Cultura

Vai ter mulher, sim: a importância da imagem feminina no cinema

Em meio às polêmicas de filmes como “Capitã Marvel”, no qual as críticas se devem ao fato de haver uma super heroína em foco, entenda qual é a real necessidade deste tipo de representatividade

O mundo não é feito apenas de homens e o estrondoso sucesso de bilheteria de Capitã Marvel, dos estúdios Marvel, que lucrou US$ 455 milhões ao redor do mundo apenas em seu fim de semana de estreia, ilustra bem o fato de que as mulheres não desejam apenas serem ouvidas, mas também querem ser vistas.

As pessoas se sentem influenciadas pelo o que elas veem na tela. Patrícia Colmenero, doutora em cinema e docente no Centro Universitário IESB, argumenta, por exemplo, que “uma pessoa negra que se vê sendo representada apenas como empregada doméstica ou membro de classe média baixa, pode acabar pensando que aquilo é tudo o que a vida reserva para ela, desestimulando-a a buscar por mais”.

Patrícia ainda questiona a real representatividade dentro de Capitã Marvel, reconhecendo a sua importância ao mostrar que mulheres podem ser fortes heroínas, mas apontando que a figura feminina é apresentada de maneira distorcida, pois a personagem do filme é “magra, branca e loira”. Ela ainda acrescenta que “o que realmente precisamos é de uma pluralidade de vozes e sermos representadas com real diversidade”.

Alunas do curso de psicologia do UniCeub (Centro Universitário de Brasília) em encontro organizado pelo coletivo Helenas.

Patrícia Colmenero, do IESB, e alunas do curso de Psicologia do UniCeub (Centro Universitário de Brasília) participam de encontro organizado pelo coletivo Helenas

A estudante de cinema no Centro Universitário IESB Isabella Alves reconhece a apresentação de uma personagem com uma aparência “padrão” como protagonista do filme, mas manteve um ponto de vista positivo, alegando que “para quem não tinha nenhuma heroína forte sendo representada de forma correta, esse já é um tremendo avanço”.

Isabella também é co-fundadora do coletivo Helenas, um grupo criado por mulheres para mulheres com o propósito de prestigiar filmes femininos, promovendo sessões de cinema cujos pré-requisitos para as escolhas das obras cinematográficas apresentadas são: terem sido produzidas e protagonizadas por figuras femininas, resultando em uma obra com boa representatividade.

O antropólogo e docente do Centro Universitário IESB Cláudio Ferreira destacou o fato de que o cinema é uma indústria capitalista que visa o lucro, de maneira que pode-se concluir que a razão de serem feitos mais filmes com o foco na mulher, é porque há quem consuma essas obras. “Essa é a jogada do capitalismo, ao mesmo tempo em que ele lhe dá um lugar de fala, também está criando um produto”, afirma.

Entretanto, ter um público considerável que pediu pela criação desse filme não impediu que se criassem polêmicas em torno dele, chegando ao ponto de haver fãs de filmes de super-heróis com iniciativas em suas redes sociais de boicote, mal sucedido, à nova obra cinematográfica da Marvel.

Daniel César, estudante de secretariado executivo na faculdade Upis, opina que a polêmica em cima do novo filme da Marvel é desnecessária por “não forçar o feminismo, como acontece em outros filmes ou séries”. Para dar voz ao seu argumento, Daniel aponta a série televisiva Supergirl, da emissora americana CW, como um exemplo “forçado” de representatividade ao abordar o tempo inteiro a feminidade da protagonista como uma fraqueza.

Ao ser questionado sobre o motivo pelo qual considerou tal representação eficaz em Capitã Marvel, Daniel respondeu que ela “é apenas mais uma personagem. O fato de ser uma mulher no papel não interfere na história. Não há uma grande coisa em cima disso”.

Susana Matias, recepcionista e fã de filmes de super heróis, questionou a razão de tanta polêmica em cima do filme. “Quando lança qualquer coisa do Batman, do Thor ou qualquer outro herói, todos vão ver e ninguém fala nada. Agora, só porque temos filmes como o da Mulher Maravilha e da Capitã Marvel, estão dizendo que a mulher quer dominar tudo”, desabafa.

 

Patrícia Colmenero, doutora em cinema, no pátio do Centro Universitário Iesb.

Patrícia Colmenero, doutora em cinema, no pátio do Centro Universitário IESB

Teste de Bechdel

A fim de avaliar a representatividade feminina em filmes, a cartunista Alison Bechdel, ao criar um quadrinho que questionava a maneira como a mulher era apresentada em filmes, influenciou o teste de Bechdel. Esse teste basicamente questiona se em uma obra de ficção há ao menos uma cena com duas mulheres nomeadas que conversem sobre qualquer assunto que não tenham relação com homens.

Para Patrícia, este teste funciona como um pré-requisito mínimo humano, pois “não há nada mais básico do que uma pessoa possuir um nome e conversar sobre assuntos diversos, mostrando que a mulher é um ser que pensa e existe para além do homem”.

Há também quem questione a eficácia do teste de Bechdel, como é o caso de Isabella, que criticou o fato de que filmes conhecidos como “machistas”, como American Pie, passaram no teste de Bechdel.

“Mulher Maravilha” e a criação de filmes de super-heroínas

Lançado em 2017, Mulher Maravilha foi realizado com um orçamento de 149 milhões de dólares e arrecadou cerca de US$ 820 milhões, tornando-se a maior bilheteria do mundo de um filme dirigido por uma mulher, Patty Jenkins.

O sucesso da obra em questão foi o que possibilitou a criação de novos filmes do universo de super-heróis protagonizados por mulheres, transformando Capitã Marvel em uma realidade. O estúdio da DC, juntamente com a Warner, já anunciaram a sequência de Mulher Maravilha e a própria Marvel garantiu aos fãs que o filme da Viúva Negra, personagem recorrente na saga de filmes dos Vingadores, também seria providenciado em breve.

Mulher Maravilha entrou na pauta de filmes discutidos pelo grupo Helenas, porém foi descartado. O motivo, de acordo com Isabella Alves, foi a “sexualização” da personagem presente na obra cinematográfica. “Diana é sem dúvidas uma personagem forte, mas o roteiro preferiu focar em sua aparência e sensualidade”, explicou Isabella. “Até a resolução do filme, o momento em que a heroína se mostra mais poderosa, se deve a um personagem masculino e os sentimentos dela por ele”. Nesse quesito Capitã Marvel se sobressaiu. “Ela é forte. Simplesmente é. Não há motivos exteriores para sua força”, Isabella conclui.

 

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