Entrevistas

A professora que enaltece e conta a história de mulheres inspiradoras

Conheça o perfil de Gina Vieira, a menina negra que transformou a vida de muitos jovens por meio da da educação e da persistência

Ser mulher, negra e pobre em um país racista, machista e que nega oportunidades aos que estão à margem da sociedade não é fácil. A professora Gina Vieira sabe bem o que é isso. E foi nesse cenário que ela rompeu barreiras, encantou-se pelo mundo das letras e hoje usa a profissão para atrair e emancipar outras pessoas, por meio de histórias que inspiram. Nesta entrevista, ela lembra a própria história, destaca o papel de quem a despertou e o caminho que trilhou e mantém aberto para os alunos a quem se dedica.

Gina Vieira, criadora do projeto e escritora do Livro "Mulheres Inspiradoras"

Gina Vieira, criadora do projeto e escritora do Livro “Mulheres Inspiradoras”

O que te motivou a ser professora?

A minha motivação de ser professora começa com o fato de eu ter um pai não alfabetizado e uma mãe que só estudou até a quarta série tardiamente. O fato dos dois não terem acesso à educação me impactou profundamente. E o que me inspirava era a narrativa deles sobre a escola. Meu pai falava que no dia que eu entrasse na escola eu venceria tudo e ganharia o mundo. Não iria existir barreira para mim. E na escola eu sofria um racismo muito marcante. Eu achava que lá eu não iria sofrer e foi aí que eu me enganei. E lá eu decidi ser invisível para me proteger e com isso cheguei à segunda série sem saber ler, mas tive a sorte de encontrar uma professora negra, a Creusa Pereira. Ela me percebeu. Essa professora me colocou no colo e foi um marco muito importante na minha vida. O afeto e o carinho só existiam para as meninas brancas. E a minha vontade surgiu disso, de dar para outras crianças e jovens essa oportunidade que a Creusa me deu. Graças a ela eu ressignifiquei o olhar que eu tinha sobre mim mesma e tomei a decisão de ser professora aos 8 anos de idade.

Qual a melhor parte de ser uma educadora?

É olhar para o meu passado e olhar para minha grande fonte de inspiração que é a minha mãe. Ela desde cedo me convenceu do valor da educação na minha vida, na narrativa dela ela não falava em estudar para ganhar dinheiro. Ela falava em estudar para ser uma pessoa melhor. E as minhas ambições sempre foram ligadas em ser a melhor profissional que eu poderia ser e ser uma professora capaz de provocar transformação. E ser professora é isso, ter um papel como um agente de mudança, não tem trabalho mais importante do que esse.

Conte um pouco sobre a sua luta como mulher negra na sociedade.

Pensando nessa questão da minha identidade negra me faz pensar sobre mim mesma. Eu sempre ocupei o lugar de fala de mulher negra. Sempre me entendi como mulher negra e a sociedade te lembra disso o tempo todo, com coisas do tipo: “Ah seu cabelo é de Bombril, boneca de pinche”. Você é o tempo todo lembrada que você é uma mulher negra. Após o meu projeto “Mulheres Inspiradoras” eu passei por uma transformação enorme. Em 2014 você vai me ver de cabelo super alisado, porque na universidade eu me senti constrangida a alisar, eu era a única mulher negra na turma e eu ouvia: “Nossa você tem até um rosto bonito, mas esse seu cabelo né”. E aí quando eu entrei em contato com a literatura de mulheres negras, em especial a Cristiane Sobral, eu tive um desejo muito grande de despertar minha negritude, o projeto me mudou muito. Essa escritora me fez ver pela primeira vez que meu cabelo representado de uma forma não pejorativa, ela compara os cabelos negros com coroas. Todos os dias eu consigo compreender o que é ser uma mulher negra dentro de uma país racista e machista.

Como decidiu criar o projeto “Mulheres inspiradoras”?

Eu acompanhava meus alunos nas redes sociais e em um momento eu vi um vídeo de uma menina de 13 anos com um enorme apelo erótico. Ela tinha sido minha aluna, era uma menina negra que morava na comunidade e eu pensei no momento em que ela poderia ser minha filha ou minha sobrinha e aquilo me despertou. No vídeo tinha uma música extremamente depreciativa com a figura da mulher. Ela usava uma roupa que deixava o seu corpo em evidência e a coreografia que ela fazia era muito erotizada. Ela não tinha consciência do que estava fazendo e ela não imaginava nem a metade dos riscos que estava correndo. Desse cenário eu fui fazer pesquisas para entender o motivo daquele comportamento. Com isso descobri que nós mulheres somos criadas dentro de uma lógica que faz a gente acreditar que o nosso valor como mulher está associado em como nós podemos ser sexualmente desejadas e o quanto a gente corresponde a determinado padrão estético. Somos feitas a acreditar que somos menos capazes que os homens.

Como funcionou o projeto?

O projeto tem como princípio celebrar grandes personalidades femininas tanto para as meninas quanto para os meninos, para que eles possam repensar a imagem que eles têm da mulher, para que eles possam ver as mulheres a partir de outra perspectiva.  E o projeto teve algumas ações principais que foi ler 6 obras de autoria feminina e com isso eu pedi para que os alunos depois escrevessem para mim um texto sobre a mulher inspiradora da vida deles. Eles foram muito sensibilizados e fizeram as entrevistas com essas mulheres. E eu notei que a maioria deu esse título para mãe ou avó e esse projeto fez com que eles derrubassem essas lacunas e conhecessem a história dessas mulheres. Então, eles foram a campo e geraram a história delas por meio de entrevistas, pegaram a transcrição daquela entrevista e transformaram em um texto autoral. Eles voltavam muito transformados e impactados dessas entrevistas, com o olho brilhando, peito estufado e com a consciência de que a mãe deles era mais inspiradora do que eles imaginavam.

Gina mostra o livro "Mulheres Inspiradoras"

Gina mostra o livro “Mulheres Inspiradoras”

Como surgiu a ideia de escrever o livro?

Eu li mais de 150 entrevistas e fiquei muito impressionada com tudo aquilo que eu estava lendo e então eu percebi que era um material muito precioso para ficar guardado e decidi transformar em um livro, era bom demais para só eu ter acesso. E no dia Internacional da Mulher lançamos o livro com histórias de mulheres da Ceilândia, contadas pelos seus filhos, netos e bisnetos. Eu também coloquei histórias das mulheres inspiradoras da minha vida e da vida de outros professores. E após o projeto a gente se surpreendeu com o impacto do projeto na vida daquelas mulheres. Elas não acreditavam que eram mulheres inspiradoras quando se viram no livro, elas pensavam: “Eu? Uma mulher diarista, negra e periférica posso ser uma inspiração par alguém?” Elas fazem uma revolução silenciosa sem nem se darem conta, um trabalho absurdo, elas têm uma resistência extraordinária por serem mulheres. Essas mulheres têm muita força, muita resistência, então essa narrativa de que somos “frágeis” é a maior mentira. Nós parimos nossos filhos, garantimos a eles a sobrevivência deles e garantíamos a manutenção da vida deles e isso é a coisa mais preciosa que podemos pensar. O que é mais precioso do que garantir a manutenção da vida?

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