Cidades

Amor sem pedigree

Capital tem cerca de 30 mil animais vivendo nas ruas; relatos de amor e acolhimento aos bichinhos inspiram trabalhos voluntários e adoções

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Segundo pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS), existem cerca de 30 milhões de animais vivendo nas ruas do Brasil. No Distrito Federal, de acordo com a Associação Protetora dos Animais do DF (ProAnima), são cerca de 30 mil abandonados. No meio de tanto abandono e desprezo, surgem pessoas que buscam dar uma vida digna aos bichinhos que precisam apenas de carinho e amor.

A cultura de pagar milhares de reais para comprar animais em pet shops ou canis de luxo sempre foi normal no Brasil. Porém, casos de maus-tratos realizados por donos desses estabelecimentos vêm gerando campanhas como o “Adote, não compre”. Um caso que ganhou notoriedade nos últimos meses foi o da ativista Luisa Mell, que denunciou e resgatou 1.707 cães que estavam sofrendo maus-tratos em um canil em Piedade-SP que tinha vínculo com a Petz, uma das redes de pet-shops mais famosas do Brasil.

Logo após a divulgação do escândalo, a Petz decidiu não comercializar mais seus animais. “Ao nos perguntarmos sobre a possibilidade desse tipo de episódio vir a se repetir, chegamos à conclusão que o nosso processo era 99% seguro. Ocorre que 99% não é 100%. E se há a menor possibilidade de isso acontecer de novo, então não serve. Tomamos uma decisão: a partir de agora, as 82 lojas do grupo Petz espalhadas pelo Brasil não comercializarão mais cães e gatos”, afirma o Presidente da empresa, Sérgio Zimerman, por meio de comunicado oficial divulgado em fevereiro.

No DF, comparando o primeiro trimestre de 2017 e o primeiro trimestre de 2018, foi registrado um aumento de 87% nos casos de maus-tratos e abandonos de animais, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP). Além disso, a Polícia Ambiental do DF diz receber cerca de 7 denúncias de abusos contra animais por dia.

Ana Lídia Pereira, de 37 anos, é servidora pública e também protetora de animais. Ela faz parte de um projeto em Planaltina – DF chamado Filhos Pets que abriga e doa animais de rua, e explica como funciona o trabalho de seu projeto: “Ele consiste em resgate. Eu resgato, por exemplo, uma cadela que esteja grávida ou que já esteja com seus filhotinhos na rua e acomodo ela em uma casa alugada que mantenho junto com uma amiga para o projeto. Também faço feiras de adoção. Tenho um ponto físico no Extra Park, em frente ao Park Shopping, mas meus animais também podem ser adotados pelas minhas redes sociais’’, conta ela.

Idealizadora do Projeto Filhos Pets, Ana Lídia organiza feiras de doações (foto: Arquivo pessoal)

Idealizadora do Projeto Filhos Pets, Ana Lídia organiza feiras de doações (foto: Arquivo Pessoal)

 

A servidora, que atualmente está cuidando de 10 cachorros e 5 gatos, disse que é difícil ter tempo para si, pois tem que conciliar a sua vida profissional com o tempo que passa cuidando dos bichinhos. “Além disso tem a dificuldade financeira, pois como o projeto funciona totalmente com doações, às vezes chegam contas decorrentes do que os bichinhos precisam. Então, faço apelos em redes sociais para que nos ajudem a pagar. Mas temos vitórias também, pois cada bichinho que coloco para adoção é adotado e depois vou recebendo fotos e vídeos deles de seus donos. Isso pra mim é uma vitória’’.

Quando questionada sobre a compra de animais, Ana foi direta: ‘’Sou contra porque a vida não se compra. Animais têm sentimentos também e ninguém vende um filho ou obriga uma pessoa a procriar o tempo inteiro para lucrar com as crias. Por que com os bichinhos têm que ser diferente?”.

Quem adota

Patrícia El-moor, de 38 anos, é professora de dança e cria três gatos junto com o seu marido na Octogonal. Desde pequena é apaixonada por bichos, tanto que virou vegetariana cedo, e atualmente é dona de Lalá, Baunilha e Kaplan (tigre em turco). A história começa com uma gata que Patrícia cuidou antes dos três, a Penélope. “Ela me seguiu na rua uma vez, e eu fiquei louca por ela. Comecei a dar ração todo dia. Ela chegava sempre no mesmo horário e fiquei com pena de deixar ela na rua. Então, acabei adotando’’, conta Patrícia.

Patrícia com o ''brincalhão'' Kaplan, que significa tigre em turco.

Patrícia com o ”brincalhão” Kaplan, que significa tigre em turco

Após 12 anos, Penélope começou a dar sinais de envelhecimento e cansaço. Para tentar dar mais vida e energia à gata, Patrícia decidiu adotar Lalá. Lalá é a típica gata que se acha a dona da casa e fez companhia para Pepê, como Penélope era carinhosamente chamada por sua dona, em seus últimos anos de vida. “A Lalá ficou muito triste sem a Penélope. Ela emagreceu, ficava pelos cantos da casa miando com saudades da amiga, e foi assim até a veterinária recomendar que adotássemos outro gato para fazer companhia à Lalá. Então, uma amiga minha resgatou a Baunilha em uma rua na Asa Sul e me perguntou se eu poderia ficar com a Baunilha por um tempo. Após um mês decidi ficar com ela de vez’’, lembra ela.

Baunilha é uma gata dorminhoca que consegue ficar quase o dia inteiro deitada na mesma posição. Lalá e Baunilha ficaram juntas por cerca de 2 anos, até que em uma noite o marido de Patrícia encontrou Kaplan em um churrasco de rua no Sudoeste. “Eu estava viajando e o meu marido estava comendo em um churrasquinho de rua. Do nada, o Kaplan apareceu e ficou pedindo comida para o meu marido, que respondeu dando pedacinhos de carne para o gato. Na hora de ir embora, meu marido foi para o carro e o Kaplan simplesmente entrou no carro junto com ele’’, comenta, rindo, a professora.

Kaplan é o único macho e também o único brincalhão dos gatos de Patrícia e seu marido. O felino realmente parece um tigre de tão grande e peludo que é, e foi a cereja do bolo para a casa da professora de dança, que lamenta não ter espaço para adotar mais gatos. Patrícia finaliza dizendo o porquê sempre procurou adotar e não comprar os seus bichinhos: “Eu acredito que são muitos animais que precisam de um lar, e sempre fiquei muito comovida com animais de rua. Tanto que eu acho que se todo mundo puder abrir suas casas para cuidar de pelo menos um ao invés de incentivar o comércio de animais, não só estamos fazendo bem a eles, como eles estão fazendo para a gente também, porque eles vêm cheios de amor para oferecer.

Doação responsável

O Centro de Controle de Zoonoses do DF é responsável pelo controle de doenças virais como leptospirose, raiva e febre amarela. Criado em 1978, o centro que é controlado pela Diretoria de Vigilância Ambiental em Saúde também trabalha com a doação de animais.

A organização exige que o adotante se identifique com documento oficial, tenha mais de 18 anos, leve um comprovante de residência e assine o termo de posse responsável, para que o adotante se comprometa a alimentar, abrigar, prestar assistência veterinária, dar carinho e não abandonar o animal.

Ana Lídia também recomenda que o doador pesquise sobre a vida do adotante. “A adoção é feita através de um termo de adoção, mas antes a pessoa passa por uma entrevista comigo onde faço perguntas, e ela tem que me dar a certeza de que o animal vai ser adotado por uma família que vai poder suprir todas as necessidades dele ao longo dos seus anos de vida, como vacinas, cuidados veterinários, ração e lazer, por exemplo’’, explica a protetora.

Serviços

Quem estiver interessado em adotar um bichinho, o Projeto Filhos Pets realizará uma feira de adoção no dia 6 de abril, das 10h às 18h no estacionamento do Extra Park, em frente ao Park Shopping.

Denuncie maus-tratos contra animais à Polícia Civil do Distrito Federal pelo WhatsApp do número (61) 98626-1197, pelo e-mail denuncia197@pcdf.df.gov.br, ou pelo telefone (61) 3207-4856.

O Batalhão Ambiental da Polícia Militar também pode ser procurado e funciona 24h por dia. Os contatos são o telefone (61) 3190-5190 e o WhatsApp (61) 99351-5736.

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