é a cólica menstrual, também chamada de dismenorreia”, afirma Jean Pierre. Ele acrescenta ainda que o não tratamento pode levar ao aumento progressivo dos sintomas de dor pélvica e da própria doença. “As pacientes são afetadas pela endometriose na sua fase reprodutiva e o não tratamento correto pode comprometer o futuro reprodutivo das mesmas.”

De acordo com o ginecologista Carlos Portocarrero, a dificuldade no diagnóstico se dá por fatores culturais, quando por exemplo a família minimiza as queixas de cólicas da paciente dizendo que são normais. “Nós médicos também fazemos isso quando não valorizamos as queixas, por falta de informação ou atualização.” Ele completa dizendo que a média de tempo para um diagnóstico no Brasil é de 7 a 8 anos desde a primeira consulta.

Segundo o ginecologista Alysson Zanatta outro fator é a dificuldade de acesso a médicos ginecologistas especialistas, que às vezes faz com que muitas mulheres mesmo com ultrassonografias fiquem sem diagnóstico.

Para Zanatta, os tratamentos são variados. Para conter casos de dores fortes são prescritos medicações hormonais e medidas auxiliares, como atividade física, nutrição e acupuntura. “O tratamento definitivo é a remoção cirúrgica de todos os focos de endometriose, por videolaparoscopia (procedimento de endoscopia por meio de videocâmara), que é o tratamento mais efetivo. Em relação à infertilidade, há opção de tratamento com técnicas de reprodução assistida em clínicas de reprodução humana.”

 

Elas enfrentaram a dor desde cedo

Para a profissional de Relações Internacionais Patrícia Broda, 30 anos, as cólicas menstruais começaram cedo, por volta dos 15 anos. Com 18 anos, as dores se tornaram muito fortes e, segundo ela, os remédios analgésicos já não funcionavam mais. “Todos diziam que era normal toda mulher sentir cólica”, relata Patrícia. Foi em vários médicos, mas nunca houve uma investigação para descobrir o porquê das cólicas. Quando ela descobriu a doença tinha agredido os ovários e com isso teve que retirar parte deles. Por conta da cirurgia que retirou seu ovário, Patrícia teve que recorrer a fertilização in vitro (FIV) para engravidar.

A veterinária Raquel Meneses, 29 anos, desde os 13 anos já ia para emergência do hospital com dores de cólica menstrual, pois desmaiava na rua. “Todo mês eu ia para o hospital”, relata Raquel.

Raquel foi demitida do trabalho pelas faltas por causa de dores. “A gente escuta que cólica é frescura.” Procurou diversos médicos em busca de tratamento e como muitas mulheres teve que se submeter a cirurgia para retirada dos focos de endometriose, mesmo assim a doença não foi curada, pois a cirurgia retira os focos, mas não impede que eles retornem.

Depois de todas as dificuldades vividas em busca de tratamento Patrícia e Raquel sentiram a necessidade de criar uma comunidade virtual para ajudar mulheres que estava passando pela mesma situação e se sentiam perdidas. Assim surgiu o grupo no Facebook Endometriose Brasíliapara portadoras que conta com 343 membros.

No grupo, que é fechado apenas para as mulheres portadoras da endometriose, é possível visualizar uma tabela atualizada com nomes de médicos especialistas na área e telefones. As participantes trocam informações sobre qual exames devem fazer, qual profissional devem buscar, o que os planos de saúde cobrem, onde buscar atendimento no serviço público de saúde.

“A ideia é ajudar mulheres que estavam na mesma situação que a gente”, destaca Raquel.

A personal organizer Monique França, 31 anos, que é participante do grupo ainda se recupera da cirurgia de endometriose, videolaparoscopia, que fez a pouco mais de 40 dias. Foram 18 anos para conseguir um diagnóstico e quando conseguiu o quadro da doença estava bem avançado.

Para Monique foi um sofrimento que poderia ter sido evitado. “A gente não deve aceitar o discurso de que é normal sentir dor temos que insistir e buscar o médico que saiba orientar da forma certa.”

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